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por Wellington Balbo

 

Quem muito corre passa por cima da sorte

Em um bate-papo com um amigo, ele me disse uma frase bem interessante: “Quem corre demais passa por cima da sorte”.

A observação, típica de quem aprecia frases de efeito, levou-me a algumas ponderações. Muitas vezes, na correria, na busca por chegar ao destino, deixamos de apreciar a paisagem, as nuances e os detalhes da “sorte” escondidos na própria vida.

O amigo ainda acrescentou:

— Já faz uns três meses que compareci a um evento, mais por obrigação social do que por vontade. E não é que, de repente, quando já me despedia, tropecei na sorte? Fiz um contato que gerou uma oportunidade de negócios que depois se concretizou. Eu não queria ir; quando cheguei, queria ir embora, mas algo me dizia: “Fique mais um pouco...”. E, nesse ficar, tropecei na sorte. Se tivesse corrido, provavelmente teria passado por cima dela.

A frase convida à reflexão e pode ser compreendida para além de sua literalidade. Quem corre demais não observa o caminho; apressado, quer colher frutos ainda verdes.

Há alguns dias, fui realizar palestras em um centro espírita no bairro de Itapuã — a Itapuã imortalizada pelo “poetinha” Vinícius de Moraes. O tema foi “A Visão de Deus”, constante de A Gênese.

Aprecio palestras para públicos pequenos, de 15 ou 20 pessoas, pois funcionam como um grupo de estudos: colocamos as cadeiras em roda e conversamos. Geralmente, leio o capítulo e o comento. Foi nessa leitura que encontrei o seguinte trecho:

“O Espírito não se depura senão com o tempo, e as diferentes encarnações são os alambiques no fundo dos quais deixa, a cada vez, algumas impurezas.”

Para os Espíritos, há um elemento essencial a compreender: o tempo. Ele é fundamental para o progresso, e as inúmeras fases pelas quais o Espírito passa são necessárias ao seu amadurecimento. Ninguém chega aos 30 anos sem antes passar pelos 3, 5, 15 ou 20. Fase a fase, ciclo a ciclo, momento a momento.

A perspectiva que essa ideia abre é profunda e impacta nossa vida de relações, tanto intrapessoal quanto interpessoal. Ao entendermos que o tempo é necessário ao amadurecimento, quem desejará colher frutos antes da hora? Quem exigirá a consciência de alguém de 30 anos de quem tem apenas 3?

Nosso olhar diante do outro torna-se mais abrangente, e nossas avaliações deixam de ser rasas a ponto de colocarmos todos no mesmo “balaio”.

Os Espíritos são diferentes, criados em momentos diversos, e, por isso, trazem bagagens distintas. De posse desse entendimento, posso escolher melhor minhas ações, decidindo, por exemplo, de quais debates devo, quero ou posso participar — e quais convém evitar.

O mesmo princípio pode ser aplicado à relação intrapessoal, nos diálogos que travo com meu próprio mundo íntimo. Aprendo a me perdoar, a compreender minhas razões e a me olhar com mais humanidade, sem, contudo, justificar meus equívocos. Ao contrário: passo a encará-los com mais lucidez e posso transformá-los sem me escravizar pela culpa.

Assim, construo uma visão mais realista de mim mesmo, sem inflar o ego nem enfraquecê-lo; busco o equilíbrio, esforçando-me para avançar, mas consciente de que há o fator tempo. Com serenidade, sem correria, posso — à semelhança do amigo — apreciar o caminho, a estrada e as nuances que a vida oferece.

Quem muito corre passa por cima da sorte.

Que boa frase para refletirmos.


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita