Até breve ... Amigo...
Texto dedicado ao amigo, colega e irmão Dâmocles Aurélio
da Silva, que agora respira novos ares
Claro é que desaparece o temor da morte quando a
Doutrina Espírita se faz esperança e vida... A crisálida
da borboleta se desfaz pronta... Sem alarde o pássaro
sai da gaiola que o aprisiona, toma o voo dos
libertos... Na transição, dominando o espaço sonhado.
Canta pelos ares... Segue em direção ao infinito...
Por que deveria estar fora do nosso pensamento, apenas
por estar fora do escafandro do corpo? Segue o
renascimento ao campo de nova fase...
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Passou Dâmocles para o outro lado do grande rio
da vida... Em uma noite |
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de sábado para domingo (14/03-15/03),
subitamente embarcou no sono e se viu livre das
amarras do corpo. |
Aos filhos confidenciou, no sábado à tarde, que nem se
preocupassem, que a noite ia ser tranquila, ninguém
seria chamado para ajudá-lo a ir ao banheiro... Estava
mais calado, coisa que não era de sua personalidade...
Acho que os prelúdios das grandes mentes quando percebem
mudanças...
Nós nos encontramos em uma de suas visitas ao Grupo
Espírita Manoel Quintão (GEMQ). Lá ele buscava os dados
do ilustre médium de efeito físico que durante anos fez
as famosas cirurgias espirituais, capitaneadas pela
materialização direta de médicos alemães, dentre eles o
Dr. Fritz Diedzold. As tardes de sábado e de domingo
eram tomadas pelo papo fácil e investigativo entre
Dâmocles e Severino Paz de Lyra, o grande médium de São
Lourenço da Mata.
Eu, enquanto iniciante no Espiritismo, ficava fascinado
pelo trabalho de Dâmocles e não preciso nem falar sobre
a atividade mediúnica de Severino Lyra, que já no fim da
existência, com mais de 80 anos, tinha um vigor
mediúnico que nem todo jovem de 18 anos. Ao término de
uma reunião pública, Dâmocles fez o questionamento, um
tiro à queima-roupa...
– Onde
está essa erraticidade de que você tanto falou?
Eu olhei para o teto, para o chão, para as paredes e
para as janelas... Respondi:
– Em
todo lugar onde o pensamento achar campo e ideias
semelhantes a se juntar...
Ele se viu surpreso e disse:
– Perguntei
a um grande palestrante sobre o assunto e ele ficou com
raiva, quando discordei dele dizendo que não era um
lugar....
Ri junto e ele emendou:
– Você,
tão jovem e assertivo nas palavras, já sabe que não é um
lugar exato, mas dinâmico... (o tal estado consciencial)
Assim iniciou-se nossa amizade... Vínhamos nos ônibus
entre a integração (baldeação) de Camaragibe e a Cidade
de São Lourenço da Mata em alguns domingos, e, às vezes,
retornávamos juntos até a estação Rodoviária, onde ele
descia para ir até sua residência, no bairro do Curado,
e eu continuava a viagem até a estação Barro (terminal
integrado) e depois ao bairro do Ibura, região
metropolitana da capital pernambucana.
Aprendi a ouvir, escutei relatos, a admiração dele pelo
médium era genuína, sem medo. Reuniu documentos, falou
com pessoas, foi atrás da senhora Marize Duarte, atual
presidente do GEMQ, buscou a ex-companheira do médium
Severino Paz de Lyra, a senhora Suely Werkhäuser, que
tinha recortes de jornais da época enfatizando o
trabalho mediúnico de Lyra e Fritz na Seara de São
Lourenço da Mata... Marize como boa anfitriã e os mais
de 80 médiuns, à época, receberam e deixaram as portas
abertas para perguntas e registros fotográficos do
médium e das dependências da casa. (Daí surgiu o livro
“O médium de São Lourenço da Mata”.)
Há alguns anos era o lugar onde desenvolvia a
mediunidade, GEMQ, e do nada, apesar de já escrever
quadras poéticas inspiradas para apresentar aos domingos
de reunião privada, a sensação era de escrever textos...
E em um dos dias de folga o texto fluiu em frente ao
computador... Seis páginas sobre um tema complexo dentro
do Espiritismo que eu jamais poderia ter recitado do
“nada”. A voz interna sugeriu que enviasse o texto ao
pesquisador Dâmocles, em setembro de 2013, sobre
UNIFICAR E UNIFORMIZAR.
Nunca esperei que o texto fosse colocado para
publicação, mas ele o fez... Acho que a surpresa caiu
como uma bomba para todos. Ele levou o jornal para a
reunião privada no GEMQ onde eu estava sentado à mesa
mediúnica. Na parte de estudo, depois da parte de
interação com os espíritos e a espiritualidade, Dâmocles
pediu a palavra e apresentou o texto... Um susto bom,
mas um belo susto... Não tinha falado com os amigos da
casa nem com o setor mediúnico ou de estudo doutrinário
e nem mesmo com Severino Lyra, a quem eu considerava um
grande amigo além da admiração pelo fenômeno espiritual
ambulante... Era um homem sincero, puro, que vivia em
todos os mundos, literalmente.
Para Dâmocles foi uma maravilha, era o que ele sempre
falava... Em relação a Lyra, fui testemunha direto de
alguns casos, já sem a visão mandava sentá-lo junto ao
telefone, pois não tardaria em tocar com a súplica de
algum médium da casa... O que, de fato, em segundos se
concretizava...
Em outra ocasião ele pediu:
– Me
ponha ao lado do telefone, alguém precisa de uma
palavra.
Ele sem ver deslizava os dedos sobre os números e ligava
para a pessoa certa...
Meses antes de desligar-me do grupo, sem que ninguém
soubesse de minhas intenções de sair... O médium Lyra ao
pegar na minha mão falou tudo... Algo que nem com minha
mãe tinha comentado, ainda... Era o que rolava no
pensamento, e o pensamento ele captou... Como um
microfone registra o eco ainda que inaudível aos
ouvidos... Foi o que Dâmocles me disse:
– Psicometria
com dupla vista, audiência e vidência...
Lyra se foi primeiro. Fizemos uma simples cobertura,
dentro dos dados que tínhamos e dentro do que nos cabia
ao seio da gratidão e ao laço de simplicidade que nos
embalava...
Hoje registramos o desencarne de Dâmocles, e a surpresa
foi grande. Um de seus filhos (Maninho1 –
“O Andarilho Espírita”)
passou uma rápida mensagem de texto informando que seu
pai, Dâmocles, não tinha acordado...Como um passarinho
que vai dormir e não desperta...
A vida nem sempre foi fácil, mas trouxe, ao nosso amigo,
surpresas generosas ... Dois filhos e uma filha, uma
esposa, o dom da inquietude e a sinceridade dos que não
se contentam com verdades superficiais... Amava a esposa
e, do seu jeito, amava seus filhos e netos... Tirava
algumas horas para catucar os descendentes, falava com
entusiasmo dos momentos em família...
Foi um homem espírita, bem-intencionado, superando
algumas tendências de outras existências, lutando com
tantas outras, se inspirando no Espiritismo. Era essa
paixão renovada pela doutrina que aprendeu a amar,
herança materna nos caminhos da vida... Ia pequeno, em
1960, sozinho, à Federação Espírita Pernambucana, quando
ainda estava localizada na rua da Concórdia, para a
Evangelização Infantojuvenil, era seu lazer aos
domingos...
Em despedida, no velório principal do Cemitério de Santo
Amaro - Recife, estavam presentes amigos, familiares,
representantes de instituições, núcleos, grupos e
centros espíritas da região metropolitana e do estado.
Os companheiros de primeira hora Alcioli Santos,
Severino Ramos Damião representando a Federação Espírita
Pernambucana na fala e na lembrança...
Foi um até breve...
“Moque”2 segue do outro lado questionando,
investigando, desvendando o Espiritismo... Segue o
corpo, mas brilham no infinito a alma e a mente
imortal...
Notas:
1 – Maninho: apelido
dado ao filho mais novo de Dâmocles, cujo nome de
batismo é Dâmocles
Aurélio Nascimento da Silva.
2 - Moque: codinome carinhoso dado pelos
familiares e amigos mais próximos a Dâmocles.
O texto acima foi publicado na edição de abril de 2026
do periódico Lampadário Espírita, de Jaboatão dos
Guararapes-PE.