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Crônicas e Artigos
Ano 3 - N° 121 - 23 de Agosto de 2009

ROGÉRIO COELHO
rcoelho47@yahoo.com.br
Muriaé, Minas Gerais (Brasil)

 

Em matéria de Espiritismo, só o aspecto científico basta?

“(...) A Ciência, propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para se pronunciar na questão do Espiritismo”. Allan Kardec (1)


A pergunta acima já foi insofismavelmente respondida por Kardec na assertiva em epígrafe. Só nos resta desenvolver o tema um pouco mais, visto que existem muitas Instituições e criaturas que se dizem espíritas e, no entanto, só valorizam e consideram no Espiritismo o aspecto Científico, com verdadeira ojeriza ao aspecto Religioso e absoluto descaso ao segmento Filosófico. 

Bastaria a frase de Kardec acima para derrubar a fraquíssima argumentação desses pseudoespíritas, mas podemos nos dar ao luxo de fortalecê-la com outros judiciosos apontamentos do próprio Codificador e até de autores não espíritas. Comecemos, então, por Allan Kardec, este nosso trabalho, cujo escopo é deixar bem claro o quanto o Espiritismo se empobrece e se mutila ao ser considerado com peso maior no segmento Ciência, em detrimento dos dois outros que são Filosofia e Religião, este último teimosamente substituído pelo termo moral, o que não diz nada, visto que moral é simplesmente regra do bom proceder. 

Ensina o Mestre Lionês (1): 

“Para muita gente, a oposição das corporações científicas constitui, senão uma prova, pelo menos forte presunção contra o que quer que seja. Não somos dos que se insurgem contra os sábios, mas suas opiniões não podem representar, em todas as circunstâncias, uma sentença irrevogável. 

Desde que a Ciência sai da observação material dos fatos, em se tratando de os apreciar e explicar, o campo está aberto às conjeturas. Não vemos todos os dias as mais opostas opiniões serem alternativamente preconizadas e rejeitadas, ora repelidas como erros absurdos, para logo depois aparecerem proclamadas como verdades incontestáveis? Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos juízos, o argumento sem réplica”. 

Antes de continuarmos com Kardec, aditemos aqui a jocosa frase do notável filósofo e escritor inglês, Samuel Butler, usando a forma de manchete de jornal:      

“Um terrível acontecimento: uma teoria soberba, covardemente assassinada por um desagradável e pequeno fato”. 

Vezes sem conto a Ciência permanece alheia a fatos importantíssimos que – cedo ou tarde – vêm à baila, como, por exemplo, o abalo que sofreu o racismo ao ser recentemente revelado que as semelhanças guardadas entre os seres humanos independem da cor da pele ou da raça, o que joga por terra o “pesadelo” nazista de “raça pura”. O detalhe genético que diferencia um ser humano do outro é de apenas 0,01%.  Se a Ciência tivesse revelado isso nas primeiras décadas do século passado, talvez o holocausto não tivesse existido, ou se tivesse acontecido, pelo menos não seria arrolado motivo racial. 

A própria psicologia que é a Ciência da Alma, nos seus primórdios, ignorou a alma, na medida em que a psicologia experimental sofreu a influência de Comte, que lhe outorgou o que poderíamos chamar de veto positivista. Tal veto pesou sobre a psicologia desde a metade do século XIX, o que nos faz perguntar como, apesar disso, ela conseguiu se constituir em ciência. 

A psicologia ainda não se emancipou desse veto, uma vez que ainda existe muita interrogação científica no que diz respeito à origem, destino e natureza dos Espíritos. 

Portanto, é inegável a trapalhada em que se meteu a ciência ao longo dos tempos, e embora não a estejamos menosprezando, podemos afirmar que ela não possui argumentos convincentes para combater o que o Espiritismo revela com tanta propriedade e insofismável clareza. 

Voltemos a Kardec (1): 

“(...) Com relação às coisas notórias, a opinião dos sábios é, com toda razão, fidedigna, porquanto eles sabem mais e melhor do que o vulgo. Mas, no tocante a princípios novos, a coisas desconhecidas, essa opinião quase nunca é mais do que hipotética, por isso que eles não se acham, menos que os outros, sujeitos a preconceitos. Direi mesmo que o sábio tem mais prejuízos que qualquer outro, porque uma propensão natural o leva a subordinar tudo ao ponto de vista donde mais aprofundou os seus conhecimentos: o matemático não vê prova senão numa demonstração algébrica, o químico refere tudo à ação dos elementos etc. Aquele que se fez especialista prende todas as suas ideias à especialidade que adotou. Tirai-o daí e o vereis quase sempre desarrazoar, por querer submeter tudo ao mesmo cadinho: consequência da fraqueza humana. Assim, pois, hão de eles permitirem-me, sem que isto afete a estima a que lhes dá direito o seu saber especial, que eu não tenha em melhor conta suas opiniões negativas acerca do Espiritismo, do que o parecer de um arquiteto sobre uma questão de música. 

As ciências ordinárias assentam nas propriedades da matéria, que se pode experimentar e manipular livremente; os fenômenos espíritas repousam na ação de inteligências dotadas de vontade própria e que nos provam a cada instante não se acharem subordinadas aos nossos caprichos.  As observações não podem, portanto, ser feitas da mesma forma; requerem condições especiais e outro ponto de partida. Querer submetê-las aos processos comuns de investigação é estabelecer analogias que não existem. A Ciência, propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para se pronunciar na questão do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso e qualquer que seja o seu julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá ter. O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal, que os sábios, como indivíduos, podem adquirir, abstração feita da qualidade de sábios. Pretender deferir a questão à Ciência equivaleria a querer que a existência ou não da alma fosse decidida por uma assembleia de físicos ou de astrônomos. Com efeito, o Espiritismo está todo na existência da alma e no seu estado depois da morte. Ora, é soberanamente ilógico imaginar-se que um homem deva ser grande psicologista, porque é eminente matemático ou notável anatomista. Dissecando o corpo humano, o anatomista procura a alma e, porque não a encontra, debaixo do seu escalpelo, como encontra um nervo, ou porque não a vê evolar-se como um gás, conclui que ela não existe, colocado num ponto de vista exclusivamente material. Segue-se que tenha razão contra a opinião universal? Não. Vedes, portanto, que o Espiritismo não é da alçada da Ciência. 

Quando as crenças espíritas forem aceitas pelas massas humanas, com elas se dará o que tem acontecido a todas as ideias novas que hão encontrado oposição: os sábios se renderão à evidência. Lá chegarão, individualmente, pela força das coisas.      

Não foi uma douta assembleia que, em 1752, acolheu com retumbante gargalhada a memória de Franklin sobre os para-raios, julgando-a indigna de figurar entre as comunicações que lhe eram dirigidas? E dos daquela outra que ocasionou perder a França as vantagens da iniciativa da marinha a vapor, declarando o sistema de Fulton um sonho irrealizável? Entretanto, essas eram questões da alçada daquelas corporações. Ora, se tais assembleias, que contavam em seu seio a nata dos sábios do mundo, só tiveram a zombaria e o sarcasmo para ideias que elas não percebiam, ideias que, alguns anos mais tarde, revolucionaram a ciência, os costumes e a indústria, como esperar que uma questão, alheia aos trabalhos que lhes são habituais, alcance hoje das suas congêneres melhor acolhimento? 

Repetimos mais uma vez que, se os fatos a que aludimos se houvessem reduzido ao movimento mecânico dos corpos, a indagação da causa física desse fenômeno caberia no domínio da Ciência; porém, desde que se trata de uma manifestação que se produz com exclusão das leis da Humanidade, ela escapa à competência da ciência material, visto não poder explicar-se por algarismos, nem por uma força mecânica.   

O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro.    

O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus. Dirigimo-nos, pois, aos ponderados, que duvidam do que não viram, mas que, julgando do futuro pelo passado, não creem que o homem haja chegado ao apogeu, nem que a Natureza lhe tenha facultado ler a última página do seu livro”. 

