O Espiritismo, desde sua origem com Allan Kardec,
apresenta-se como doutrina de caráter universalista,
racional, progressista e profundamente comprometida com
a dignidade do ser humano. Ao afirmar que “fora da
caridade não há salvação”, o Espiritismo convoca seus
adeptos a uma ética que ultrapassa rótulos, aparências,
nacionalidades ou condições sociais. Ainda assim, quando
observamos atentamente a configuração do movimento
espírita brasileiro, especialmente em seus espaços de
maior visibilidade — congressos, seminários,
mesas-redondas, editoras, tribunas e mídias — surge uma
questão legítima, incômoda e necessária: por que a
presença majoritária é branca? Onde estão os oradores,
escritores, médiuns e intelectuais espíritas negros e
negras?
Trata-se de uma reflexão que não busca instaurar
conflitos, tampouco acusações morais. O convite é ao
exame de consciência coletivo, tão caro à proposta
espírita. A chamada “branquitude” não se refere apenas à
cor da pele, mas a um conjunto de privilégios
históricos, simbólicos e estruturais que se naturalizam
a ponto de parecerem invisíveis. No movimento espírita,
isso se manifesta quando, repetidamente, os mesmos
perfis são convidados a falar, escrever, representar e
conduzir o pensamento público da Doutrina, enquanto
outros permanecem à margem, ainda que igualmente
preparados, comprometidos e inspirados.
É um fato social amplamente documentado que o Brasil
carrega as marcas profundas de mais de três séculos de
escravidão, seguidos de um processo de abolição sem
políticas efetivas de inclusão. Esse legado atravessa
todas as instituições, inclusive as religiosas e
filosóficas. O movimento espírita, embora pautado por
valores elevados, não está fora da sociedade; ele se
insere nela e, por vezes, reproduz inconscientemente
suas desigualdades. Reconhecer isso não diminui o
Espiritismo. Ao contrário, engrandece-o, pois o torna
fiel ao seu espírito progressista.
É importante destacar que há, sim, espíritas negros e
negras atuantes, estudiosos dedicados, médiuns sérios,
trabalhadores incansáveis nas casas espíritas, sobretudo
nas periferias urbanas. Muitos sustentam, no anonimato,
tarefas fundamentais: passes, atendimento fraterno,
evangelização, assistência social. No entanto, raramente
seus nomes figuram nos grandes eventos, nas capas de
livros, nas programações nacionais ou nos espaços de
decisão. A pergunta, portanto, não é se eles existem,
mas por que não são vistos.
A Doutrina Espírita ensina que o Espírito não tem cor,
raça ou gênero. Todavia, ensina também que vivemos
experiências encarnatórias concretas, marcadas por
contextos históricos e sociais que influenciam
oportunidades e trajetórias. Ignorar essas
condicionantes pode nos levar a um espiritualismo
abstrato, distante da realidade, que pouco contribui
para a transformação moral da humanidade. O verdadeiro
espírita é chamado a unir o ideal ao real, o princípio à
prática.
Quando eventos espíritas apresentam sistematicamente
elencos homogêneos, não por má-fé, mas por costume, por
redes de contato restritas ou por uma noção limitada de
“referência”, perde-se uma riqueza imensa de
perspectivas, vivências e sensibilidades. O pensamento
espírita se fortalece na diversidade, pois a pluralidade
de experiências encarnatórias amplia a compreensão da
lei de justiça, amor e caridade.
Refletir sobre a branquitude no movimento espírita não
significa importar disputas ideológicas alheias à
Doutrina. Significa aplicar, com honestidade, o
princípio do progresso moral. Significa perguntar se
estamos, de fato, promovendo a fraternidade universal ou
apenas reproduzindo padrões sociais já consolidados.
Significa questionar se nossos critérios de visibilidade
são realmente meritocráticos ou se carregam vieses
silenciosos.
Allan Kardec afirmava que o Espiritismo marcharia com o
progresso e jamais seria ultrapassado por ele. Esse
progresso, hoje, passa pela ampliação de vozes, pelo
reconhecimento de talentos historicamente
invisibilizados e pela coragem de revisar práticas. Não
se trata de substituir uns por outros, mas de incluir,
de abrir espaços, de ouvir com atenção e humildade.
Que o movimento espírita, fiel à sua missão, possa olhar
para si mesmo com maturidade espiritual, reconhecendo
que a igualdade ensinada pelos Espíritos superiores
começa na prática cotidiana. Dar visibilidade a
espíritas negros e negras não é concessão, é coerência
doutrinária. É afirmar, com atos, que todos somos
Espíritos em jornada, igualmente dignos de contribuir
para a construção de um mundo mais justo, fraterno e
esclarecido.