Especial

por Marcos Paulo de Oliveira Santos

Branquitude no movimento espírita: um convite à reflexão fraterna


O Espiritismo, desde sua origem com Allan Kardec, apresenta-se como doutrina de caráter universalista, racional, progressista e profundamente comprometida com a dignidade do ser humano. Ao afirmar que “fora da caridade não há salvação”, o Espiritismo convoca seus adeptos a uma ética que ultrapassa rótulos, aparências, nacionalidades ou condições sociais. Ainda assim, quando observamos atentamente a configuração do movimento espírita brasileiro, especialmente em seus espaços de maior visibilidade — congressos, seminários, mesas-redondas, editoras, tribunas e mídias — surge uma questão legítima, incômoda e necessária: por que a presença majoritária é branca? Onde estão os oradores, escritores, médiuns e intelectuais espíritas negros e negras?

Trata-se de uma reflexão que não busca instaurar conflitos, tampouco acusações morais. O convite é ao exame de consciência coletivo, tão caro à proposta espírita. A chamada “branquitude” não se refere apenas à cor da pele, mas a um conjunto de privilégios históricos, simbólicos e estruturais que se naturalizam a ponto de parecerem invisíveis. No movimento espírita, isso se manifesta quando, repetidamente, os mesmos perfis são convidados a falar, escrever, representar e conduzir o pensamento público da Doutrina, enquanto outros permanecem à margem, ainda que igualmente preparados, comprometidos e inspirados.

É um fato social amplamente documentado que o Brasil carrega as marcas profundas de mais de três séculos de escravidão, seguidos de um processo de abolição sem políticas efetivas de inclusão. Esse legado atravessa todas as instituições, inclusive as religiosas e filosóficas. O movimento espírita, embora pautado por valores elevados, não está fora da sociedade; ele se insere nela e, por vezes, reproduz inconscientemente suas desigualdades. Reconhecer isso não diminui o Espiritismo. Ao contrário, engrandece-o, pois o torna fiel ao seu espírito progressista.

É importante destacar que há, sim, espíritas negros e negras atuantes, estudiosos dedicados, médiuns sérios, trabalhadores incansáveis nas casas espíritas, sobretudo nas periferias urbanas. Muitos sustentam, no anonimato, tarefas fundamentais: passes, atendimento fraterno, evangelização, assistência social. No entanto, raramente seus nomes figuram nos grandes eventos, nas capas de livros, nas programações nacionais ou nos espaços de decisão. A pergunta, portanto, não é se eles existem, mas por que não são vistos.

A Doutrina Espírita ensina que o Espírito não tem cor, raça ou gênero. Todavia, ensina também que vivemos experiências encarnatórias concretas, marcadas por contextos históricos e sociais que influenciam oportunidades e trajetórias. Ignorar essas condicionantes pode nos levar a um espiritualismo abstrato, distante da realidade, que pouco contribui para a transformação moral da humanidade. O verdadeiro espírita é chamado a unir o ideal ao real, o princípio à prática.

Quando eventos espíritas apresentam sistematicamente elencos homogêneos, não por má-fé, mas por costume, por redes de contato restritas ou por uma noção limitada de “referência”, perde-se uma riqueza imensa de perspectivas, vivências e sensibilidades. O pensamento espírita se fortalece na diversidade, pois a pluralidade de experiências encarnatórias amplia a compreensão da lei de justiça, amor e caridade.

Refletir sobre a branquitude no movimento espírita não significa importar disputas ideológicas alheias à Doutrina. Significa aplicar, com honestidade, o princípio do progresso moral. Significa perguntar se estamos, de fato, promovendo a fraternidade universal ou apenas reproduzindo padrões sociais já consolidados. Significa questionar se nossos critérios de visibilidade são realmente meritocráticos ou se carregam vieses silenciosos.

Allan Kardec afirmava que o Espiritismo marcharia com o progresso e jamais seria ultrapassado por ele. Esse progresso, hoje, passa pela ampliação de vozes, pelo reconhecimento de talentos historicamente invisibilizados e pela coragem de revisar práticas. Não se trata de substituir uns por outros, mas de incluir, de abrir espaços, de ouvir com atenção e humildade.

Que o movimento espírita, fiel à sua missão, possa olhar para si mesmo com maturidade espiritual, reconhecendo que a igualdade ensinada pelos Espíritos superiores começa na prática cotidiana. Dar visibilidade a espíritas negros e negras não é concessão, é coerência doutrinária. É afirmar, com atos, que todos somos Espíritos em jornada, igualmente dignos de contribuir para a construção de um mundo mais justo, fraterno e esclarecido.

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita