Os despojos carnais de Allan Kardec foram inumados,
primeiramente, no cemitério de Montmartre.
Posteriormente, os restos mortais do Mestre de Lyon
foram transladados para o cemitério monumental do
Père-Lachaise. Foi nesse momento que espíritas belgas e
franceses ofertaram as pedras para a construção do
mausoléu da nova sepultura, em homenagem ao Codificador
do Espiritismo, as quais constituiriam o chamado
“Dólmen”.
“Dólmen” (do bretão dol, “mesa”, e men,
“pedra”), ou “anta”, é um tipo de monumento megalítico
pré-histórico (cerca de três a cinco milênios antes de
Cristo), formado por grandes lajes verticais cobertas
por uma pedra horizontal, estabelecendo uma estrutura
semelhante a uma mesa. Geralmente, tais construções eram
empregadas como sepulturas coletivas e funcionavam como
monumentos funerários ou religiosos, sendo muito comuns
na Europa.
O monumento foi muito bem concebido, inclusive trazendo
um pensamento inspirado, baseado na Doutrina Espírita
(muito embora, aparentemente, não tenha sido enunciado
por Allan Kardec): “Nascer, morrer, renascer ainda,
progredir sempre. Tal é a Lei”.
A imponente estrutura, presente em um cemitério já muito
famoso, causou grande impacto midiático. Talvez esse
fosse justamente o objetivo dos homenageadores. De fato,
anualmente, os espíritas franceses decidiram realizar
reuniões em frente ao “Dólmen”, com breves exposições de
exaltação ao legado do Codificador. Em diferentes anos,
nomes como Gabriel Delanne e Léon Denis foram convidados
para falar, tal como Camille Flammarion fizera no início
de abril de 1869.
Com a passagem das décadas, no entanto, o movimento
espírita francês foi perdendo força, enquanto o
movimento espírita brasileiro foi crescendo e
centralizando o Espiritismo no cenário mundial. Assim,
muitos espíritas brasileiros passaram a visitar o Dólmen
de Allan Kardec em suas viagens à França.
Tal hábito ganhou tamanha dimensão que, atualmente, a
visitação ao túmulo de Kardec é feita basicamente por
brasileiros, pois Allan Kardec é desconhecido da
esmagadora maioria dos franceses. Diga-se de passagem
que o túmulo do Mestre de Lyon está entre os mais
visitados do famoso cemitério.
O ponto turístico tornou-se quase uma espécie de
“peregrinação espírita”, como a visita ao Vaticano para
o católico que vai a Roma ou mesmo a viagem à Meca para
os islâmicos.
O curioso é que essa prática vem sendo mantida tanto por
espíritas anônimos quanto por grandes lideranças. No
entanto, não podemos deixar de constatar certa
contradição nesse procedimento.
De fato, os confrades que visitam Uberaba tendem a
procurar a Comunhão Espírita Cristã ou o Grupo Espírita
da Prece para relembrar Chico Xavier, muito embora
exista igualmente um mausoléu criado em homenagem ao
médium de Pedro Leopoldo. O mesmo valeria para Divaldo
Pereira Franco, o Centro Espírita Caminho da Redenção e
sua obra assistencial Mansão do Caminho, bem como para
qualquer outro admirável espírita do passado.
O Espiritismo representa o estudo das evidências da
imortalidade da alma e da realidade dos Espíritos
desencarnados no mundo espiritual, bem como de seu
contato com os encarnados. A Doutrina Espírita revive,
com ênfase, a mensagem de Jesus de Nazaré: “Deixai aos
mortos o cuidado de enterrar os seus mortos”.
Ademais, não se deve esquecer do famoso diálogo entre
Jesus e a samaritana, no qual a mulher questionou onde
deveria adorar a Deus: no templo em Jerusalém ou no
monte Gerizim, na Samaria. Jesus respondeu que chegaria
o dia em que Deus seria adorado “em espírito e verdade”.
Os tempos são chegados.
Sempre destacamos que os mortos estão “mais vivos do que
nós, os encarnados”. Assim sendo, mesmo respeitando o
importante gesto histórico de gratidão a Kardec e seu
impacto propagandístico ao longo dos anos, seria
razoável supor que Allan Kardec seria mais reverenciado
se sua mensagem viva — pela qual ele viveu e desencarnou
— fosse mais projetada e valorizada.
Seria mais interessante, por conseguinte, que os
confrades espíritas que visitassem a França e desejassem
realizar um passeio turístico relacionado ao Espiritismo
visitassem alguma instituição ou grupo de estudo
espírita, favorecendo a divulgação e o fortalecimento
desses respectivos núcleos.
Se se trata de mera curiosidade turística, é mais
compreensível a visita ao cemitério; mas, se estamos
falando de um certo “turismo espírita”, é válida a
elaboração de alguns questionamentos.
Frequentemente, por ocasião do Dia de Finados (2 de
novembro), vários expositores espíritas, em todo o
Brasil, comentam sobre o caráter desnecessário de se
fazer visitações aos túmulos de familiares. Se isso vale
para o indivíduo comum, vale ainda mais para o
Codificador do Espiritismo.
A título de ilustração, poderíamos citar tanto a
palestra quanto o livro best-seller do movimento
espírita brasileiro, Quem tem medo da morte? O
admirável autor Richard Simonetti faz os seguintes
questionamentos:
— O corpo enterrado é uma veste desgastada; por que
visitar a “veste”?
— No Dia de Finados, o povo vai para o “cemitério da
saudade”, mas eu não sei o que esse povo vai fazer lá.
— Não seria mais interessante enfeitar a casa para
receber esse querido e ilustre visitante em um lugar
mais agradável do que o cemitério, tal como nosso
próprio lar?
Respaldamos esses excelentes argumentos do respeitável
confrade Richard Simonetti, reforçando que devemos
trabalhar para que a “casa de Allan Kardec” seja muito
mais o centro espírita ou o lar que estuda sua obra do
que o cemitério Père-Lachaise, esteja o confrade em
cidades da França ou de qualquer outra nação.
Não é por determinado hábito ter se consolidado que
necessariamente ele esteja correto. Quando a Doutrina
Espírita veio à Terra, propôs a renovação de várias
tradições espiritualistas já não condizentes com o nível
intelecto-moral de significativa parcela da humanidade.
Como espíritas militantes e estudantes do Espiritismo,
devemos estar dispostos a reavaliar racionalmente nossos
próprios comportamentos.
As religiões, em geral, divulgam conceitos
espiritualistas, apesar de muitos de seus adeptos
fomentarem práticas materialistas. E nós, espíritas, não
estamos isentos desse tipo de luta evolutiva.
“Deixai aos mortos o cuidado de enterrar os seus
mortos”, disse Jesus, e o Espiritismo, como o Consolador
prometido pelo Mestre de Nazaré, é uma mensagem de vivos
para vivos.