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por Fernando Rosemberg Patrocínio

 

Fragmentos da realidade


E o fato é que poderíamos, ampliando-o, dar outro título ao presente arrazoado, como, por exemplo, “Recortes da Realidade Universal” ou, ainda, “Momentos Universais e sua Inegável Progressão”. E isso, como é óbvio, pelas mudanças incontestáveis de tudo, pois, já no próximo segundo de nossos relógios, pode-se constatar que algo se transformou, ou, simplesmente, mudou — ou está mudando. E isso, diga-se, em todos os campos de nós mesmos e do que se acha ao nosso derredor: da realidade mundana e, por que não, da realidade universal.

Ora, vejamos, por exemplo, o campo político de nossa nação, que, de um “modelo fascista”, está mudando — ou já mudou, em seu momento da realidade — para um “modelo mais humano”, mais razoável, em que os opositores do Cristo vão sendo substituídos, paulatinamente, pelos que mais o acatam, cumprindo, assim, com os destinos futuros de nossa nação como representativa do “Coração do Mundo”, da “Pátria do Evangelho”, segundo tão relevante instrução espiritista ou mediúnica.

Ora, se tudo é inconstante no mundo, nós também o somos, e isso pelo fator dinâmico e, pois, evolutivo da inteligência humana, que, aos poucos, vai percebendo que nem mesmo a matéria bruta pode escapar de tal inconstância, pois “tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo ao arcanjo, pois que ele mesmo começou pelo átomo” (vide: “OLE” – 1857 – AK).

Logo, tudo se encadeia, se modifica, evolui, cresce e, pois, se altera para melhor, para mais alto, mais ético e solidário para com tudo e com todos da esfera sideral.

Todavia, se tudo muda, se tudo cresce, paradoxalmente temos informações de que poderia o ser — o homem, ou o Espírito — momentaneamente estacionar ou paralisar; mas regredir, jamais. Porquanto, uma vez condicionados ao fenômeno evolutivo universal, já não se pode mais cair ou, diríamos, involuir, como bem elucida a obra de Kardec, de Chico e de muitos outros instrutores.

Mas falávamos, de início, dos “fragmentos” ou dos “recortes da realidade” e, no tocante ao Espiritismo, pelo menos em tese, o que isso quer dizer?

Nada mais, nada menos que somos seres “condicionados” a um determinado ponto de nossa evolução psíquica, do qual só temos a progredir ou evoluir, mas não a regredir ou involuir no sentido oposto da evolução, que, em vez de crescimento, nos sujeitaria a uma forma de nadificação do ser — o que é absolutamente descartado.

E, assim, não pretendendo, em tempo algum, depreciá-los, observemos irmãos nossos de outras crenças, como, por exemplo, os pentecostais. Ora, a maioria desses crê em uma única existência humana no mundo terreno; depois, viriam o céu ou o inferno, além de outras ideias pouco prováveis, oriundas de concepções fragmentárias da grande realidade universal.

O que não se condena por parte desses irmãos; ao contrário, compreende-se, pois tal concepção fragmentária é parte intrínseca de seu recorte da realidade — é o que podem compreender da realidade grandiosa, infinita e não mensurável por suas atuais estruturas mentais. Algo que lhes é, por ora, de difícil compreensão, embora, não obstante, avancem, ainda que a passos lentos, em sua progressividade psíquica ou espiritual.

Mas notemos mais.

Observemos que outros irmãos, um tanto além dos anteriormente citados, parecem perceber um pouco mais da realidade, como, por exemplo, os respeitáveis membros do Catolicismo. Estes, por sua vez, parecem estudar e compreender mais amplamente a realidade mundana e universal e, inclusive, já adotam uma forma de evolucionismo a eles adaptada e compreensível: a do cientista e padre jesuíta Teilhard de Chardin, que, sem admitir a palingenesia, reconhece uma forma de evolução semelhante, em certos aspectos, à adotada pelo neodarwinismo e, em alguma medida, pelo Espiritismo.

Para tais indivíduos — do respeitável Catolicismo —, os planos vegetais avançam, em conjunto, para os planos animais e, posteriormente, para os planos humanos, porém segundo uma forma cosmogenética própria, conforme suas concepções, inteligências e capacidades interpretativas do mundo, como um recorte da realidade terrena e universal.

Convém esclarecer, entretanto, que não admitem, igualmente, como os anteriormente citados, os fatos da reencarnação.

Logo, cada qual de nós, Espíritos terrenos, reencarnados temporariamente no mundo de nossas concepções, vive um determinado fragmento mental, ou um recorte da “Realidade Absoluta”, sendo esta, como dito, absoluta em sua totalidade, elevada ao infinito — aquilo que se possa compreender como o mais completo e total.

E, assim, nossos fragmentos mentais da “Realidade Total” ampliam-se e modificam-se continuamente, ainda que lentamente, na consciência de todos nós, como seres evolutivos que somos. A reencarnação constitui o meio e o método de nosso progresso; por isso mesmo, ao menos por enquanto, não conseguimos ainda nos entender plenamente no campo filosófico, de modo mais amplo e profundo.

E isso se deve aos diversos níveis psíquicos em que nos encontramos, aos diferentes graus de progresso mental. No futuro, porém, haveremos de nos entender melhor, quando tais fragmentos ou recortes mentais estiverem mais desenvolvidos, mais ampliados e, portanto, mais adequados ao infinito sideral, aproximando-nos, assim, da plenitude divina, do “uno ao Pai”, como Jesus declarou em seus ensinos magistrais.

Esse Pai, de grandeza incomensurável, ama-nos infinitamente e nos faz crescer, ininterruptamente, queiramos ou não, a partir de ínfimos e simplificados fragmentos — ou, como dito, “recortes da realidade universal” — condizentes com o psiquismo de cada qual, conforme seu ponto evolutivo, que avança, tendendo ao infinito daquela realidade divina.

Logo, para cada grupo do psiquismo humano existe um “fragmento da realidade universal”: dos que ainda se encontram no “Velho Testamento”; dos que avançaram para Jesus no “Novo Testamento”; e daqueles que, conforme sua promessa, já se situam no “Consolador”, no “Espírito da Verdade”, com sua “ciência do infinito”, abrangendo e aprofundando a ciência, a filosofia e a religiosidade humanas por meio de um recorte da realidade mais amplo e mais elevado, talvez mais próximo do infinito divino, onde espaço, tempo e psiquismo se transmutam em realidade transcendental.

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita