O diálogo entre a tradição judaica e a
prática espírita em São Paulo
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Doutora em ciência da religião pela PUC-SP, a
tradutora e escritora Andréa Kogan é referência
acadêmica no estudo da intersecção entre a
tradição judaica e |
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a doutrina espírita no Brasil, especialmente na
cidade de São Paulo. |
Seu livro Espiritismo judaico (Ed. Labrador) traz
sua pesquisa. É o resultado da sua tese de doutorado que
investigou como alguns judeus conseguem entrelaçar as
raízes ancestrais do judaísmo aos princípios de Allan
Kardec, realizando práticas espíritas em suas casas.
Nesta entrevista exclusiva ao Correio, ela, que é judia
e estuda a doutrina espírita, compartilha sua
experiência de observação, por mais de seis anos, de
famílias judaicas paulistanas praticantes do
espiritismo, bem como os desafios e a riqueza desses
encontros, que retratam não apenas um recorte importante
na sua vida acadêmica, mas o exemplo da boa convivência
nos diálogos inter-religiosos.
Acompanhe.
Como você define o “espiritismo judaico”? É um movimento
ou uma releitura do judaísmo sob a ótica kardecista?
Espiritismo judaico foi um nome que eu dei para o meu
livro, baseado no doutorado que realizei em ciência da
religião na PUC-SP, sob a orientação do filósofo,
escritor e professor Luiz Felipe Pondé. Estudei famílias
judias que praticam o espiritismo. O título da tese –
“Vivência espiritual judaica na metrópole paulistana:
judeus-espíritas na contemporaneidade” – era muito longo
para um livro. Conversando com os editores, chegamos no Espiritismo
judaico. Trata-se, portanto, do nome de um livro,
não de uma corrente ou de uma nova religião. Lembramos
que é importante desmistificar o judaísmo, mostrando
suas várias facetas.
O que é, afinal, o judaísmo?
O judaísmo não é só religião. Pode ser uma cultura, uma
nacionalidade, uma identidade, um povo etc. No Brasil
vemos uma variedade de “crenças, espiritualidades,
religiões”: uma pessoa vai à missa de manhã e a um
terreiro à noite, por exemplo. No caso dos judeus, em
determinados lugares, o espiritismo caminha lado a lado
com o judaísmo. E tais praticantes dizem mesmo que são
judeus e espíritas.
Você é judia e é espírita?
Não. Eu só estudei o espiritismo e acho que ter uma só
religião, o judaísmo, já está ótimo para mim. Mas tenho
muito interesse no espiritismo. Sempre tive muita
curiosidade de entender outras religiões. Nasci e cresci
no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, um bairro de
múltiplas culturas e religiões, sempre vi as pessoas
irem à missa, falarem de candomblé, de umbanda. Só mais
tarde é que fui me interessar por isso.
Qual a convergência do judaísmo com o espiritismo?
O judaísmo é uma religião monoteísta. Os judeus
acreditam num Deus único. Podemos entender que o
judaísmo é considerado uma religião nos termos modernos,
mas ele é muito mais. O judeu pode ser um judeu ateu, um
judeu espírita, um judeu budista etc. É possível ser
judeu por questão cultural, por identidade, e nem todos
cumprem as normas da Torá. É um povo que caminha junto,
que tem certos hábitos. Um grande pesquisador no começo
do século 20, Mordecai Kaplan (1881-1983) defendeu que o
judaísmo é uma civilização.
O que faz um judeu se sentir à vontade para praticar o
espiritismo sem sentir que esteja rompendo com sua
tradição ancestral?
Os judeus com quem eu falei para elaborar meu estudo têm
essas práticas pessoais dentro das suas casas e levam
muito bem essa dualidade, porque já nasceram em lares
espíritas. Vejo que a questão mais delicada é a
mediunidade. Todos sabemos que a mediunidade não é
fenômeno exclusivo espírita. Porém, no Brasil, quando se
diz que a pessoa é médium, já se vincula o fato ao
espiritismo. Acredito que existam muitos judeus médiuns,
que se conectam ao espiritismo por essa questão e acabam
conhecendo as obras de Allan Kardec; e o contrário
também é verdadeiro. Outra questão é realmente o
interesse e o conforto que o espiritismo traz. No
judaísmo, não se tem informações tão concretas do além
quanto há no espiritismo. A alma depois da morte está em
um lugar, no Jardim do Éden. Digo isso porque, até hoje,
nesses momentos de dor, as pessoas vêm falar comigo
sobre a questão das comunicações. Todos querem algo mais
concreto, querem o conforto de saber se seu ente querido
que partiu está bem.
Mas não existe nada parecido na religião judaica?
Não. Porque, inclusive, a convocação dos mortos é a
única coisa proibida pela Torá; qualquer tipo de
necromancia. Há relatos bíblicos sobre isso, há
literatura mística também, mas não é algo natural e
aceito por todos. Até conheci pessoas judias não
ortodoxas com mediunidade que chegaram a ir em reunião
espírita, mas disseram: “não é para mim, porque a Torá
me proíbe de fazer isso”. Estou falando de uma população
brasileira laica, secular, judia, que tem o espiritismo
como sua prática. E é bastante gente.
Nunca vamos ter números. Temos no Brasil 120 mil judeus,
o que é muito pouco; o número de judeus no mundo é cerca
de 15 a 16 milhões. E jamais vão responder se têm outra
religião aqui no Brasil. Esse assunto acaba ficando
restrito à família, na intimidade.
Como você descobriu esses judeus espíritas e conseguiu
participar de suas reuniões?
Sou filha de pais liberais em relação a esses assuntos.
Fui criada num ambiente judaico, escola judaica e clube
judaico, mas não num ambiente religioso fechado. Tudo
era falado às claras. Aos 13 anos, li o livro do Roberto
Muszkat [Quando se pretende falar da vida, GEEM].
Ele havia desencarnado aos 19 anos. Tinha acabado de
entrar na faculdade de medicina para seguir a mesma
carreira do pai. O doutor David Muszkat era amigo do meu
pai e deu-lhe um exemplar desse livro. Li e fiquei muito
impressionada com as 22 cartas do Roberto, psicografadas
pelo Chico Xavier.
Cursei Letras, fui dar aula, segui a vida acadêmica e,
quando resolvi fazer o doutorado, quis voltar ao
assunto. Da minha cabeça de adolescente eu lembrava do
fato de o Chico psicografar uma estrela de David e em
cada uma das seis pontas colocar o nome do Roberto e dos
seus outros cinco irmãos. Como é que o Chico fez isso se
não sabia o nome deles? Também havia nessas cartas
palavras em hebraico. Isso foi uma coisa que ficou muito
presente para mim e, quando fui escrever a tese, serviu
também de base, mesmo porque o Chico era respeitado por
todos, independentemente da religião.
Como a família Muszkat chegou até o Chico?
Após voltar bem para casa, depois de uma cirurgia
simples de garganta para a retirada das amígdalas,
Roberto teve um choque anafilático ao usar um
medicamento nasal ao qual era alérgico e partiu. A
família, em choque, foi levada a Uberaba, MG, para falar
com o Chico.
Você acredita que essas famílias judaicas que aderiram à
prática do espiritismo tenham sido influenciadas por
essas comunicações, essas cartas do Chico?
Sim, mas acho que há mais coisas. Há também toda uma
vinculação com a doutrina, com os livros, com o estudo,
com a prática da caridade, com o conforto que o
espiritismo oferece.
E como a comunidade judaica mais ortodoxa recebeu o seu
trabalho?
A comunidade ortodoxa não vai ler meu livro, pois é uma
“literatura laica, secular”. Ao fazer palestras em
ambientes judaicos, algumas pessoas ficam talvez mais
incomodadas. Mas é assim mesmo em todas as religiões e
espiritualidades. Quando você trata destas questões
delicadas, há sempre incômodos.
Você acha que esse trabalho inédito traz uma
contribuição cultural para a sociedade?
Sim, porque falo da riqueza cultural, da diversidade
brasileira, e precisamos tratar disso. Faz parte do
brasileiro ter duplas ou múltiplas religiosidades. As
pessoas se sentem legitimadas quando há um livro falando
sobre o que elas vivem.
Você encontrou na obra de Kardec algum ponto que fosse
contraditório a essa prática do espiritismo por pessoas
de outras religiões?
Não. Kardec é muito aberto, sempre colocando que o
espiritismo é uma filosofia e uma ciência. O Brasil é o
único país que tem o espiritismo como religião e é, como
sabemos, muito ligado ao cristianismo. É claro que, ao
envolver questões sobre Jesus, isso pode causar um
estranhamento para quem não entende o contexto dos
livros. Os judeus com os quais conversei entendem que
Jesus não é Deus, mas um profundo profeta, uma grande
alma, sem considerar que ele seja o salvador, o messias,
o filho de Deus.
Eles conhecem a resposta de O livro dos espíritos de
que Jesus foi o espírito mais elevado que esteve entre
nós?
Todos eram grandes leitores e conhecedores da obra de
Kardec, fizeram muitos cursos. Quando essa questão
surgia, havia respeito, sem discussão. São lares que
realizam o Evangelho no Lar como uma tradição de muitos
anos, iniciada com os avós, depois os pais, com pequenas
modificações ao longo do tempo. Há a meditação ou a
oração de início, o estudo de O livro dos espíritos, O
livro dos médiuns, O evangelho; às vezes,
algum outro livro ou texto trazido por alguém. E, se for
permitido ter algum tipo de comunicação, ela acontece.
Pode ser dos mentores da casa, às vezes alguma ligação
de alguém que já partiu e que vem dar o seu recado. São
reuniões familiares, com amigos e conhecidos.
A que você atribui o fato desses grupos terem surgido e
se consolidado?
Eu acho que é a força familiar, pelo menos nesses dois
grupos que eu frequentei. Claro que há outras pessoas
judias praticando o espiritismo, mas o que eu posso
falar sobre as famílias que pesquisei é que são muito
parecidas. Uma família não conhece a outra e em ambas o
núcleo familiar que começou há décadas permanece unido
com aquelas práticas.
Há jovens dando continuidade nas duas casas pesquisadas?
Em uma das casas, uma sobrinha, que tem a questão
mediúnica bastante intensa, foi para a umbanda e abriu
um terreiro; escolheu outra linha espiritual. Na outra,
não sei se vejo continuidade. Acho que é uma questão de
organização também da vida moderna. As pessoas dizem não
ter tempo, porque toda religião exige sacrifício,
comprometimento. Isso a gente vê hoje até no cuidado com
o vocabulário, quando preferem dizer que não têm
religião, que têm espiritualidade. Não querem se
comprometer. Isso é um fenômeno contemporâneo.
Esta matéria foi publicada originalmente
no jornal Correio Fraterno, de São Bernardo do
Campo (SP).