Cada um tem o que merece?
Um idoso de 79 anos, morador de um abrigo para idosos,
foi vítima de agressão física por parte de seus
cuidadores. As câmeras revelaram que a violência era
recorrente. A notícia veiculada num periódico local
estava nas mãos de um famoso orador e escritor espírita.
Um tribuno com mais de 40 anos de experiência na casa
espírita.
Enquanto ele lia a notícia, virou-se para o lado e
comentou:
- Nesta vida, cada um tem o que merece...
Diante do silêncio do ambiente, um confrade espírita
indagou:
- O que você quer dizer com isso?
O nobre trabalhador espírita, homem experiente nos
argumentos e na arte do convencimento, riu um pouco e
continuou:
- Ninguém sofre o que não merece. Cada um só colhe o que
planta. Em outra encarnação ou nesta própria vida, esse
idoso deve ter transgredido a lei divina. A lei de causa
e efeito não falha. Todo o espancamento e violência que
ele sofreu é consequência de suas más ações. O
Espiritismo tem resposta para tudo. Se esse velho tem um
karma pesado, não nos cabe julgar o agressor. Ele,
infelizmente, ainda poderá sofrer até pagar o último
ceitil.
Disse isso e se retirou. Logo começariam as atividades
no centro espírita e o tema naquela noite seria
“misericórdia e não sacrifício”. Os trabalhos ocorreram
conforme o planejado. Foi uma noite calma e em ordem.
Ficou, porém, como prurido psíquico, uma dúvida nos
ouvintes que dificilmente seria esclarecida pelo famoso
tribuno. Se toda violência contra idoso é cumprimento da
providência divina, então o agressor seria um agente da
lei maior? O estatuto do idoso, em vez de assegurar a
integridade física, estaria impedindo a quitação de
débitos cármicos?
Por mais respeito e consideração que o nobre tribuno
mereça pela sua folha de currículos de décadas de
serviços à obra de Jesus, sua explicação suscita mais
preocupação com os rumos que o movimento espírita está
tomando do que esclarecimento e consolação, que deveriam
ser os pilares de todo discurso autenticamente
doutrinário.
João Márcio F. Cruz é
autor do livro O Espiritismo e o Encontro com a
Própria Sombra.