Já dizia Rabelais: “Ciência sem consciência não é senão ruína da alma”. 

Numa das lindíssimas pinturas do célebre pintor espanhol Goya, aparece a seguinte inscrição: “O sono da razão produz monstros”. 

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO (2) 

O conhecimento científico é uma conquista recente da Humanidade: tem apenas trezentos anos e surgiu no século XVII com a revolução galileana. Isso não significa que antes daquela data não houvesse saber rigoroso, pois, desde o século VI a.C., na Grécia Antiga, os homens aspiravam a um conhecimento que se distinguisse do mito e do saber comuns.  Tais sábios (sophos, como eram chamados) ocupavam-se com a filosofia e a ciência. 

No pensamento grego, Ciência e Filosofia achavam-se ainda vinculadas e só vieram a se separar na Idade Moderna, buscando cada uma delas seu próprio caminho.  

Cada ciência se torna então uma ciência particular, no sentido de ter um campo delimitado de pesquisa e um método próprio. As ciências são particulares na medida em que cada uma privilegia setores distintos da realidade: a física trata do movimento dos corpos; a química, da sua transformação; a biologia, do ser vivo etc... 

Por outro lado as ciências são também gerais, no sentido de que as conclusões não valem apenas para os casos observados, e sim para todos os que a eles se assemelham. Ao afirmarmos que “o peso de qualquer objeto depende do campo de gravitação” ou que “a cor de um objeto depende da luz que ele reflete” ou ainda que “a água é uma substância composta de hidrogênio e oxigênio”, fazemos afirmações que são válidas para todos os corpos, todos os objetos coloridos ou qualquer porção de água, e não apenas para aqueles que foram objeto da experiência. A preocupação do cientista está portanto na descoberta das regularidades existentes em determinados fatos. Por isso, a ciência é geral, isto é, as observações feitas para alguns fenômenos são generalizadas e expressas pelo enunciado de uma lei. 

Enquanto o saber comum observa um fato a partir do conjunto dos dados sensíveis que formam a nossa percepção imediata, pessoal e efêmera do mundo, o fato científico é um fato abstrato, isolado do conjunto em que se encontra normalmente inserido e elevado a um grau de generalidade: quando nos referi­mos à “dilatação” ou ao “aquecimento” como fatos científicos, estamos muito distantes dos dados sensíveis de um certo corpo em um de­terminado momento.  

O mundo construído pela ciência aspira à objetividade: as conclusões podem ser verificadas por qualquer outro membro competente da comunidade científica, pois a racionalidade desse conhecimento procura despojar-se do emotivo, tornando-se impessoal na medida do possível. A esse respeito diz o filósofo francês Merleau-Ponty:       

“A ciência explica o mundo, mas se recusa a habitá-lo”.  

 Em outras palavras, por mais que a ciência amplie o conhecimento que temos do mundo, de certo ponto de vista, ela -  paradoxalmente - reduz esse conhecimento, pois o cientista remove toda experiência individual que caracterizaria o “estar-no-mundo”. 

Antecipando uma discussão ainda a ser desenvolvida, é preciso retirar do conceito de ciência a falsa ideia de que ela é a única explicação da realidade e se trata de um conheci­mento “certo’’ e “infalível”. Há muito de construção nos modelos científicos e, às vezes, até teorias contraditórias. Além disso, a ciência está em constante evolução, e suas verdades são sempre provisórias.   

CIÊNCIA  E  PODER 

As ciências da Natureza encontram no novo método a possibilidade de uma abordagem mais eficaz da realidade, no sentido de maior previsibilidade dos fenômenos e, consequentemente, maior poder para a transformação da Natureza.   Isso se tornou viável devido à aliança da ciência com a técnica. Como decorrência, ocorreu o desenvolvimento da tecnologia, que é a técnica enriquecida pelo saber científico, que tem alterado o habitat humano timidamente a partir do século XVIII, com a Revolução Industrial, e com grande rapidez no século XX. No entanto, o poder da ciência e da tecnologia é ambíguo, porque pode estar a serviço do homem ou contra ele. Daí a necessidade de o trabalho do cientista e do técnico ser acompanhado por reflexões de caráter moral e político, a fim de que sejam questionados os fins a que se destinam os meios utilizados pelo homem: se servem ao crescimento espiritual ou se o degradam, se servem à liberdade ou às formas de dominação. 

Por isso é impossível admitir a existência do trabalho científico neutro, que procura o “saber pelo saber”. A ciência se encontra irremediavelmente imbricada na moral e na política e o cientista tem uma responsabilidade social da qual não pode abdicar.   É assim que podemos entender o comentário feito pelo professor René Dubos:  “Desde que esse algum lugar [aonde a ciência chega] poderia revelar-se bem indesejável, é melhor fazer escolhas cons­cientes do lugar para onde se quer ir”. 

OS  MITOS  DA  CIÊNCIA

O Iluminismo no século XVIII exaltou a capacidade humana de conhecer o mundo por meio da ciência, considerada expressão de rigor, objetividade e previsibilidade.  Pela ciência o homem podia espantar o medo causado pela ignorância e superstição, guardando a esperança de um mundo onde as luzes da razão permitiriam a melhor qualidade de Vida possível e a emancipação dos preconceitos, da violência e do arbítrio. No entanto, segundo observam os filósofos da Escola de Frankfurt, há sombras nas promessas iluministas. E, se não podemos (e não desejamos) desprezar a ciência e a razão, é preciso com urgência indicar quais são os seus riscos e desvios. 

Já no século XIX, o positivismo valorizava exageradamente o conhecimento científico, excluindo outras formas de abordagem do real tais como o mito, a religião e mesmo a filosofia, consideradas expressões interiores e superadas da experiência humana.   Mas essa exclusão é arbitrária e mutiladora, e significa na verdade um reducionismo: 

•reduz o objeto próprio das ciências a natureza observável, ao tato positivo; 

•reduz a filosofia aos resultados das ciências; 

•reduz as ciências humanas às ciências da natureza. 

Portanto, a preocupação positivista de tudo reduzir ao racional redunda no seu oposto, ou seja, na criação de mitos. O positivismo cria o mito do cientificismo, segundo o qual o único conhecimento perfeito é o científico. Dessa distorção decorrem inúmeras outras. 

Embutido no ideal cientificista existe o mito do progresso. Segundo essa concepção o progresso é inicialmente algo embrionário, cabendo à ação humana transformadora trazer à luz as possibilidades latentes. E se as ciências e as técnicas aumentam o controle do homem sobre a natureza e a sociedade, parece válido pensar que a ação cada vez mais eficaz leve o desenvolvimento aparentemente na direção de um mundo cada vez melhor. Ou seja, o progresso é explicado como um fenômeno linear, cuja tendência automática é o aperfeiçoamento humano. Por isso o ideal do progresso justificaria todas as ações do homem realizadas em seu nome.  Mas infelizmente já conhecemos as consequências: na busca do progresso as construções urbanas tornaram a Vida humana cada vez mais solitária; as fábricas poluem o ar; a especulação imobiliária destrói o verde; a modernização da agricultura torna mais miserável a vida dos boias-frias; a opulência não expulsa a miséria, mas convive com ela lado a lado. 

A Ciência e a tecnologia, mesmo que sejam expressões da racionalidade, produzem contraditoriamente efeitos irracionais, perversos, já que a razão é colocada a serviço da destruição da Natureza, da alienação humana e da dominação. 

QUAL  É  O  PAPEL  DA  FILOSOFIA?

Na Antiguidade, a filosofia era o coroamento do saber. Para Platão, por exemplo, a ciência nada mais era do que a preparação para ela. Com a revolução científica a ciência se tornou autônoma, fragmentando-se em inúmeras ciências particulares.   A civilização ocidental se desenvolveu vertiginosamente sob o signo do saber objetivo e tecnocrático, organizando-se em torno dos princípios da ciência e do progresso. Ora, a visão utilitarista daí decorrente não abre espaço para a filosofia, que, aparentemente, “não serve para nada”. 

Mas a desprezada filosofia encontra-se, na verdade, nos pressupostos da ciência, já que a própria ciência não é capaz de investigar seus fundamentos. Cabe portanto à filosofia discutir a respeito dos conceitos que são usados, da validade dos métodos, do valor das conclusões, bem como da concepção de homem subjacente a cada ciência. 

Outra função da filosofia consiste em estabelecer a interdisciplinaridade dos diversos campos do saber formados a partir da fragmentação resultante do aparecimento das ciências particulares, dando origem a especialistas que investigam rigorosamente apenas parte do todo. A veia satírica de Pitigrilli bem nos mostrou o que isto significa: “0 especialista é aquele que sabe tanto de uma parte, até saber tudo de nada...”.  Cabe à filosofia recolocar o problema da unidade do saber, tornado “esquizofrênico’’ pela ciência moderna, na medida em que foi comparti-mentalizado. O resultado dessa fragmentação é que o homem se torna o grande ausente da ciência. 

Enquanto a ciência e a técnica utilizam a razão instrumental, mais preocupada com os meios, é preciso investigar outro tipo de razões em outras esferas: a das vivências subjetivas, a fim de recuperar o desejo e a sensibilidade oprimidos no processo de “desencantamento do mundo” levado a efeito pelas leis naturais e impessoais da ciência. 

Por isso, a reflexão empreendida pela filosofia não pode ser desinteressada, neutra, nem uma ocupação separada do que ocorre no mundo. Ela tem compromisso com a investigação a propósito dos fins e das prioridades a que a ciência se propõe, bem como com a análise das condições em que se realizam as pesquisas e das consequências das técnicas utilizadas. 

No desempenho desse papel, o filósofo não aparece com respostas prontas e um saber acabado, nem como aquele que deve nortear os rumos da ciência. No mundo de certezas propostas pelo ideal do conhecimento objetivo, o filósofo é aquele que, segundo Merleau-­Ponty, acredita na sua própria desordem interior e por isso acredita na busca segundo a qual sempre haverá coisas para se ver e dizer. 

O  MITO  DA  NEUTRALIDADE  CIENTÍFICA

Atualmente, a atividade científica defronta-se com sérios desafios internos e externos. De um ponto de vista coletivo, os descontentamentos sociais ligados à introdução de inúmeras inovações tecnológicas (da poluição industrial aos horrores das guerras químicas e eletrônicas) estão levando a um questionamento da equivalência entre ciência e progresso, entre tecnologia e bem-estar social.  

O que podemos perguntar, desde já, é se não seria temerário entregar o homem às decisões constitutivas do saber científico. Poderia ele ser “dirigido” pela “ética do saber objetivo”?  Poderia ser “orientado” por esse tipo de racionalidade?  Não se trata de um “homem” ideal.  Estamos falando desse homem real e concreto que somos nós; desse homem cujo patrimônio genético começa a ser manipulado; cujas bases biológicas são condicionadas por tratamentos químicos; cujas imagens e pulsões estão sendo entregues aos sortilégios das técnicas publicitárias e aos estratagemas dos condicionamentos de massa; cujas escolhas coletivas e o querer comum cada vez mais se transferem para as decisões de tecnocratas onipotentes, cujo psiquismo consciente e inconsciente, individual e coletivo, torna-se cada vez mais “controlado” pela ciência, pelo cálculo, pela positividade e pela racionalidade do saber científico; desse homem, enfim, que já começa a tomar consciência de que, doravante, pesa sobre ele a ameaça constante de um Apocalipse nuclear, cuja realidade catastrófica não constitui ainda objeto de reflexão. 

