Especial

por Rogério Coelho

O mal é a ausência do bem

 

A dor é parte da pedagogia divina, assinalando o caminho do aperfeiçoamento.


“Ditosos os que sofrem e choram! Alegres estejam vossas almas, porque Deus as cumulará de bem-aventuranças.”
— Santo Agostinho¹

 

Caracterizada ainda como planeta de provas e expiações, a Terra está longe de ser um paraíso de delícias, um lugar de gozo, conforme a assertiva do profeta: “(...) haverá prantos e ranger de dentes para os que nascerem neste vale de dores.”

Santo Agostinho vai ainda mais longe, ao afirmar¹: “(...) esperai todos vós que viveis na Terra causticantes lágrimas e amargo sofrer e, por mais agudas e profundas que sejam as vossas dores, volvei o olhar para o Céu e bendizei o Senhor por ter querido experimentar-vos”.

O que causa a dor é o mal que ainda existe nas criaturas, remanescente dos débitos escabrosos de um passado tenebroso. Seria, então, o caso de perguntar: por que Deus permite que exista o mal no Universo?

Deixemos a resposta para Léon Denis(2): “(...) se o homem não vê senão uma partícula do mundo em que habita, se só considera a sua curta passagem pela Terra, como poderá conhecer a ordem eterna e universal? Para avaliar o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o justo e o injusto, cumpre elevarmo-nos acima dos estreitos limites da vida atual e considerar o conjunto dos nossos destinos. Então, o mal aparece tal como é: um estado transitório inerente ao nosso mundo, uma das fases inferiores da evolução dos seres para o Bem. Não é em nosso mundo e em nossa época que se deve procurar o ideal perfeito, mas na imensidade dos mundos e na eternidade dos tempos...

Entretanto, se seguirmos o aperfeiçoamento contínuo das condições vitais do planeta, a lenta evolução das espécies e das raças através das idades; se considerarmos o homem dos tempos pré-históricos, o antropoide das cavernas, com instintos ferozes, e as condições de sua vida miserável; e se compararmos esse ponto de partida com os resultados obtidos pela civilização atual, veremos claramente a tendência constante dos seres e das coisas para um ideal de perfeição. A própria evidência, mostrando-nos que a vida sempre se melhora, se transforma e se enriquece, que o montante do bem aumenta sem cessar e que o dos males diminui, obriga-nos a reconhecer esse encaminhamento gradual das humanidades para o melhor.

Mesmo pondo em linha de conta os tempos de parada, ninguém deve esquecer que o homem é livre e pode dirigir-se à vontade num sentido ou noutro, não sendo possível o seu aperfeiçoamento senão quando a vontade está de acordo com a lei.

O mal — oposição à lei divina — não pode ser obra de Deus; é, portanto, obra do homem, consequência de sua liberdade. Porém o mal, como a sombra, não tem existência real; é, antes, um efeito de contraste. As trevas dissipam-se diante da luz; assim também o mal se evapora logo que o bem aparece. Em uma palavra, o mal é a ausência do bem.

Diz-se, algumas vezes, que Deus bem poderia ter criado as almas perfeitas, para assim lhes poupar as vicissitudes e os males da vida terrestre. Sem nos ocuparmos de saber se Deus poderia formar seres semelhantes a si, responderemos que, se assim fosse, a vida e a atividade universais, a variedade, o trabalho e o progresso não mais teriam um fito, e o mundo ficaria preso em sua imóvel perfeição. Ora, a magnífica evolução dos seres através dos tempos, a atividade das almas e dos mundos, elevando-se para o Absoluto, não é preferível a um repouso insípido e eterno? Um bem que não se tem merecido nem conquistado será mesmo um bem? E aquele que o obtivesse sem esforço poderia ao menos apreciar o seu valor? Diante da vasta perspectiva de nossas existências, cada uma das quais é um combate pela luz, diante dessa ascensão prodigiosa do ser, elevando-se de círculos em círculos para o Perfeito, o problema do mal desaparece.

Sair das baixas regiões da matéria e ascender todos os degraus da imensa hierarquia dos Espíritos, libertar-se do jugo das paixões e conquistar, uma a uma, todas as virtudes e todas as ciências: tal é o fim para o qual a Providência formou as almas e dispôs os mundos, teatros predestinados a lutas e trabalhos.

Acreditemos nela e bendigamo-la! Acreditemos nessa Providência generosa, que tudo fez para o nosso bem; lembremo-nos de que, se parecem existir lacunas em Sua obra, essas só provêm de nossa ignorância e da insuficiência de nossa razão. Acreditemos em Deus, Grande Espírito da Justiça no Universo. Tenhamos confiança em Sua sabedoria, que reserva compensações a todos os sofrimentos, alegria a todas as dores, e avancemos, de coração firme, para os destinos que Ele nos assinalou.

É belo, consolador e doce poder caminhar na vida com a fronte levantada para os Céus, sabendo que, mesmo nas tempestades, no seio das mais cruéis provas, no fundo dos cárceres, como à beira dos abismos, uma Providência, uma lei divina paira sobre nós, rege os nossos atos, e que, de nossas lutas, de nossas torturas e de nossas lágrimas, fez sair a nossa própria glória e a nossa felicidade.”

Mas, enquanto não chegam tais glória e felicidade, enredados que estamos na dor, que remédio prescrever para tão cruciantes males?

Santo Agostinho responde¹: “(...) só um remédio é infalível: a fé, o apelo ao Céu. Se, na maior acerbidade dos vossos sofrimentos, entoardes hinos ao Senhor, o anjo, à vossa cabeceira, com a mão vos apontará o sinal da salvação e o lugar que um dia ocupareis... A fé é o remédio seguro do sofrimento; mostra sempre os horizontes do Infinito, diante dos quais se esvaem os poucos dias brumosos do presente. Não nos pergunteis, portanto, qual o remédio para curar tal úlcera ou tal chaga, para tal tentação ou tal prova. Lembrai-vos de que aquele que crê é forte pelo remédio da fé, e aquele que duvida um instante de sua eficácia é imediatamente punido, porque logo sente as pungitivas angústias da aflição.

O Senhor apôs o Seu selo em todos os que n’Ele creem. O Cristo vos disse que com a fé se transportam montanhas, e eu vos digo que aquele que sofre e tem a fé por amparo ficará sob a Sua égide e não mais sofrerá. Os momentos das mais fortes dores lhe serão as primeiras notas alegres da Eternidade. Sua alma se desprenderá de tal maneira do corpo que, enquanto este se estorcer em convulsões, ela planará nas regiões celestes, entoando, com os anjos, hinos de reconhecimento e de glória ao Senhor”.

____________________

1 - KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 125.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006, cap. V, item 19.

2 - DENIS, Léon. Depois da morte. 23.ed.Rio [de Janeiro]:FEB, 2004, cap. IX, p. 125-127.

    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita