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Narrou-nos, certa vez, Sr. Euclides, um grande amigo e
fiel trabalhador do Espiritismo, diante de seus mais de
noventa anos, uma história que muito nos comoveu.
Trata-se do casamento de um sobrinho seu, de uma cidade
do interior de Minas Gerais. Ele, espírita, atuante,
orador... Ela, católica, atuante, evangelizadora.
Fizeram um acordo: nenhum imporia a sua religiosidade ao
outro nem impediria as realizações das tarefas de que
deveriam se desincumbir. E assim se deu, em perfeito
respeito mútuo.
Chegavam as datas religiosas católicas. Ela pedia para ir até
Aparecida, e ele a levava fraternalmente, sem nenhum
constrangimento. Sentia ele vontade de visitar os trabalhos de
Chico Xavier, em Uberaba; ela o acompanhava sem nenhum
questionamento.
E foi em uma dessas visitas, quando estavam na periferia da
cidade, participando do trabalho de assistência social que o
médium mineiro ali realizava havia anos, junto às famílias mais
carentes, levando o agasalho, o alimento e, algumas vezes,
alguma ajuda monetária, que se deu o fato que ele nos contou.
No final da tarde, quando se aproximava a hora de partirem, o
marido espírita surpreendeu-se ao ver sua esposa, católica e
pregadora, conversando tranquilamente com Chico. Assim que ela
voltou daquele encontro, ele perguntou sobre o que falavam. Ela,
pedagoga, estudiosa e sempre interessada em aprender mais, disse
ter-se aproximado do médium para perguntar como podiam trabalhar
daquela forma, com tanta gente — mais de quinhentas pessoas,
fora os que vinham de fora só para conhecer o trabalho. Como era
feita a organização naquele espaço simples, num terreno baldio,
a céu aberto? Como mantinham aquelas pessoas ali?
Chico respondeu:
“Nós não organizamos nada, minha irmã; é a fome, é a necessidade
que organiza tudo.”
Então, ela voltou a questionar:
“E essa moedinha que vejo você tirar do bolso do paletó para dar
a alguns mais pobres, de que adianta isso?”
E ouviu do dedicado servidor:
“É o amor, minha irmã. Aqui, eles sabem que são amados. Não dar
as costas àqueles que nos pedem é uma dádiva dos ensinos de
nosso Senhor.”
Então, Euclides, emocionado, voltou os olhos para longe, como
quem recorda um passado de luz, e nos disse, num tom de
exclamação, para concluir aquele caso:
“Hoje ela é uma pregadora espírita.”
Relato de José Antônio Vieira de Paula, publicado no jornal “O
Imortal”.
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