Talvez o problema seja mais bem elucidado se concebermos uma passagem do “saber sobre o homem” a um “saber-querer do homem”, este, sim, capaz de dirigir sua ação. Porque não é na ciência, mas numa antropologia reflexiva, que iremos encontrar o discurso do homem sobre ele mesmo. Só esse discurso pode revelar, como originária e constitutiva do homem, essa dialética do “saber” e do “querer”, do fato e do valor, do ser e do dever-ser.  Ela é esse lugar onde aquilo que foi conquistado à maneira do “fato” faz valer seus direitos em revestir-se da modalidade do “valor” e do “sentido”. Com esse “saber-querer”, a biologia, a psicologia, a sociologia etc. não somente podem, mas devem cooperar, sob o controle do pensamento livre, para a definição de uma ética da ciência Por isso, não podemos admitir que o conhecimento objetivo possa constituir a única finalidade, o único valor, porque, não sendo capaz de fundar uma ética, torna-se incapaz de constituir o valor supremo do homem. Os valores não podem surgir de um saber sobre o homem, mas de um querer do homem, ser inacabado e sempre aberto às possibilidades futuras

Robert Southey, poeta, historiador e crítico inglês afirma (3): 

“(...) De que nos valem o poder aquisitivo, a técnica das indústrias, a produção em massa, a universidade ativa e a riqueza rural, se não possuímos diques capazes de barrar as paixões individuais e as raciais, que ateiam o ruinoso fogo da guerra?” 

No mesmo livro, (pág. 124), afirma Luiz Olímpio Teles de Menezes, um dos expoentes da vanguarda do movimento espírita brasileiro dos primeiros tempos: 

“(...) A Ciência, por si só, é como a terra preciosa sem a semente. De que nos valeria o suor a empapar o chão lavrado, sem a possibilidade de produzir? A verdade tem a balança da sabedoria para analisar os seres e as coisas, mas só o amor possui a chave da Vida”. 

Por todas essas reflexões podemos ver que, isolada, a ciência pode levar a Humanidade ao caos e até mesmo à destruição. Exemplos no passado não faltam, haja vista o emprego bélico da energia nuclear, da dinamite e das possibilidades da química. 

Entanto, a Ciência em estreita parceria com a Filosofia de um lado e a Religião do outro, as três unidas e imbricadas na direção do crescimento espiritual do Homem poderão realizar o que o vulgo chama de “milagres”, cujos corolários desembocariam no delta da definitiva alforria espiritual do ser humano, guindando-o para além do nível de sua atual humanidade.  

Por todas essas razões expendidas é que, ainda que doa aos “espíritas científicos”, eles deveriam humildemente reconsiderar esse posicionamento mutilador da Doutrina Espírita, portanto absurdo, e enfim, compreender que sem a Filosofia e a Religião, a Ciência espírita morreria - congelada e inútil - nos frios laboratórios de análises e pesquisas. 

Se o Espiritismo tivesse que ser considerado tão só pelo aspecto científico, Allan Kardec teria deixado isso muito claro, tão claro quanto realçou o seu aspecto mais importante que é o Religioso, ao afirmar (4): 

“(...) As Sociedades Espíritas serão respeitadas porque falarão em nome da moral evangélica, que todos respeitam. Essa a estrada pela qual temos procurado com esforço fazer que o Espiritismo enverede. A bandeira que desfraldamos bem alto é a do ESPIRITISMO CRISTÃO E HUMANITÁRIO, em torno da qual já temos a ventura de ver, em todas as partes do globo, congregados tantos homens, por compreenderem que aí está a âncora de salvação, a salvaguarda da ordem pública, o sinal de uma era nova para a Humanidade...”

 

Referências:

(1) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 88. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006, Introdução, Tomo VII, § 4º.

(2) ARANHA, M.L.A.; MARTINS, M.H.P. Filosofando – Introdução à Filosofia – Editora Moderna – ed. 1998.

(3) SOUTHEY, Robert/XAVIER, F.C. Falando à Terra – Pág. 107 – FEB.

(4) KARDEC, A. O Livro dos Médiuns – 2ª parte, Capítulo XXIX, item 350.


 


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 Revista Semanal de Divulgação Espírita