Especial

por Cláudio Bueno da Silva

Anomalias da alma humana

 

Guerras

Se é difícil aceitar as guerras, mais ainda compreendê-las. Guerras são o auge da crueldade humana. É irônico ver a história registrar conflitos odientos classificando-os como “guerras santas”.

Mais que desavenças reais, os motivos que as fazem romper são quase sempre precários, e quase nunca justificáveis. Envolvendo ambições territoriais, conquistas, vinganças, retaliações, pilhagens, traduzem a manifestação doentia da mente humana.

Segundo O Livro dos Espíritos, a causa da guerra é “a predominância da natureza animal sobre a espiritual e satisfação das paixões” (1). Essa resposta dos Espíritos a Allan Kardec nos ajuda a compreender o íntimo daqueles que decidem provocar um conflito armado. Os traços predominantes do seu caráter são a insensibilidade e a falta de empatia, o que prova sua natureza má.

Esses mesmos Espíritos afirmaram a Kardec que as guerras em certas circunstâncias são necessárias e que a Providência as utiliza para promover a liberdade e o progresso (2). Parece haver nisso um paradoxo, uma contradição. Ódio, dizimação de seres, crueldade etc., não condizem com os desígnios amorosos de Deus.

Porém, se associarmos a enigmática palavra necessária à condição de evidente imperfeição humana, creio que o entendimento ficará mais claro. A incompreensão entre os homens é ainda extensa e profunda, gerando hostilidades constantes, e há momentos em que o orgulho não admite nada a não ser arrasar o inimigo. Assim têm agido desde sempre os tiranos.

Espanta ver hoje a naturalidade com que se jogam bombas sobre as cabeças de humanos. Choca ver como direitos básicos de respeito à vida e à dignidade humana são ignorados. Triste ver tratados e acordos firmados consensualmente entre governantes serem irresponsavelmente aviltados.

Um raio X da alma humana apresentaria muitas anomalias. Mas como toda doença física ou moral não durará para sempre, pode-se ter a certeza de que a humanidade caminhará para dias melhores. Se “há Espíritos que só buscam a discórdia e a destruição” (3), também os há que, com perseverança, serão “bastante sensatos para procurar a sua felicidade nas coisas positivas e sérias e não nas utopias que os fazem recuar em vez de avançar” (4).

A mais necessária, urgente e louvável guerra que se possa propor nos tempos atuais será contra a ignorância generalizada da humanidade, que embora “seduzida” pelos tais tiranos, tem sua parcela de responsabilidade pois, muitas vezes, os escolhe livremente como líderes.

 
Armas

Não preciso de esforço de raciocínio para concluir o que são armas e para que servem. Armas matam, só isso. Associá-las à ideia de proteção, como muitos fazem, é um argumento risível de quem é, no mínimo, negligente. Observe aqueles que as defendem e note como são psicologicamente instáveis, irritadiços, impulsivos, precisando demonstrar através de rompantes uma força que não têm.

Saber que uma arma faz correr sangue, mutila um corpo, tira uma vida, deveria causar um sentimento de aversão. No entanto, há quem a prestigie e isso é desconcertante. Pessoas mantém armas em casa ou as carregam consigo, frequentam clubes de tiro, promovem caças esportivas, e tudo isso me faz imaginar quais devem ser as suas prioridades na vida.

Indústrias fabricam e espalham armas pelo mundo, e esse comércio da morte, alavancado por conceitos falsos, acaba imprimindo nas almas simples o culto às armas.

Defender armas e o seu poder de destruição cada vez maior, num planeta em que a inteligência já atingiu considerável estágio, é demonstrar inequívoco atraso moral. Armas denunciam a brutalidade do espírito.

É bem verdade que a desorganização social e a violência humanas na Terra exigem ainda que haja ofícios e corporações que utilizem armas. Que seja. Mas até isso é questionável. Há países mais educados onde os policiais, por exemplo, não usam armas letais.

Segundo a agência de notícias BBC News Brasil, “Na Grã-Bretanha, na Irlanda, na Islândia, na Noruega, na Nova Zelândia e em uma série de nações insulares no Pacífico os policiais patrulham desarmados. Apenas algumas unidades especiais usam armas de fogo – e apenas em determinadas situações. E isso não faz com que os homicídios por arma de fogo se multipliquem, segundo estatísticas” (5).

O Japão talvez seja o maior exemplo de respeito mútuo entre policiais e comunidade. A política de tolerância zero às armas, associada à qualificação da polícia e colaboração da sociedade são fatores, dentre outros, que dão ao Japão uma das menores taxas do mundo de crimes cometidos com armas de fogo (6).

O homem demonstra maturidade espiritual quando respeita integralmente a vida e abomina as armas.

 

Mentiras

As mentiras são para mim insuportáveis porque sei que estão associadas a dores, sofrimentos, tragédias. Se a mentira oportunista é lamentável, o que dizer da mentira contumaz que vai aos poucos anulando a personalidade do mentiroso, que inventa um mundo que não existe e se perde nas próprias criações? Deve ser difícil para ele gastar boa parte do tempo dissimulando. O mentiroso é um impostor.

Há um sinal no caráter humano de que o homem não tem conseguido se livrar, mesmo com o passar dos milênios: a hipocrisia. Esse é um defeito moral que causa enormes prejuízos à saúde das relações particulares e sociais. A hipocrisia e a desonestidade andam juntas, e o hipócrita não é confiável. Não é difícil identificá-lo. Basta observar o que ele diz e o que ele faz.

É fenômeno do nosso tempo misturar realidade com fantasia, a ponto de não se saber mais o que é uma, o que é a outra? Multidões rejeitam fatos e verdades e submetem-se a mentiras engendradas. Triste ver pessoas sem força para discernir, simplesmente repetindo o que ouvem exaustivamente de fontes corruptas.

É importante que aqueles que exercem domínio crítico sobre si mesmos posicionem-se, enérgica e fraternalmente, contra as investidas de quem não tem compromisso algum com a verdade.

É preciso auxiliar e esclarecer incansavelmente aos que vivem a vida dupla da ilusão/ realidade, e ajudá-los a conhecer o real sentido de viver. Com certeza, não será com mentiras, armas e guerras que se construirá a verdadeira civilização. Cada um atue no seu meio, com consciência, com os recursos que dispuser.

 

(1) O Livro dos Espíritos, pergunta 742, edição LAKE.

(2) O Livro dos Espíritos, pergunta 744, idem.

(3) O Livro dos Espíritos, pergunta 542, idem.

(4) O Livro dos Espíritos, comentários de Kardec à questão 707, idem.

(5) Leia em News Brasil

(6) Leia mais em BBC

    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita