A dor é parte da pedagogia divina, assinalando o caminho
do aperfeiçoamento.
“Ditosos os que sofrem e choram! Alegres estejam vossas
almas, porque Deus as cumulará de bem-aventuranças.”
— Santo Agostinho¹
Caracterizada ainda como planeta de provas e expiações,
a Terra está longe de ser um paraíso de delícias, um
lugar de gozo, conforme a assertiva do profeta: “(...)
haverá prantos e ranger de dentes para os que nascerem
neste vale de dores.”
Santo Agostinho vai ainda mais longe, ao afirmar¹:
“(...) esperai todos vós que viveis na Terra
causticantes lágrimas e amargo sofrer e, por mais agudas
e profundas que sejam as vossas dores, volvei o olhar
para o Céu e bendizei o Senhor por ter querido
experimentar-vos”.
O que causa a dor é o mal que ainda existe nas
criaturas, remanescente dos débitos escabrosos de um
passado tenebroso. Seria, então, o caso de perguntar:
por que Deus permite que exista o mal no Universo?
Deixemos a resposta para
Léon Denis(2):
“(...) se o homem não vê senão uma partícula do mundo em
que habita, se só considera a sua curta passagem pela
Terra, como poderá conhecer a ordem eterna e universal?
Para avaliar o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o
justo e o injusto, cumpre elevarmo-nos acima dos
estreitos limites da vida atual e considerar o conjunto
dos nossos destinos. Então, o mal aparece tal como é: um
estado transitório inerente ao nosso mundo, uma das
fases inferiores da evolução dos seres para o Bem. Não é
em nosso mundo e em nossa época que se deve procurar o
ideal perfeito, mas na imensidade dos mundos e na
eternidade dos tempos...
Entretanto, se seguirmos o aperfeiçoamento contínuo das
condições vitais do planeta, a lenta evolução das
espécies e das raças através das idades; se
considerarmos o homem dos tempos pré-históricos, o
antropoide das cavernas, com instintos ferozes, e as
condições de sua vida miserável; e se compararmos esse
ponto de partida com os resultados obtidos pela
civilização atual, veremos claramente a tendência
constante dos seres e das coisas para um ideal de
perfeição. A própria evidência, mostrando-nos que a vida
sempre se melhora, se transforma e se enriquece, que o
montante do bem aumenta sem cessar e que o dos males
diminui, obriga-nos a reconhecer esse encaminhamento
gradual das humanidades para o melhor.
Mesmo pondo em linha de conta os tempos de parada,
ninguém deve esquecer que o homem é livre e pode
dirigir-se à vontade num sentido ou noutro, não sendo
possível o seu aperfeiçoamento senão quando a vontade
está de acordo com a lei.
O mal — oposição à lei divina — não pode ser obra de
Deus; é, portanto, obra do homem, consequência de sua
liberdade. Porém o mal, como a sombra, não tem
existência real; é, antes, um efeito de contraste. As
trevas dissipam-se diante da luz; assim também o mal se
evapora logo que o bem aparece. Em uma palavra, o mal é
a ausência do bem.
Diz-se, algumas vezes, que Deus bem poderia ter criado
as almas perfeitas, para assim lhes poupar as
vicissitudes e os males da vida terrestre. Sem nos
ocuparmos de saber se Deus poderia formar seres
semelhantes a si, responderemos que, se assim fosse, a
vida e a atividade universais, a variedade, o trabalho e
o progresso não mais teriam um fito, e o mundo ficaria
preso em sua imóvel perfeição. Ora, a magnífica evolução
dos seres através dos tempos, a atividade das almas e
dos mundos, elevando-se para o Absoluto, não é
preferível a um repouso insípido e eterno? Um bem que
não se tem merecido nem conquistado será mesmo um bem? E
aquele que o obtivesse sem esforço poderia ao menos
apreciar o seu valor? Diante da vasta perspectiva de
nossas existências, cada uma das quais é um combate pela
luz, diante dessa ascensão prodigiosa do ser,
elevando-se de círculos em círculos para o Perfeito, o
problema do mal desaparece.
Sair das baixas regiões da matéria e ascender todos os
degraus da imensa hierarquia dos Espíritos, libertar-se
do jugo das paixões e conquistar, uma a uma, todas as
virtudes e todas as ciências: tal é o fim para o qual a
Providência formou as almas e dispôs os mundos, teatros
predestinados a lutas e trabalhos.
Acreditemos nela e bendigamo-la! Acreditemos nessa
Providência generosa, que tudo fez para o nosso bem;
lembremo-nos de que, se parecem existir lacunas em Sua
obra, essas só provêm de nossa ignorância e da
insuficiência de nossa razão. Acreditemos em Deus,
Grande Espírito da Justiça no Universo. Tenhamos
confiança em Sua sabedoria, que reserva compensações a
todos os sofrimentos, alegria a todas as dores, e
avancemos, de coração firme, para os destinos que Ele
nos assinalou.
É belo, consolador e doce poder caminhar na vida com a
fronte levantada para os Céus, sabendo que, mesmo nas
tempestades, no seio das mais cruéis provas, no fundo
dos cárceres, como à beira dos abismos, uma Providência,
uma lei divina paira sobre nós, rege os nossos atos, e
que, de nossas lutas, de nossas torturas e de nossas
lágrimas, fez sair a nossa própria glória e a nossa
felicidade.”
Mas, enquanto não chegam tais glória e felicidade,
enredados que estamos na dor, que remédio prescrever
para tão cruciantes males?
Santo Agostinho responde¹: “(...) só um remédio é
infalível: a fé, o apelo ao Céu. Se, na maior acerbidade
dos vossos sofrimentos, entoardes hinos ao Senhor, o
anjo, à vossa cabeceira, com a mão vos apontará o sinal
da salvação e o lugar que um dia ocupareis... A fé é o
remédio seguro do sofrimento; mostra sempre os
horizontes do Infinito, diante dos quais se esvaem os
poucos dias brumosos do presente. Não nos pergunteis,
portanto, qual o remédio para curar tal úlcera ou tal
chaga, para tal tentação ou tal prova. Lembrai-vos de
que aquele que crê é forte pelo remédio da fé, e aquele
que duvida um instante de sua eficácia é imediatamente
punido, porque logo sente as pungitivas angústias da
aflição.
O Senhor apôs o Seu selo em todos os que n’Ele creem. O
Cristo vos disse que com a fé se transportam montanhas,
e eu vos digo que aquele que sofre e tem a fé por amparo
ficará sob a Sua égide e não mais sofrerá. Os momentos
das mais fortes dores lhe serão as primeiras notas
alegres da Eternidade. Sua alma se desprenderá de tal
maneira do corpo que, enquanto este se estorcer em
convulsões, ela planará nas regiões celestes, entoando,
com os anjos, hinos de reconhecimento e de glória ao
Senhor”.
____________________