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Crônicas e Artigos

Ano 6 - N° 298 - 10 de Fevereiro de 2013

MILTON SIMON PIRES 
cardiopires@gmail.com

Porto Alegre, RS (Brasil)

 
 

O problema do mal – A Nova Ordem e o fim do Terror


Há séculos o problema do mal aflige filósofos, historiadores e todo aquele que na condição humana se questiona sobre o caráter tantas vezes injusto da vida. Através dos tempos as reações da sociedade aos horrores cometidos em nome do Estado, da Igreja e, acima de tudo, do poder e do dinheiro têm passado por estágios que apresentaram sempre uma característica constante: a ideia de anormalidade, de saída da rotina e de algo que não pode ser aceito como coloquial.

O entendimento do problema do mal pela filosofia parte com frequência de 3 hipóteses: o mal é um produto da vontade humana, é uma força externa, ou uma ilusão da consciência. As explicações invocam preferencialmente a injustiça social e as doenças mentais, mas não se constrangem, se necessário, em apelar até para possessão demoníaca como causa das tragédias que a humanidade já enfrentou.

Desde a época do chamado “mal necessário à sobrevivência”, aquele que se fazia em nome dos instintos básicos e sem a presença do Estado, até a chamada “banalização” que Hannah Arendt descreveu em “Eichmann em Jerusalém”, a impressão do mal como o elemento estranho à ordem social tem causado desconforto a uma espécie que encontrou no amor e na caridade a força para superar todas as outras. Para entender este conflito que atormentou desde os selvagens até os filósofos da Escola de Frankfurt, os pensadores fizeram uso de racionalizações. Santo Agostinho, por exemplo, afirmava que toda coisa que se corrompe guarda em si algo de bom, já que se fosse perfeitamente boa não poderia se corromper e, se nela não houvesse nenhum bem, nada haveria a ser corrompido.  

Seja justificando como fazia Maquiavel ou banalizando como fizeram Hitler e Stalin, o mal sempre se apresentou com desculpas peculiares. As grandes religiões, nos seus conflitos com os poderes do Estado, muitas vezes viram-se, elas próprias, acuadas. Primeiro tentaram explicar (e nunca conseguiram) como Deus, tendo criado tudo, permite a existência do mal. Segundo, como o próprio mal pode ter sido feito “em nome de Deus”. Ao falharem abriram as portas para o Terror do Estado. 

Não deixa de ser trágico, e até certo ponto cômico, que os maiores genocídios da história tenham sido realizados em nome de algo chamado “bem maior” (seja lá o que isso queira dizer) e que seus perpetradores tenham sido os Estados; não os indivíduos.

Neste pequeno texto quero partir de uma premissa distinta – a ideia de que não é necessário mais banalizar a maldade como algo corriqueiro e até mesmo trivial e que, ainda que banalizado, o mal traz consigo a ideia de elemento alienígena a uma determinada ordem social cujas bases não contemplam a crueldade como natural. Isso ocorre porque estas sociedades, por mais violentas que tenham sido, subordinaram seu ordenamento moral ao princípio de individualidade, obrigando o Estado a construir através da burocracia, da violência policial e da desinformação a condição de terror através da qual o mal se banaliza.

É nos cidadãos e não nos estados que reside a capacidade de distinguir, a priori, o bem e o mal. Mais grave que a banalização do mal é a anulação da consciência do indivíduo como única. Enquanto as pessoas tiverem uma consciência independente, o mal precisa ser banalizado, mas, quando a “consciência do estado” conseguir substituir totalmente a do indivíduo sem o uso da burocracia e da desinformação, isso não vai mais ser necessário porque então não haverá mais bem nem mal a se oporem.

Talvez este seja o mais importante aviso a ser dado àqueles que pensam que o problema do mundo seja a falta de fé e a banalização do mal, porque Hanah Arendt viu na capacidade autoritária do estado nazista uma pré-condição necessária para que Eichmann cometesse horrores sem problema algum de consciência. O carrasco nazista acreditava estar agindo “bem” e assim sendo “tinha sua consciência em paz”. 

O domínio dos estados sobre os indivíduos, que vivemos hoje em dia, é radicalmente distinto daquele idealizado por Hitler ou Stalin. Sem apelar para uma “raça superior” ou “justiça social”, a chamada Nova Ordem conseguiu, através do relativismo moral que lhe é peculiar, dominar toda a cultura ocidental. Ela misturou as 3 hipóteses da origem do mal sem aceitar nenhuma como verdadeira. Criou-se assim uma quarta condição em que não existe explicação alguma sobre as causas da maldade, mas tão pouco existe a necessidade de nenhuma máquina estatal gigantesca capaz de gerar terror e, a partir dele, o consenso que garante o poder.

Convivemos com pessoas que têm toda chance de se informarem muito bem, de conhecerem (até pela internet) os detalhes da máquina burocrática do estado e com uma polícia que se prepara com cursos de psicologia e abordagem diferenciada de minorias, mas mesmo assim vivemos com medo. Parece-me que no mundo atual não há mais necessidade do terror, visto que a revolução cultural permitiu criar um estado de consenso sobre temas que até então tinham sido polêmicos. São lugares-comuns a respeito de assuntos tão graves quanto à existência de Deus, homossexualismo e aquecimento global (só para citar alguns exemplos), geradores de um enorme e poderoso acordo silencioso sobre o que deve, ou não, ser dito em sociedades “civilizadas e sem preconceitos”.   

Esse consenso nasce da ideia de que não devemos mais fazer determinadas perguntas e o medo que mencionei acima vem da vontade de questionar a opinião pública; não o conjunto de condições políticas ou o Estado que a construiu.

É esse o mundo em que vivemos hoje – um mundo onde o terror por parte do Estado não é mais necessário porque o medo tornou-se, antes do próprio mal, uma condição imanente da ordem e onde não há hipótese alguma que explique a causa de tanta maldade.

Nasceu assim o mundo previsto por Yeats em seu “Segundo Advento” – o mundo da Nova Ordem e do fim do Terror.


O autor é médico em Porto Alegre, RS.


 


 


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