Brasil
por Tiago Rodrigues

Ano 19 - N° 968 - 5 de Abril de 2026

 

Até breve ... Amigo...


Texto dedicado ao amigo, colega e irmão Dâmocles Aurélio da Silva, que agora respira novos ares


Claro é que desaparece o temor da morte quando a Doutrina Espírita se faz esperança e vida... A crisálida da borboleta se desfaz pronta... Sem alarde o pássaro sai da gaiola que o aprisiona, toma o voo dos libertos... Na transição, dominando o espaço sonhado. Canta pelos ares... Segue em direção ao infinito...

Por que deveria estar fora do nosso pensamento, apenas por estar fora do escafandro do corpo? Segue o renascimento ao campo de nova fase...

Passou Dâmocles para o outro lado do grande rio da vida... Em uma noite
de sábado para domingo (14/03-15/03), subitamente embarcou no sono e se viu livre das amarras do corpo.

Aos filhos confidenciou, no sábado à tarde, que nem se preocupassem, que a noite ia ser tranquila, ninguém seria chamado para ajudá-lo a ir ao banheiro... Estava mais calado, coisa que não era de sua personalidade... Acho que os prelúdios das grandes mentes quando percebem mudanças...

Nós nos encontramos em uma de suas visitas ao Grupo Espírita Manoel Quintão (GEMQ). Lá ele buscava os dados do ilustre médium de efeito físico que durante anos fez as famosas cirurgias espirituais, capitaneadas pela materialização direta de médicos alemães, dentre eles o Dr. Fritz Diedzold. As tardes de sábado e de domingo eram tomadas pelo papo fácil e investigativo entre Dâmocles e Severino Paz de Lyra, o grande médium de São Lourenço da Mata.

Eu, enquanto iniciante no Espiritismo, ficava fascinado pelo trabalho de Dâmocles e não preciso nem falar sobre a atividade mediúnica de Severino Lyra, que já no fim da existência, com mais de 80 anos, tinha um vigor mediúnico que nem todo jovem de 18 anos. Ao término de uma reunião pública, Dâmocles fez o questionamento, um tiro à queima-roupa...

 Onde está essa erraticidade de que você tanto falou?

Eu olhei para o teto, para o chão, para as paredes e para as janelas... Respondi:

 Em todo lugar onde o pensamento achar campo e ideias semelhantes a se juntar...

Ele se viu surpreso e disse:

 Perguntei a um grande palestrante sobre o assunto e ele ficou com raiva, quando discordei dele dizendo que não era um lugar....

Ri junto e ele emendou:

 Você, tão jovem e assertivo nas palavras, já sabe que não é um lugar exato, mas dinâmico... (o tal estado consciencial)

Assim iniciou-se nossa amizade... Vínhamos nos ônibus entre a integração (baldeação) de Camaragibe e a Cidade de São Lourenço da Mata em alguns domingos, e, às vezes, retornávamos juntos até a estação Rodoviária, onde ele descia para ir até sua residência, no bairro do Curado, e eu continuava a viagem até a estação Barro (terminal integrado) e depois ao bairro do Ibura, região metropolitana da capital pernambucana.

Aprendi a ouvir, escutei relatos, a admiração dele pelo médium era genuína, sem medo. Reuniu documentos, falou com pessoas, foi atrás da senhora Marize Duarte, atual presidente do GEMQ, buscou a ex-companheira do médium Severino Paz de Lyra, a senhora Suely Werkhäuser, que tinha recortes de jornais da época enfatizando o trabalho mediúnico de Lyra e Fritz na Seara de São Lourenço da Mata... Marize como boa anfitriã e os mais de 80 médiuns, à época, receberam e deixaram as portas abertas para perguntas e registros fotográficos do médium e das dependências da casa. (Daí surgiu o livro “O médium de São Lourenço da Mata”.)

Há alguns anos era o lugar onde desenvolvia a mediunidade, GEMQ, e do nada, apesar de já escrever quadras poéticas inspiradas para apresentar aos domingos de reunião privada, a sensação era de escrever textos... E em um dos dias de folga o texto fluiu em frente ao computador... Seis páginas sobre um tema complexo dentro do Espiritismo que eu jamais poderia ter recitado do “nada”. A voz interna sugeriu que enviasse o texto ao pesquisador Dâmocles, em setembro de 2013, sobre UNIFICAR E UNIFORMIZAR.

Nunca esperei que o texto fosse colocado para publicação, mas ele o fez... Acho que a surpresa caiu como uma bomba para todos. Ele levou o jornal para a reunião privada no GEMQ onde eu estava sentado à mesa mediúnica. Na parte de estudo, depois da parte de interação com os espíritos e a espiritualidade, Dâmocles pediu a palavra e apresentou o texto... Um susto bom, mas um belo susto... Não tinha falado com os amigos da casa nem com o setor mediúnico ou de estudo doutrinário e nem mesmo com Severino Lyra, a quem eu considerava um grande amigo além da admiração pelo fenômeno espiritual ambulante... Era um homem sincero, puro, que vivia em todos os mundos, literalmente.

Para Dâmocles foi uma maravilha, era o que ele sempre falava... Em relação a Lyra, fui testemunha direto de alguns casos, já sem a visão mandava sentá-lo junto ao telefone, pois não tardaria em tocar com a súplica de algum médium da casa... O que, de fato, em segundos se concretizava...

Em outra ocasião ele pediu:

 Me ponha ao lado do telefone, alguém precisa de uma palavra.

Ele sem ver deslizava os dedos sobre os números e ligava para a pessoa certa...

Meses antes de desligar-me do grupo, sem que ninguém soubesse de minhas intenções de sair... O médium Lyra ao pegar na minha mão falou tudo... Algo que nem com minha mãe tinha comentado, ainda... Era o que rolava no pensamento, e o pensamento ele captou... Como um microfone registra o eco ainda que inaudível aos ouvidos... Foi o que Dâmocles me disse:

– Psicometria com dupla vista, audiência e vidência...

Lyra se foi primeiro. Fizemos uma simples cobertura, dentro dos dados que tínhamos e dentro do que nos cabia ao seio da gratidão e ao laço de simplicidade que nos embalava...

Hoje registramos o desencarne de Dâmocles, e a surpresa foi grande. Um de seus filhos (Maninho1 – “O Andarilho Espírita”) passou uma rápida mensagem de texto informando que seu pai, Dâmocles, não tinha acordado...Como um passarinho que vai dormir e não desperta...

A vida nem sempre foi fácil, mas trouxe, ao nosso amigo, surpresas generosas ... Dois filhos e uma filha, uma esposa, o dom da inquietude e a sinceridade dos que não se contentam com verdades superficiais... Amava a esposa e, do seu jeito, amava seus filhos e netos... Tirava algumas horas para catucar os descendentes, falava com entusiasmo dos momentos em família...

Foi um homem espírita, bem-intencionado, superando algumas tendências de outras existências, lutando com tantas outras, se inspirando no Espiritismo. Era essa paixão renovada pela doutrina que aprendeu a amar, herança materna nos caminhos da vida... Ia pequeno, em 1960, sozinho, à Federação Espírita Pernambucana, quando ainda estava localizada na rua da Concórdia, para a Evangelização Infantojuvenil, era seu lazer aos domingos...

Em despedida, no velório principal do Cemitério de Santo Amaro - Recife, estavam presentes amigos, familiares, representantes de instituições, núcleos, grupos e centros espíritas da região metropolitana e do estado. Os companheiros de primeira hora Alcioli Santos, Severino Ramos Damião representando a Federação Espírita Pernambucana na fala e na lembrança...

Foi um até breve...

“Moque”2 segue do outro lado questionando, investigando, desvendando o Espiritismo... Segue o corpo, mas brilham no infinito a alma e a mente imortal...


Notas
:

1 – Maninho: apelido dado ao filho mais novo de Dâmocles, cujo nome de batismo é Dâmocles Aurélio Nascimento da Silva.

2 - Moque: codinome carinhoso dado pelos familiares e amigos mais próximos a Dâmocles.

 

O texto acima foi publicado na edição de abril de 2026 do periódico Lampadário Espírita, de Jaboatão dos Guararapes-PE.
 
  


O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita