Entrevista

por Marinei F. Silva

Compromisso, fé e transformação:
a trajetória espírita de Gisele Asturiano em tempos de desafios contemporâneos


Evangelizadora há mais de 20 anos, expositora espírita, membro do Conselho Deliberativo do Centro Espírita Nosso Lar por uma década e instrutora do ESDE há nove anos, Gisele Asturiano (foto), nascida em berço espírita, é natural de Mandaguari (PR). Advogada, exerce atualmente a presidência do Centro Espírita Auta de Souza, em Londrina (PR), cidade onde reside desde 1988. Nesta entrevista, concedida gentilmente à nossa revista, ela aborda, entre outros temas, sua trajetória e vivências no movimento espírita.

Além de presidir o Centro Espírita Auta de Souza, de que outras atividades você participa?

Participo do grupo mediúnico Em Busca da Luz, no Centro Espírita Nosso Lar, bem como do grupo público Ivan Dutra, na mesma instituição. Atualmente, exerço a função de qualificadora da Federação Espírita do Paraná e integro o programa do CQTE da mesma federativa. Também sou responsável pelo Departamento de Infância e Juventude da URE – União Regional Espírita.

Entre suas lembranças, qual fato mais a marcou em sua vivência espírita?
Há várias experiências significativas, mas destaco um sonho em que tive clara percepção da responsabilidade com a evangelização de meus filhos, então com 8 e 2 anos. Em momentos de desânimo, também percebi a presença espiritual por meio de mensagens de encorajamento.

Outro episódio marcante ocorreu há cerca de 13 anos, quando enfrentei intensas dores na coluna, que me obrigavam a trabalhar em pé e a recorrer a medicação constante. Mesmo com dificuldades, participei de uma conferência espírita em Curitiba, onde permaneci alternando entre ficar sentada e em pé, devido às dores.

No último dia, durante a comunicação do Dr. Bezerra de Menezes, por intermédio de Divaldo Franco, cheguei a chorar diante do sofrimento físico, mas também senti profundo consolo espiritual. Naquela noite, permaneci em Curitiba para retornar a Londrina apenas no dia seguinte.

Durante o descanso, tive um sonho vívido em que, acompanhada de familiares, era levada a um local simples para passar por uma cirurgia espiritual — experiência que vivi com total lucidez, embora sem dor. Curiosamente, meu companheiro teve o mesmo sonho, com detalhes idênticos, o que pudemos confirmar no dia seguinte.

Após esse episódio, senti-me como alguém em recuperação, e as dores intensas jamais retornaram com a mesma intensidade. Desde então, em situações de enfermidade na família, recorro com confiança à intercessão do querido Dr. Bezerra de Menezes.

Diante dos desafios da sociedade atual, qual deve ser a prioridade dos dirigentes do movimento espírita?
É essencial contar com pessoas comprometidas com a Doutrina Espírita e com a transformação moral individual. O Espiritismo nos convida à autorresponsabilidade — perante nós mesmos, a família e a sociedade —, sempre respeitando o livre-arbítrio alheio.

Devemos superar o personalismo e valorizar o conhecimento e a divulgação da Doutrina, promovendo reflexões profundas que auxiliem na vida prática. Em tempos de fragilidade emocional e desafios na saúde mental, a mensagem de Jesus se torna ainda mais necessária.

Com o advento da internet, de que forma a divulgação espírita tem auxiliado aqueles que buscam conhecer a Doutrina?
A internet revolucionou a comunicação espírita, ampliando significativamente seu alcance. Hoje, pessoas em qualquer lugar do mundo podem acessar conteúdos, participar de estudos e acompanhar atividades em tempo real.

Esse avanço permite que a Doutrina chegue a locais sem centros espíritas ou a pessoas com dificuldades de locomoção, como enfermos e acamados. Além disso, favorece o estudo contínuo, com maior flexibilidade de horários e redução de custos.

Durante a pandemia de COVID-19, os recursos virtuais foram fundamentais, oferecendo apoio emocional e espiritual em um período de isolamento. No meu caso, passei a produzir conteúdos no YouTube, com resumos de obras de André Luiz, o que me trouxe consolo e também passou a auxiliar outras pessoas, inclusive como material de apoio no ESDE.

Na sua avaliação, a divulgação espírita na internet tem sido bem utilizada?
A tecnologia, como qualquer ferramenta, exige responsabilidade. Embora traga benefícios, também apresenta desafios, como a influência de algoritmos e a formação de “bolhas” de informação, que podem afetar a autonomia de pensamento.

Há ainda o risco da disseminação de conteúdos sem base doutrinária, do sensacionalismo e da busca por visibilidade em detrimento da seriedade. Por isso, é fundamental priorizar conteúdos fundamentados nas obras clássicas e em fontes confiáveis, mantendo fidelidade à Codificação.

O uso consciente da tecnologia deve estar alinhado ao equilíbrio espiritual, evitando que sejamos conduzidos passivamente pelas dinâmicas digitais.

Qual a importância da evangelização espírita da infância e seu reflexo na sociedade?
A evangelização infantojuvenil é um dos pilares do movimento espírita. Trata-se do ensino do Evangelho de Jesus à luz da Doutrina Espírita, adaptado à compreensão de crianças e jovens.

Mais do que uma atividade educativa, é um convite à transformação interior desde cedo. Ao trabalhar valores como amor, perdão, responsabilidade e respeito, contribui para a formação de adultos mais equilibrados e éticos.

Seu impacto social é profundo, pois atua como fator preventivo contra comportamentos negativos, promovendo uma fé raciocinada e fortalecida para enfrentar os desafios da vida.

Algo mais que gostaria de acrescentar?
Recordo uma reflexão de Humberto de Campos, no livro Boa Nova: “O homem do mundo é mais frágil que perverso”. Essa mensagem nos convida à compreensão e à caridade, evitando julgamentos precipitados.

O movimento espírita tem avançado na proposta de unificação, mas ainda necessita de corações comprometidos, livres de orgulho e vaidade. Somos espíritos em processo de aprendizado, e a vivência do Espiritismo exige transformação constante.

É igualmente importante manter o equilíbrio entre os três aspectos da Doutrina — ciência, filosofia e moral —, sem reduzir seu alcance. Sua força maior está na vivência moral que propõe.

Suas palavras finais.
Que possamos, todos nós que nos reconhecemos espíritas, ser exemplos vivos dos ensinamentos de Jesus e de Kardec. Que a caridade, a tolerância e o estudo sério orientem nossos passos. Que nossa jornada seja de transformação interior, refletindo-se em nossas ações, contribuindo para a construção de um mundo melhor, à luz do Consolador Prometido. Gratidão pela oportunidade. Muita paz!


 

     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita