Artigos

por Bruno Abreu

Criamos e passamos pelo que temos que viver


A vida vai acontecendo e, com ela, os difíceis problemas com que nos deparamos.

Por vezes a escuridão, que permitimos que nos envolva, faz com que esqueçamos os princípios mais básicos do Cristianismo e da Doutrina Espírita.

Qual o maior princípio e o mais forte de todos? Kardec coloca as questões logo nas primeiras perguntas, pois é a base de tudo.

Pergunta número 1 de O Livro dos Espíritos:

1. Que é Deus?

“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”

Podemos dizer que nada acontece no Universo sem passar por Deus. Isso faz muita confusão a quem vê Deus como uma entidade, uma individualidade, mas não é isso que Deus é. É a inteligência suprema em si, a causa de todas as coisas.

Nas religiões cristãs, pelo menos as que eu conheço, colocam um atributo a Deus de Omnipotência, ou seja, “a qualidade de ser todo-poderoso, significando poder ilimitado, absoluto e supremo”. Nada acontece sem que Deus permita ou comande.

Podemos concluir que os problemas que nos acontecem na vida, por mais difíceis que sejam e alguns são bem difíceis, são um movimento dentro da “jurisdição” de Deus, pois nada acontece despercebidamente para Ele.

Perdoem-me usar adjetivos humanos, mas não temos outra hipótese na transmissão da linguagem.

Por que Deus permite que tenhamos problemas e alguns bem graves?

Deus não os cria, mas permite que aconteçam porque eles são necessários à nossa educação.

Nós atuamos de forma errada, influenciados pelas conquistas e pelos desejos temporários terrenos, porque ainda mantemos em nós esta forma de ser egocêntrica, e a melhor forma de a abandonarmos é experimentarmos “na pele” o que fizemos ou causamos no passado.

Chamamos a isso de Carma e somos nós, portanto, que fazemos o nosso futuro; não fosse assim, não existiria livre-arbítrio.

Podemos afirmar que de um mal nascerá um bem maior, ou seja, o mal que nos acontece é uma forma de nos levar ao crescimento espiritual.

Quando é um mal que envolve pessoas na ação, causando esse mal, funcionará de forma diferente?

Não; é igual. Para nós, que sofremos o mal, continua a ser algo por que temos de passar, nascido num ato ou numa forma de estar que mantemos ou tivemos no passado, mesmo que distante, como noutra vida.

Nossos irmãos, por ainda se apegarem a determinadas ações negativas, tal como nós, embora possam ser diferentes, na altura certa são tentados a uma ação que nos pode prejudicar, para passarmos pelo que necessitamos de passar. Instrumentos de Deus, no nosso aprendizado.

Podemos afirmar que o que nos aconteceu foi culpa de algum irmão ou de vários?

Na visão terrena, parece-nos que sim, mas na realidade, não. Nós somos os responsáveis por nosso carma, temos de enfrentar a consequência do que plantamos no passado; assim, fazemos o nosso “filme” na Terra.

Nossos irmãos adquirem as suas dívidas em suas infelizes ações, mas o que tenho de enfrentar ou sofrer, se não viesse dele, viria de outro. Nosso irmão, por suas aptidões negativas, torna-se - involuntariamente - um instrumento de Deus e não um ser que ludibriou Deus e conseguiu fazer-nos um mal que não estava previsto.

Por não percebermos isso como realidade, levamos as ações de forma pessoal e ganhamos mágoas em vez de compaixão, por ter sido tal fato a porta de entrada para a nossa evolução.

Se formos ver em retrospetiva, podemos ver o seguinte movimento:

- Alguém teve uma má atitude connosco, que nos deixou numa situação desagradável ou complicada. Isto é o mais próximo de nós, o que nós vemos na Terra.

- Se voltarmos um pouco atrás, percebemos que nada acontece sem permissão de Deus, logo, tudo o que me está a acontecer não é por acaso, teria de acontecer independentemente dos intervenientes.

. Se voltarmos mais atrás, à raiz do que está a acontecer, podemos perceber, pela Justiça de Deus, que não nos acontece nada aleatoriamente e logo vamos encontrar o movimento de causa e efeito, que chamamos vulgarmente de carma. No nosso passado encontramos a criação da dívida ao mal do presente.

Com quem nos devemos zangar?

Com o nosso irmão, o instrumento que somou novas dívidas em sua ação, motivado por uma cegueira idêntica à nossa, e nos deu agora a oportunidade de diminuirmos as nossas?

Com Deus que permitiu o acontecimento para nossa educação e crescimento espiritual?

Ou connosco, que fomos a raiz do mal que sofremos hoje?

É muito comum culparmos os outros por nossas faltas. Um dia destes, vi um jogo de futebol que acabou empatado. Um jogador de uma das equipas, quase no final do jogo, falhou em um penalty e sofreu todo o peso da acusação e ter a equipa perdido o jogo por sua causa. Eu achei incrível por que um ato, em 90 minutos, que dura no máximo 30 segundos, tapa a incapacidade que toda a equipa teve, durante os outros 89 minutos, de marcar um golo.

Nós somos iguais na nossa vida. Culpamos os outros pelas dívidas que vamos acumulando ao longo das diversas reencarnações.

Fazemos o mesmo nas obsessões, em que a nossa moral é a chave de tudo.

Se temos uma moral baixa, abrimos portas e convidamos os obsessores a se ligarem a nós, por dívidas do passado ou forma de viver do presente.

Se temos uma moral alta, não chamamos a atenção e somos autênticas paredes para os nossos irmãos desencarnados que sofrem de uma baixa moral, para além de nos rodearmos de irmãos com moral idêntica à nossa.

No entanto tentamos curar o obsidiado “correndo” com o obsessor, quando este está próximo pela moral do obsidiado.

A causa é o obsidiado e não o obsessor, o que devemos tratar?

O mal que nos acontece são necessidades de aprendizado, com base em nosso passado, e para tal atrai os irmãos necessários, encarnados e desencarnados, para acontecer o que temos de viver.        

       

Bruno Abreu reside em Lisboa, Portugal.

 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita