Guerras
Se é difícil aceitar as guerras, mais ainda
compreendê-las. Guerras são o auge da crueldade humana.
É irônico ver a história registrar conflitos odientos
classificando-os como “guerras santas”.
Mais que desavenças reais, os motivos que as fazem
romper são quase sempre precários, e quase nunca
justificáveis. Envolvendo ambições territoriais,
conquistas, vinganças, retaliações, pilhagens, traduzem
a manifestação doentia da mente humana.
Segundo O Livro dos Espíritos, a causa da guerra
é “a predominância da natureza animal sobre a espiritual
e satisfação das paixões” (1). Essa resposta dos
Espíritos a Allan Kardec nos ajuda a compreender o
íntimo daqueles que decidem provocar um conflito armado.
Os traços predominantes do seu caráter são a
insensibilidade e a falta de empatia, o que prova sua
natureza má.
Esses mesmos Espíritos afirmaram a Kardec que as guerras
em certas circunstâncias são necessárias e que a
Providência as utiliza para promover a liberdade e o
progresso (2). Parece haver nisso um paradoxo, uma
contradição. Ódio, dizimação de seres, crueldade etc.,
não condizem com os desígnios amorosos de Deus.
Porém, se associarmos a enigmática palavra necessária à
condição de evidente imperfeição humana, creio que o
entendimento ficará mais claro. A incompreensão entre os
homens é ainda extensa e profunda, gerando hostilidades
constantes, e há momentos em que o orgulho não admite
nada a não ser arrasar o inimigo. Assim têm agido desde
sempre os tiranos.
Espanta ver hoje a naturalidade com que se jogam bombas
sobre as cabeças de humanos. Choca ver como direitos
básicos de respeito à vida e à dignidade humana são
ignorados. Triste ver tratados e acordos firmados
consensualmente entre governantes serem
irresponsavelmente aviltados.
Um raio X da alma humana apresentaria muitas anomalias.
Mas como toda doença física ou moral não durará para
sempre, pode-se ter a certeza de que a humanidade
caminhará para dias melhores. Se “há Espíritos que só
buscam a discórdia e a destruição” (3), também os há
que, com perseverança, serão “bastante sensatos para
procurar a sua felicidade nas coisas positivas e sérias
e não nas utopias que os fazem recuar em vez de avançar”
(4).
A mais necessária, urgente e louvável guerra que se
possa propor nos tempos atuais será contra a ignorância
generalizada da humanidade, que embora “seduzida” pelos
tais tiranos, tem sua parcela de responsabilidade pois,
muitas vezes, os escolhe livremente como líderes.
Armas
Não preciso de esforço de raciocínio para concluir o que
são armas e para que servem. Armas matam, só isso.
Associá-las à ideia de proteção, como muitos fazem, é um
argumento risível de quem é, no mínimo, negligente.
Observe aqueles que as defendem e note como são
psicologicamente instáveis, irritadiços, impulsivos,
precisando demonstrar através de rompantes uma força que
não têm.
Saber que uma arma faz correr sangue, mutila um corpo,
tira uma vida, deveria causar um sentimento de aversão.
No entanto, há quem a prestigie e isso é desconcertante.
Pessoas mantém armas em casa ou as carregam consigo,
frequentam clubes de tiro, promovem caças esportivas, e
tudo isso me faz imaginar quais devem ser as suas
prioridades na vida.
Indústrias fabricam e espalham armas pelo mundo, e esse
comércio da morte, alavancado por conceitos falsos,
acaba imprimindo nas almas simples o culto às armas.
Defender armas e o seu poder de destruição cada vez
maior, num planeta em que a inteligência já atingiu
considerável estágio, é demonstrar inequívoco atraso
moral. Armas denunciam a brutalidade do espírito.
É bem verdade que a desorganização social e a violência
humanas na Terra exigem ainda que haja ofícios e
corporações que utilizem armas. Que seja. Mas até isso é
questionável. Há países mais educados onde os policiais,
por exemplo, não usam armas letais.
Segundo a agência de notícias BBC News Brasil, “Na
Grã-Bretanha, na Irlanda, na Islândia, na Noruega, na
Nova Zelândia e em uma série de nações insulares no
Pacífico os policiais patrulham desarmados. Apenas
algumas unidades especiais usam armas de fogo – e apenas
em determinadas situações. E isso não faz com que os
homicídios por arma de fogo se multipliquem, segundo
estatísticas” (5).
O Japão talvez seja o maior exemplo de respeito mútuo
entre policiais e comunidade. A política de tolerância
zero às armas, associada à qualificação da polícia e
colaboração da sociedade são fatores, dentre outros, que
dão ao Japão uma das menores taxas do mundo de crimes
cometidos com armas de fogo (6).
O homem demonstra maturidade espiritual quando respeita
integralmente a vida e abomina as armas.
Mentiras
As mentiras são para mim insuportáveis porque sei que
estão associadas a dores, sofrimentos, tragédias. Se a
mentira oportunista é lamentável, o que dizer da mentira
contumaz que vai aos poucos anulando a personalidade do
mentiroso, que inventa um mundo que não existe e se
perde nas próprias criações? Deve ser difícil para ele
gastar boa parte do tempo dissimulando. O mentiroso é um
impostor.
Há um sinal no caráter humano de que o homem não tem
conseguido se livrar, mesmo com o passar dos milênios: a
hipocrisia. Esse é um defeito moral que causa enormes
prejuízos à saúde das relações particulares e sociais. A
hipocrisia e a desonestidade andam juntas, e o hipócrita
não é confiável. Não é difícil identificá-lo. Basta
observar o que ele diz e o que ele faz.
É fenômeno do nosso tempo misturar realidade com
fantasia, a ponto de não se saber mais o que é uma, o
que é a outra? Multidões rejeitam fatos e verdades e
submetem-se a mentiras engendradas. Triste ver pessoas
sem força para discernir, simplesmente repetindo o que
ouvem exaustivamente de fontes corruptas.
É importante que aqueles que exercem domínio crítico
sobre si mesmos posicionem-se, enérgica e
fraternalmente, contra as investidas de quem não tem
compromisso algum com a verdade.
É preciso auxiliar e esclarecer incansavelmente aos que
vivem a vida dupla da ilusão/ realidade, e ajudá-los a
conhecer o real sentido de viver. Com certeza, não será
com mentiras, armas e guerras que se construirá a
verdadeira civilização. Cada um atue no seu meio, com
consciência, com os recursos que dispuser.
(1) O Livro dos Espíritos,
pergunta 742, edição LAKE.
(2) O Livro dos Espíritos,
pergunta 744, idem.
(3) O Livro dos Espíritos,
pergunta 542, idem.
(4) O Livro dos Espíritos,
comentários de Kardec à questão 707, idem.
(5) Leia em News
Brasil
(6) Leia mais em BBC