Especial

por Leonardo Marmo Moreira

Visitar o cemitério “Père-Lachaise”?

 

Os despojos carnais de Allan Kardec foram inumados, primeiramente, no cemitério de Montmartre. Posteriormente, os restos mortais do Mestre de Lyon foram transladados para o cemitério monumental do Père-Lachaise. Foi nesse momento que espíritas belgas e franceses ofertaram as pedras para a construção do mausoléu da nova sepultura, em homenagem ao Codificador do Espiritismo, as quais constituiriam o chamado “Dólmen”.

“Dólmen” (do bretão dol, “mesa”, e men, “pedra”), ou “anta”, é um tipo de monumento megalítico pré-histórico (cerca de três a cinco milênios antes de Cristo), formado por grandes lajes verticais cobertas por uma pedra horizontal, estabelecendo uma estrutura semelhante a uma mesa. Geralmente, tais construções eram empregadas como sepulturas coletivas e funcionavam como monumentos funerários ou religiosos, sendo muito comuns na Europa.

O monumento foi muito bem concebido, inclusive trazendo um pensamento inspirado, baseado na Doutrina Espírita (muito embora, aparentemente, não tenha sido enunciado por Allan Kardec): “Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sempre. Tal é a Lei”.

A imponente estrutura, presente em um cemitério já muito famoso, causou grande impacto midiático. Talvez esse fosse justamente o objetivo dos homenageadores. De fato, anualmente, os espíritas franceses decidiram realizar reuniões em frente ao “Dólmen”, com breves exposições de exaltação ao legado do Codificador. Em diferentes anos, nomes como Gabriel Delanne e Léon Denis foram convidados para falar, tal como Camille Flammarion fizera no início de abril de 1869.

Com a passagem das décadas, no entanto, o movimento espírita francês foi perdendo força, enquanto o movimento espírita brasileiro foi crescendo e centralizando o Espiritismo no cenário mundial. Assim, muitos espíritas brasileiros passaram a visitar o Dólmen de Allan Kardec em suas viagens à França.

Tal hábito ganhou tamanha dimensão que, atualmente, a visitação ao túmulo de Kardec é feita basicamente por brasileiros, pois Allan Kardec é desconhecido da esmagadora maioria dos franceses. Diga-se de passagem que o túmulo do Mestre de Lyon está entre os mais visitados do famoso cemitério.

O ponto turístico tornou-se quase uma espécie de “peregrinação espírita”, como a visita ao Vaticano para o católico que vai a Roma ou mesmo a viagem à Meca para os islâmicos.

O curioso é que essa prática vem sendo mantida tanto por espíritas anônimos quanto por grandes lideranças. No entanto, não podemos deixar de constatar certa contradição nesse procedimento.

De fato, os confrades que visitam Uberaba tendem a procurar a Comunhão Espírita Cristã ou o Grupo Espírita da Prece para relembrar Chico Xavier, muito embora exista igualmente um mausoléu criado em homenagem ao médium de Pedro Leopoldo. O mesmo valeria para Divaldo Pereira Franco, o Centro Espírita Caminho da Redenção e sua obra assistencial Mansão do Caminho, bem como para qualquer outro admirável espírita do passado.

O Espiritismo representa o estudo das evidências da imortalidade da alma e da realidade dos Espíritos desencarnados no mundo espiritual, bem como de seu contato com os encarnados. A Doutrina Espírita revive, com ênfase, a mensagem de Jesus de Nazaré: “Deixai aos mortos o cuidado de enterrar os seus mortos”.

Ademais, não se deve esquecer do famoso diálogo entre Jesus e a samaritana, no qual a mulher questionou onde deveria adorar a Deus: no templo em Jerusalém ou no monte Gerizim, na Samaria. Jesus respondeu que chegaria o dia em que Deus seria adorado “em espírito e verdade”.

Os tempos são chegados.

Sempre destacamos que os mortos estão “mais vivos do que nós, os encarnados”. Assim sendo, mesmo respeitando o importante gesto histórico de gratidão a Kardec e seu impacto propagandístico ao longo dos anos, seria razoável supor que Allan Kardec seria mais reverenciado se sua mensagem viva — pela qual ele viveu e desencarnou — fosse mais projetada e valorizada.

Seria mais interessante, por conseguinte, que os confrades espíritas que visitassem a França e desejassem realizar um passeio turístico relacionado ao Espiritismo visitassem alguma instituição ou grupo de estudo espírita, favorecendo a divulgação e o fortalecimento desses respectivos núcleos.

Se se trata de mera curiosidade turística, é mais compreensível a visita ao cemitério; mas, se estamos falando de um certo “turismo espírita”, é válida a elaboração de alguns questionamentos.

Frequentemente, por ocasião do Dia de Finados (2 de novembro), vários expositores espíritas, em todo o Brasil, comentam sobre o caráter desnecessário de se fazer visitações aos túmulos de familiares. Se isso vale para o indivíduo comum, vale ainda mais para o Codificador do Espiritismo.

A título de ilustração, poderíamos citar tanto a palestra quanto o livro best-seller do movimento espírita brasileiro, Quem tem medo da morte? O admirável autor Richard Simonetti faz os seguintes questionamentos:

— O corpo enterrado é uma veste desgastada; por que visitar a “veste”?
— No Dia de Finados, o povo vai para o “cemitério da saudade”, mas eu não sei o que esse povo vai fazer lá.
— Não seria mais interessante enfeitar a casa para receber esse querido e ilustre visitante em um lugar mais agradável do que o cemitério, tal como nosso próprio lar?

Respaldamos esses excelentes argumentos do respeitável confrade Richard Simonetti, reforçando que devemos trabalhar para que a “casa de Allan Kardec” seja muito mais o centro espírita ou o lar que estuda sua obra do que o cemitério Père-Lachaise, esteja o confrade em cidades da França ou de qualquer outra nação.

Não é por determinado hábito ter se consolidado que necessariamente ele esteja correto. Quando a Doutrina Espírita veio à Terra, propôs a renovação de várias tradições espiritualistas já não condizentes com o nível intelecto-moral de significativa parcela da humanidade.

Como espíritas militantes e estudantes do Espiritismo, devemos estar dispostos a reavaliar racionalmente nossos próprios comportamentos.

As religiões, em geral, divulgam conceitos espiritualistas, apesar de muitos de seus adeptos fomentarem práticas materialistas. E nós, espíritas, não estamos isentos desse tipo de luta evolutiva.

“Deixai aos mortos o cuidado de enterrar os seus mortos”, disse Jesus, e o Espiritismo, como o Consolador prometido pelo Mestre de Nazaré, é uma mensagem de vivos para vivos.

    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita