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por Saara Nousiainen

 

O Vale dos Prepotentes


Romano decidiu-se: iria iniciar, de fato, a reforma interior.

Vinha pensando nela desde que se tornara espírita, há mais de quinze anos. Lembrava-se disso sempre que ouvia alguma palestra ou lia algo sobre o assunto e dizia a si mesmo: “Eu preciso realmente me corrigir em muitas coisas, principalmente no que diz respeito à prepotência, que é meu pior defeito”.

Os turbilhões da vida, porém, envolviam essas decisões nas brumas do esquecimento e, somente depois de novos atos ou atitudes marcadamente prepotentes, Romano dava-se conta de que continuava o mesmo.

O sonho que tivera naquela noite, porém, fora decisivo. Via-se perambulando pelo Umbral, em ambientes horríveis, assustadores, e trazia no pulso um estranho bracelete com uma plaqueta de identificação, na qual estava escrito: “Vale dos Prepotentes”. A angústia que sentia era medonha, e o terrível medo que o dominava deixava-o inerte diante dos monstros que o cercavam, numa clara demonstração de que queriam levá-lo ainda mais para baixo, para zonas ainda mais tenebrosas. Despertou todo trêmulo, suando frio, e custou-lhe bastante entender que se tratara de um sonho.

Não. Não iria parar, decididamente, naquele horrendo lugar, depois que desencarnasse. Cuidaria de corrigir-se quanto à prepotência, a partir daquele momento. Seria sua prioridade absoluta.

Passou, então, a pensar no assunto, meditar nele, analisá-lo, até concluir que o problema, a dificuldade, estava na memória... ou na falta dela. Era preciso algo que pudesse lembrar-lhe, continuamente, sua decisão, sempre antes de praticar a prepotência, a fim de poder frear-se a tempo, porque, depois de vivida, só lhe restaria o arrependimento e novas promessas a si mesmo, novamente descumpridas.

À sua mente voltou, com insistência, a cena do sonho e, particularmente, aquele estranho bracelete de identificação, como se ali estivesse a chave da questão.

Quase deu um pulo quando uma ideia surgiu em seu pensamento. Saiu correndo e foi a uma loja de bijuterias, onde comprou um bracelete, desses que têm uma plaqueta para gravar o nome. Pensou em mandar gravar os dizeres “Vale dos Prepotentes”, mas desistiu de imediato, pois o que mais queria era permanecer o mais longe possível daquele lugar, e resolveu deixar o bracelete sem qualquer inscrição. Não seria necessária.

Na rua, achou-se um tanto esquisito e mesmo ridículo com aquele objeto no pulso, mas lembrou que qualquer sacrifício seria válido para escapar ao tenebroso Vale.

Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, teve de correr quase dois quarteirões para apanhar o ônibus, que cortara caminho.

Indignado, ao pagar a passagem, dirigiu-se ao cobrador com aquele ar de superioridade que tão bem sabia ostentar:

— Por que vocês resolveram cortar caminho, passando longe do ponto?

Ia dizer mais algumas “verdades”, mas, ao levantar a mão para segurar-se, sentiu o bracelete e lembrou-se de seu propósito, de sua prioridade: escapar do Vale dos Prepotentes.

Enquanto isso, o cobrador respondia que o caso era com o motorista, cujos cabelos grisalhos podia ver do local em que se encontrava.

Para amenizar, comentou, procurando levar na brincadeira:

— É... vai ver ele está tão velho e cansado que resolveu encurtar a viagem.

Encontrou um assento vago, próximo ao motorista. Sentia-se indignado. Aquele homem não tinha o direito de cortar caminho e deixar pessoas esperando no ponto ou saírem correndo atrás do coletivo.

O contato da pulseira com a pele do braço, porém, formava uma espécie de elo psicológico com o propósito que fizera. Amansou o tom de voz e procurou fazer a pergunta com o máximo de gentileza:

— Que foi que houve para o senhor cortar caminho?

Já era um grande avanço, porque, antes, teria logo começado a vituperá-lo pela falta de consideração para com os usuários.

O interpelado olhou para ele, sorriu com simpatia e respondeu:

— É que tem uma carreta atravessada na rua de cima e não está dando para passar por lá.

Romano sentiu-se envergonhado... muito envergonhado. Julgara o motorista, considerando-o displicente e irresponsável. Era, aliás, a ideia que fazia deles. E aquele homem de cabelos grisalhos, sob o peso dos anos, precisando ainda trabalhar, sorrira-lhe com ar sincero e fraterno, dando a explicação.

— Que diferença entre nós dois — pensou. — Eu, todo prepotente, achando-me cheio de direitos, e ele, apesar da idade e dos desgastes naturais, dando-me explicações com amabilidade.

Pensou nas vibrações pesadas que certamente enviara àquele homem, através do pensamento e dos sentimentos antifraternos. Modificou, rapidamente, seu estado de espírito e passou a enviar-lhe vibrações positivas, benéficas, desejando-lhe, sinceramente, saúde, prosperidade, bem-estar...

Romano passou o restante do trajeto a meditar sobre o ocorrido, analisando a si mesmo, as suas posturas, de forma tão sincera e profunda como jamais fizera. Percebia, com extrema clareza, que a reforma íntima precisa estar entre as principais prioridades de quem realmente deseja realizá-la; que é necessário pensar nela continuamente, da mesma forma como costumamos pensar em algo que estamos planejando executar. Isso deve gerar memória e, com ela, um “censor interno” que nos alerte sempre que estejamos a ponto de cometer o indevido. Essa censura antecipada é justamente o mecanismo de que precisamos, a fim de podermos sustar nossas disposições negativas, antes que aconteçam.

Num impulso incontido, beijou o bracelete, sentindo-o não como um amuleto, mas como o lembrete que iria ajudá-lo a se corrigir ou, pelo menos, a atenuar significativamente sua prepotência.

Sentiu-se feliz. Havia encontrado um roteiro e estabelecido um programa que, por certo, iria livrá-lo de um estágio no Vale dos Prepotentes, depois que desencarnasse.

Abençoados caminhos do Crescimento Interior.

 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita