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O Espiritismo como caminho para a
educação da diversidade
A diversidade tem se consolidado, cada vez mais, como um
tema central nas mais variadas esferas da vida social.
Ao abordar aspectos como raça, gênero, orientação
sexual, deficiência, entre outros marcadores de
identidade, evidencia-se a pluralidade da experiência
humana e, com isso, resgatam-se os fundamentos da
reencarnação em sua essência mais profunda.
Neste contexto, a Doutrina Espírita, adepta do progresso
moral associado aos fundamentos da fraternidade
universal, ao construir espaços mais inclusivos e
acolhedores, oferece terreno fértil para que todos os
seres humanos possam ser reconhecidos como espíritos
imortais em sua jornada evolutiva.
No que concerne ao Espiritismo, vale ressaltar que a
caridade é a base de toda sua conduta moral. Nesse
sentido, ela não se ocupa apenas do
acolhimento material, mas busca amparar por meio da
escuta afetiva e do respeito, reconhecendo a todos em
sua individualidade.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XI,
Allan Kardec destaca: “A caridade sublime, que Jesus
ensinou, também consiste na benevolência de que useis
sempre e em todas as coisas para com o vosso próximo.” Dessa
forma a verdadeira caridade não se limita ao auxílio
material ou às palavras de consolo que por vezes
dispensamos, mas
manifesta-se, sobretudo, na maneira de agir com respeito
e empatia para
com todos, reconhecendo no próximo um irmão em processo
de evolução.
Portanto, o desejo sincero de compreender o outro, livre
de preconceitos, e o esforço de criar espaços onde todas
as pessoas possam sentir-se vistas, representadas e
respeitadas, também fazem parte do projeto da Boa Nova
apresentada pelo Cristo.
Mas qual o papel das casas espíritas diante da
diversidade?
Historicamente, muitos centros espíritas cresceram
dentro de estruturas sociais que não refletiam a
diversidade da população brasileira, cuja proposta de
conciliar ciência, filosofia e religião não dialogava
com parte da população sem acesso à educação formal e
aos códigos culturais valorizados pelas elites letradas
da época, reproduzindo, mesmo que de forma não
intencional, as desigualdades estruturais da sociedade
em que se inseriram.
Trabalhar a representatividade de pessoas pretas,
LGBTQIAPN+, com deficiência ou de camadas populares,
para além da assistência social, nos convida a refletir:
o que impede esses espíritos de ocuparem plenamente os
espaços espíritas?
Além das barreiras sociais externas, é preciso refletir
sobre posturas silenciosas de exclusão, a ausência de
diálogo sobre temas contemporâneos e a falta de formação
para acolher a diversidade com consciência e
responsabilidade.
A Doutrina Espírita, por meio da fé raciocinada, nos
convida ao autoconhecimento e à reforma íntima como
caminhos para o progresso moral. Um processo que implica
não apenas a transformação individual, mas também a
ampliação da consciência sobre as relações sociais e os
preconceitos que ainda persistem na convivência humana.
Cabe enfatizar que Kardec, em A Gênese, capítulo
I, item 55, chamou atenção para a revisão constante da
Doutrina Espírita: “Caminhando de par com o
progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado,
porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em
erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria
nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a
aceitará”.
Assim, promover estudos temáticos sobre espiritualidade
e diversidade, convidar palestrantes com trajetórias
plurais, abrir espaço para o diálogo interseccional e
desenvolver ações sociais com foco em grupos
historicamente excluídos são formas práticas de tornar
as casas mais coerentes com o ideal Espírita da
fraternidade.
A diversidade é parte essencial da experiência do
espírito imortal, e não havendo superioridade de um
Espírito sobre outro com base em raça, gênero,
orientação sexual ou origem, sendo as diferenças entre
os seres humanos, questões relacionadas ao clima, à
vida e aos costumes, conforme descrito na questão 52, de
O Livro dos Espíritos; a casa espírita, ao
reconhecer que todos os espíritos são criados simples e
ignorantes, segundo a questão 115 de O Livro dos
Espíritos, se converte em um espaço de transformação
social, escuta, crescimento e evolução moral, onde
incluir se torna, de fato, reconhecer o outro em sua
concretude.
Nesse sentido, permitir que cada pessoa seja quem é, é
também uma forma de caridade, capaz de transformar
espaços, relações e, principalmente, consciências.
Referências bibliográficas:
KARDEC, Allan.
O Livro dos Espíritos. Questão
52 – sobre as diferenças entre os seres humanos
relacionadas ao clima, vida e costumes. Questão 115 –
sobre todos os Espíritos serem criados simples e
ignorantes.
KARDEC, Allan.
O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo
XI – sobre a caridade como benevolência universal. “A
caridade sublime, que Jesus ensinou, também consiste na
benevolência de que useis sempre e em todas as coisas
para com o vosso próximo.”
KARDEC, Allan. A
Gênese. Capítulo
I, item 55 – sobre a revisão constante da doutrina:
“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais
será ultrapassado [...]”
Maiza Silva reside em Belo Horizonte-MG.
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