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por Ana Teresa Moraes

 

Para onde vão, ao morrerem, as crianças não batizadas?
 
Um amigo nos pede informações sobre o limbo, qual seu significado teológico e como o Espiritismo vê a questão.

Originária do latim, a palavra limbo – limbu, 'orla' – tem vários significados, mas, no âmbito da religião, é o nome que se dá ao lugar onde, segundo a teologia católica, se encontrariam as almas das crianças que, embora não tivessem alguma culpa pessoal, morreram sem o batismo que as livrasse do pecado original.

Considerado um espaço circunscrito fora das cercanias do Céu, o limbo foi  idealizado pelos religiosos da época com a finalidade de abrigar crianças que não haviam sido batizadas e também os que haviam morrido antes do advento da chegada do Cristo. Essa ideia foi incorporada aos ensinamentos católicos como sendo um local destituído de sofrimento, uma vez que as crianças nada fizeram para merecer o castigo, mas também não seria um paraíso, em face da ausência do batismo, um dos sete sacramentos adotados pela Igreja.

Allan Kardec tratou do assunto em seu livro O Céu e o Inferno, em que lemos:


“É verdade que a Igreja admite uma posição especial em casos particulares. As crianças falecidas em tenra idade, sem fazer mal algum, não podem ser condenadas ao fogo eterno. Mas, também, não tendo feito bem, não lhes assiste direito à felicidade suprema. Ficam nos limbos, diz-nos a Igreja, nessa situação jamais definida, na qual, se não sofrem, também não gozam da bem-aventurança. Esta, sendo tal sorte irrevogavelmente fixada, fica-lhes defesa para sempre. Tal privação importa, assim, um suplício eterno e tanto mais imerecido, quanto é certo não ter dependido dessas almas que as coisas assim sucedessem. O mesmo se dá quanto ao selvagem que, não tendo recebido a graça do batismo e as luzes da religião, peca por ignorância, entregue aos instintos naturais. Certo, este não tem a responsabilidade e o mérito cabíveis ao que procede com conhecimento de causa.” (O Céu e o Inferno, Primeira Parte, cap. IV, itens 7 e 8.)

 

Concluindo suas considerações, Kardec escreveu:

 

“A simples lógica repele uma tal doutrina em nome da justiça de Deus, que se contém integralmente nestas palavras do Cristo: ‘A cada um, segundo as suas obras’. Obras, sim, boas ou más, porém praticadas voluntária e livremente, únicas que comportam responsabilidade. Neste caso não podem estar a criança, o selvagem e tampouco aquele que não foi esclarecido.” (O Céu e o Inferno, Primeira Parte, cap. IV, itens 7 e 8.)


O entendimento da Igreja Católica sofreu, no entanto, radical mudança em abril de 2007, quando foi publicado o documento "A esperança de salvação para bebês que morrem sem serem batizados", no qual a Comissão Teológica Internacional da Igreja Católica considerou inadequado o conceito de limbo.

O texto aprovado pelo Vaticano “diz que a graça tem preferência sobre o pecado, e a exclusão de bebês inocentes do céu não parecia refletir o amor especial que Cristo tinha pelas crianças". O documento considera que o conceito de limbo refletia uma "visão excessivamente restritiva da salvação".

Segundo seus autores, "Deus é piedoso e quer que todos os seres humanos sejam salvos". E aduziram: "Nossa conclusão é que os vários fatores que analisamos fornecem uma base teológica e litúrgica séria para esperar que os bebês não batizados que morrerem sejam salvos".

Em face deste novo entendimento da Igreja, os bebês que morrem sem batismo são considerados inocentes e sua destinação, portanto, passa a ser o céu, verificando-se o mesmo com os chamados infiéis, ou não batizados, desde que tenham levado uma vida justa.

O Espiritismo trata, porém, de modo diverso a questão que envolve a situação pós-morte das pessoas, sejam elas crianças, jovens ou idosos, sendo importante lembrar que o conceito espírita de céu, inferno e purgatório é, de igual modo, diferente do que a Igreja ensina.
 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita