Meditamos, neste artigo, sobre a relação entre o
Espiritismo e o fenômeno contemporâneo denominado
“politicamente correto”, especialmente quando este
assume características de coerção moral, censura
intelectual e limitação do livre exame.
Fundamentado nas obras de Allan Kardec — com destaque
para O Livro dos
Médiuns e Obras
Póstumas — e no pensamento de Léon Denis, este
estudo demonstra que a Doutrina Espírita possui
fundamentos epistemológicos e morais incompatíveis com
qualquer forma de imposição ideológica (mormente de
caráter político) que suprima a liberdade de
consciência.
Conclui-se que, no Espiritismo, a humildade e a caridade
não se confundem com conivência, nem a tolerância com
relativismo moral, sendo a verdade subordinada
exclusivamente à razão e à lei natural (de Deus).
Introdução
O Espiritismo constitui-se como uma doutrina de caráter
científico, filosófico e moral, cuja base metodológica
repousa sobre o livre exame, a observação dos fatos e o
uso da razão crítica. Desde sua origem, a proposta
doutrinária rejeita o dogmatismo, a autoridade imposta e
a aceitação irrefletida de ideias, ainda que socialmente
predominantes.
No cenário contemporâneo, observa-se a difusão de
discursos agrupados sob a expressão “politicamente
correto”, os quais, em determinadas circunstâncias,
ultrapassam a legítima preocupação com o respeito humano
e passam a operar como mecanismos de censura simbólica,
intimidação moral e restrição ao debate racional.
Diante desse contexto, a presente reflexão propõe
analisar a compatibilidade — ou incompatibilidade —
desse fenômeno com os princípios da Doutrina dos
Espíritos.
O livre exame como fundamento doutrinário
A liberdade de pensamento constitui um dos pilares
centrais da Doutrina Espírita. Em O
Livro dos Médiuns, Kardec estabelece um princípio
epistemológico rigoroso ao afirmar que a aceitação de
ideias deve ser sempre subordinada à análise crítica: “É
preferível rejeitar dez verdades a admitir uma única
falsidade.” (KARDEC, 2013, p. 303).
Tal orientação demonstra que, no Espiritismo, a verdade
não é definida pela adesão coletiva, mas pela coerência
racional e moral. Sistemas de pensamento que
desencorajam o questionamento ou punem o dissenso, ainda
que sob aparência de virtude, colocam-se em oposição
direta ao método estabelecido por Allan Kardec.
O Codificador adverte, ainda, quanto aos perigos do
entusiasmo acrítico: “O entusiasmo cego é mais perigoso
do que a incredulidade.” (KARDEC, 2013, p. 374).
Essa advertência aplica-se, de modo preciso, a contextos
ideológicos nos quais determinadas narrativas são
aceitas sem exame, sob pena de reprovação moral ou
exclusão social.
Caridade, tolerância e distinção entre pessoas e ideias
Um equívoco recorrente nos debates contemporâneos
consiste em confundir caridade com renúncia ao
discernimento moral. A Doutrina dos Espíritos,
entretanto, distingue claramente a indulgência para com
as pessoas da necessária firmeza diante do erro. Em O
Livro dos Espíritos, Kardec afirma: “A indulgência
jamais deve ir até à conivência com o mal.” (KARDEC,
2011, p. 444).
Essa distinção é reafirmada em O
Livro dos Médiuns, ao se esclarecer que a
tolerância não implica aceitação irrestrita de ideias:
“A tolerância não consiste em aceitar o erro, mas em não
empregar a violência para combatê-lo.” (KARDEC, 2013, p.
289).
Desse modo, o Espiritismo rejeita tanto a agressividade
quanto o silêncio imposto. O respeito ao indivíduo não
exige a abdicação da verdade, nem a suspensão do juízo
crítico.
O falso moralismo e a coerção das ideias
Em Obras Póstumas,
Kardec apresenta uma análise profunda dos mecanismos
pelos quais ideias falsas se mantêm no espaço social não
por mérito racional, mas por intimidação: “As ideias
falsas se sustentam menos pela força do raciocínio do
que pelo temor que inspiram.” (KARDEC, 2010, p. 118).
Esse fenômeno caracteriza ambientes nos quais o medo da
censura substitui o debate honesto.
Kardec complementa: “Toda doutrina que proíbe o exame
proclama-se, por esse fato mesmo, suspeita.” (KARDEC,
2010, p. 121).
Quando o “politicamente correto” assume caráter
absoluto, transforma-se em instrumento de coerção moral,
incompatível com o progresso intelectual e espiritual
defendido pela Doutrina Espírita.
Léon Denis e a supremacia da consciência
Léon Denis, reconhecido como continuador fiel do
pensamento de Allan Kardec, reforça a primazia da
consciência individual sobre a aprovação coletiva.
Em Depois da Morte,
declara: “As multidões não são critério da verdade;
quase sempre perseguiram aqueles que a possuíam.”
(DENIS, 2005, p. 47).
Denis alerta, ainda, para os efeitos morais da supressão
da liberdade de consciência: “Quando a liberdade de
consciência desaparece, a hipocrisia se instala em seu
lugar.” (DENIS, 2008, p. 392).
Essas reflexões evidenciam que, no Espiritismo, a
verdade moral não se subordina às convenções sociais
transitórias, mas à lei natural inscrita na consciência
humana.
Consenso doutrinário espírita
A análise das obras fundamentais permite identificar um
consenso doutrinário claro:
a) a liberdade de pensamento é princípio essencial do
Espiritismo;
b) nenhuma ideia está isenta de exame crítico;
c) a caridade não legitima o erro;
d) o respeito às pessoas não implica aceitação
automática de ideias;
e) a verdade moral prevalece sobre modismos ideológicos.
Tal consenso afasta o Espiritismo tanto do autoritarismo
quanto do relativismo moral.
Conclusão
A abençoada Doutrina dos Espíritos não se alinha ao
“politicamente correto” quando este assume feições de
censura, coerção ou relativização da verdade. Sua
fidelidade é à razão, à consciência e à lei moral.
Conforme afirma Kardec: “Marchando com o progresso, o
Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas
descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um
ponto, ele se modificará.” (KARDEC, 2009, p. 39).
Conclui-se, portanto, que a postura espírita diante das
pressões ideológicas contemporâneas deve ser de
discernimento, liberdade e responsabilidade moral, ainda
que isso implique enfrentar consensos artificiais e
resistências sociais.
Referências bibliográficas:
KARDEC, Allan. A
gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 52. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2009.
KARDEC, Allan. O
livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro.
92. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.
KARDEC, Allan. O
livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 80.
ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. Obras
póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 46. ed. Rio
de Janeiro: FEB, 2010.
DENIS, Léon. Depois
da morte. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
DENIS, Léon. O
problema do ser, do destino e da dor. 29. ed. Rio
de Janeiro: FEB, 2008.