O Vale dos Prepotentes
Romano decidiu-se: iria iniciar, de fato, a
reforma interior.
Vinha pensando nela desde que se tornara
espírita, há mais de quinze anos. Lembrava-se
disso sempre que ouvia alguma palestra ou lia
algo sobre o assunto e dizia a si mesmo: “Eu
preciso realmente me corrigir em muitas coisas,
principalmente no que diz respeito à
prepotência, que é meu pior defeito”.
Os turbilhões da vida, porém, envolviam essas
decisões nas brumas do esquecimento e, somente
depois de novos atos ou atitudes marcadamente
prepotentes, Romano dava-se conta de que
continuava o mesmo.
O sonho que tivera naquela noite, porém, fora
decisivo. Via-se perambulando pelo Umbral, em
ambientes horríveis, assustadores, e trazia no
pulso um estranho bracelete com uma plaqueta de
identificação, na qual estava escrito: “Vale dos
Prepotentes”. A angústia que sentia era medonha,
e o terrível medo que o dominava deixava-o
inerte diante dos monstros que o cercavam, numa
clara demonstração de que queriam levá-lo ainda
mais para baixo, para zonas ainda mais
tenebrosas. Despertou todo trêmulo, suando frio,
e custou-lhe bastante entender que se tratara de
um sonho.
Não. Não iria parar, decididamente, naquele
horrendo lugar, depois que desencarnasse.
Cuidaria de corrigir-se quanto à prepotência, a
partir daquele momento. Seria sua prioridade
absoluta.
Passou, então, a pensar no assunto, meditar
nele, analisá-lo, até concluir que o problema, a
dificuldade, estava na memória... ou na falta
dela. Era preciso algo que pudesse lembrar-lhe,
continuamente, sua decisão, sempre antes de
praticar a prepotência, a fim de poder frear-se
a tempo, porque, depois de vivida, só lhe
restaria o arrependimento e novas promessas a si
mesmo, novamente descumpridas.
À sua mente voltou, com insistência, a cena do
sonho e, particularmente, aquele estranho
bracelete de identificação, como se ali
estivesse a chave da questão.
Quase deu um pulo quando uma ideia surgiu em seu
pensamento. Saiu correndo e foi a uma loja de
bijuterias, onde comprou um bracelete, desses
que têm uma plaqueta para gravar o nome. Pensou
em mandar gravar os dizeres “Vale dos
Prepotentes”, mas desistiu de imediato, pois o
que mais queria era permanecer o mais longe
possível daquele lugar, e resolveu deixar o
bracelete sem qualquer inscrição. Não seria
necessária.
Na rua, achou-se um tanto esquisito e mesmo
ridículo com aquele objeto no pulso, mas lembrou
que qualquer sacrifício seria válido para
escapar ao tenebroso Vale.
Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, teve
de correr quase dois quarteirões para apanhar o
ônibus, que cortara caminho.
Indignado, ao pagar a passagem, dirigiu-se ao
cobrador com aquele ar de superioridade que tão
bem sabia ostentar:
— Por que vocês resolveram cortar caminho,
passando longe do ponto?
Ia dizer mais algumas “verdades”, mas, ao
levantar a mão para segurar-se, sentiu o
bracelete e lembrou-se de seu propósito, de sua
prioridade: escapar do Vale dos Prepotentes.
Enquanto isso, o cobrador respondia que o caso
era com o motorista, cujos cabelos grisalhos
podia ver do local em que se encontrava.
Para amenizar, comentou, procurando levar na
brincadeira:
— É... vai ver ele está tão velho e cansado que
resolveu encurtar a viagem.
Encontrou um assento vago, próximo ao motorista.
Sentia-se indignado. Aquele homem não tinha o
direito de cortar caminho e deixar pessoas
esperando no ponto ou saírem correndo atrás do
coletivo.
O contato da pulseira com a pele do braço,
porém, formava uma espécie de elo psicológico
com o propósito que fizera. Amansou o tom de voz
e procurou fazer a pergunta com o máximo de
gentileza:
— Que foi que houve para o senhor cortar
caminho?
Já era um grande avanço, porque, antes, teria
logo começado a vituperá-lo pela falta de
consideração para com os usuários.
O interpelado olhou para ele, sorriu com
simpatia e respondeu:
— É que tem uma carreta atravessada na rua de
cima e não está dando para passar por lá.
Romano sentiu-se envergonhado... muito
envergonhado. Julgara o motorista,
considerando-o displicente e irresponsável. Era,
aliás, a ideia que fazia deles. E aquele homem
de cabelos grisalhos, sob o peso dos anos,
precisando ainda trabalhar, sorrira-lhe com ar
sincero e fraterno, dando a explicação.
— Que diferença entre nós dois — pensou. — Eu,
todo prepotente, achando-me cheio de direitos, e
ele, apesar da idade e dos desgastes naturais,
dando-me explicações com amabilidade.
Pensou nas vibrações pesadas que certamente
enviara àquele homem, através do pensamento e
dos sentimentos antifraternos. Modificou,
rapidamente, seu estado de espírito e passou a
enviar-lhe vibrações positivas, benéficas,
desejando-lhe, sinceramente, saúde,
prosperidade, bem-estar...
Romano passou o restante do trajeto a meditar
sobre o ocorrido, analisando a si mesmo, as suas
posturas, de forma tão sincera e profunda como
jamais fizera. Percebia, com extrema clareza,
que a reforma íntima precisa estar entre as
principais prioridades de quem realmente deseja
realizá-la; que é necessário pensar nela
continuamente, da mesma forma como costumamos
pensar em algo que estamos planejando executar.
Isso deve gerar memória e, com ela, um “censor
interno” que nos alerte sempre que estejamos a
ponto de cometer o indevido. Essa censura
antecipada é justamente o mecanismo de que
precisamos, a fim de podermos sustar nossas
disposições negativas, antes que aconteçam.
Num impulso incontido, beijou o bracelete,
sentindo-o não como um amuleto, mas como o
lembrete que iria ajudá-lo a se corrigir ou,
pelo menos, a atenuar significativamente sua
prepotência.
Sentiu-se feliz. Havia encontrado um roteiro e
estabelecido um programa que, por certo, iria
livrá-lo de um estágio no Vale dos Prepotentes,
depois que desencarnasse.
Abençoados caminhos do Crescimento Interior.