Especial

por Vladimir Alexei

Espíritas sem Evangelho... são espíritas?

 

O Espiritismo é uma fonte rica de ensinamentos. Muitos se sentem incomodados porque esses ensinamentos conflitam com o comportamento do indivíduo. Em alguns casos, muitos preferem tentar mudar o Espiritismo e manter o próprio comportamento, o que nos ensina, com o tempo, que mudar um comportamento não é tão trivial quanto fazem parecer coaches e gurus de autoajuda.

Quando Allan Kardec pergunta aos Espíritos Superiores qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem para servir-lhe de guia e modelo, os Espíritos Superiores respondem: “vede Jesus”.

A palavrinha “vede”, que não aparece em todas as traduções, tem sido motivo de reflexões, algumas profundas e outras tentam ser profundas, mas trazem algum holofote para essa discussão. Sim, ao interpretar o “vede Jesus” muitos espíritas ampliam para “vede Buda”, “vede Confúcio”, e assim por diante, como se fossem espíritos do mesmo nível, de acordo com a escala espírita. Ao definirem um ("vede Jesus"), os Espíritos deixam claro que há um maior, embora seja interpretativo e aqueles que pensam diferente, por serem "laicos", vão discordar.

Contudo, o que não se “vê”, ou o que se vê pouco, a ponto de normalizar, é a resistência de alguns espíritas em aceitar Jesus. De acordo com o “meme” (de redes sociais), o problema quando envolve o nome de Jesus é o seu “fã-clube”. Jesus tem defensores e detratores de todas as ordens e classificações, difíceis até de enumerar em um artigo.

Os Espíritos Superiores são claros: “vede Jesus”. É para ver, seguir, compreender, assimilar, orientar-se, conduzir-se, pelo tipo “mais perfeito”. Não há dúvida alguma nesse ponto e nem margem para elucubrações. O guia e modelo é Jesus.

Ao longo da vida, à medida que compreendemos os ensinamentos de Jesus, alguns ensinamentos são eleitos prioridade, em detrimento de outros. Não se vive a plenitude dos ensinamentos de Jesus, ainda. Existem exemplos na história que se notabilizaram pela forma como conseguiram colocar em prática os ensinamentos de Jesus. E isso não diz respeito ao “efeito” dos ensinamentos, aquilo que é percebido pela sociedade, e sim à causa dos ensinamentos na intimidade de cada um.

Os efeitos podem ser manifestados de forma “religiosa”, em função de alguns religiosos terem-se destacado na sociedade. São Francisco é um exemplo de desprendimento, renúncia e fraternidade que causa espanto até hoje. Dotado de uma mediunidade de efeitos físicos aflorada, relatos de fenômenos diversos permeiam sua biografia. Outros tantos religiosos se notabilizaram pela maneira como interpretaram os ensinamentos de Jesus e conseguiram praticar esses ensinamentos.

Todavia, de acordo com a interpretação do Evangelho, existem a porta “larga” e a porta “estreita”, simbolizando que nem todo religioso consegue colocar em prática os ensinamentos de Jesus. Seguindo essa lógica, que parece absolutamente plausível, o oposto também acontece.

Aquele que não segue o Evangelho, que não tem Jesus como guia e modelo, não quer dizer que seja uma pessoa melhor. Pode até ser mais culto, versado, fala bem, escreve bem, expõe com clareza seus pensamentos, mas que na hora que o “calo aperta”, como se diz no interior de Minas, na hora que é para colocar os ensinamentos morais aprendidos na Doutrina Espírita em prática, a ponto de transformar seu comportamento, não saem melhor do que aqueles que têm um guia e modelo.

Parece simplista, mas não é. Aqueles que têm um guia e modelo, de fato, já tem uma referência a seguir, pensando em termos práticos, para além da vida material. Podem não saber seguir, podem errar o tom e o colorido na hora de seguir, mas já possuem uma referência. Aqueles que não entendem Jesus como guia e modelo, se mantêm na superfície.

Manter-se na superfície não é demérito, por razões óbvias: aqueles que seguem Jesus também se encontram em momento similar. Diversos estudiosos podem conhecer o antigo e o novo Testamentos, mas nem por isso significa dizer que conhecem além da superfície. E isso inclui aqueles que estudam o Evangelho de forma “detalhada”, porque é detalhado na letra, é interpretado na letra, na simbologia.

Se ambos apresentam semelhanças, qual a diferença? Ou quais as diferenças? A resposta não é definitiva, é progressiva. Hoje são especulações. Contudo, é possível ter uma ideia, pelo que se depreende na divulgação do Espiritismo, que os que não seguem Jesus não são melhores do que aqueles que elegeram Jesus. Repetindo, talvez sejam mais articulados, cultos e por isso até, menos “chatos” do que o “fã-clube” de Jesus, que insiste em repetir os erros de religiões convencionais.

Talvez, e isso incomoda, existam aqueles que reconhecem Jesus como guia e modelo, reconhecem, respeitam e afinizam com o modelo “laico” (mais por causa do “fã-clube” do que pelo entendimento doutrinário), mas procuram manter-se fiéis ao processo filosófico de aprendizado, com liberdade para compreender os movimentos, respeitá-los, e seguir um caminho que procura fugir aos estigmas (“laico” e “religioso”, uma reedição dos “científicos” e “religiosos” do início do século XX, período em que o Espiritismo chegou ao Brasil), para dedicar mais tempo ao estudo que realmente interessa.

Não sei se os “religiosos” teriam a franqueza de expor o que pensam para os laicos, como tentamos fazer nesta reflexão. Fazemos, sem a pretensão de mudar nenhuma forma de pensar. Aliás, é importante que existam esses pensamentos diferentes porque, quando um lado excede, o outro acusa e assim vão caminhando, mais próximos do que se imaginam porque ambos procuram fazer o seu melhor: levar o Espiritismo em sua melhor versão para aqueles que não o conhecem e possam servir-se nesse banquete espiritual.

Diante do cenário desenhado, resta a dúvida apresentada no título do artigo. Esse aprendiz de escriba não consegue conceber uma interpretação do Espiritismo “completa”, sem Jesus. Participamos por muito tempo dos debates em entidades laicas, sempre de forma reservada, como aprendiz e eventualmente emitindo alguma reflexão, lemos autores laicos, alguns do país, outros de fora do país, sempre respeitando seus pensamentos e tentando compreendê-los, contudo, a conclusão a que chegamos é que é mais forte a resistência aos “religiosos” do que ao pensamento de Jesus. Não são contra Jesus. Pensam diferente do “fã-clube”.

O Espiritismo não é uma religião convencional. Logo, estudar Jesus pelas lentes do Espiritismo é um convite a enxergar Jesus de forma diferente, aplicando os conhecimentos doutrinários para melhor compreender o que Jesus trouxe de tão relevante.

Contudo, o “fã-clube” cheira a “sacristia”, como já ouvi de um espírita querido, já desencarnado, e que foi um grande divulgador do Espiritismo em Minas Gerais. Tão grande que passou décadas no anonimato, apenas trabalhando no Espiritismo, sem nunca buscar a ribalta voluntariamente. Quando isso acontecia, era por força externa. Os mineiros vão lembrar-se de quem falamos.

O mesmo erro os “religiosos” cometem ao estudar obras daqueles que interpretam o Evangelho, como é o caso do espírito Emmanuel. Tenho visto há anos: as pessoas abrem ao acaso ou estudam de forma sistemática o pensamento do autor citado, porém, ao invés de tentar entender o que ele interpretou sobre os ensinamentos de Jesus, fazem a “interpretação da interpretação”. É a brincadeira do telefone sem fio. Fogem quase sempre da ideia principal que é entender o pensamento daquele que interpretou Jesus.

Talvez por isso o “fã-clube” seja de lascar: a interpretação da interpretação faz com que conhecimentos relevantes do ponto de vista filosófico sejam perdidos e com isso se perca o pensamento do intérprete. Se tivéssemos simplicidade para estudar, tentaríamos primeiro compreender o pensamento do intérprete. Traduzi-lo, assimilá-lo. Depois, aí sim, elaborar novas informações. Na prática o que se vê é: Emmanuel interpreta uma passagem do Evangelho, as pessoas leem o que o autor escreveu e comentam outra coisa completamente diferente, sem conexão com o intérprete e muito menos com o Evangelho. Isso não é “estudo aprofundado” nem aqui e nem em lugar nenhum.

Dessa forma, jornadeiros espíritas, não é difícil compreender por que muitos se afastam das casas espíritas e do “fã-clube”. Seja laico ou religioso, todos estão se esforçando para divulgar o Espiritismo. Cabe lembrar que o Espiritismo não é para multidão. O Espiritismo é preciso ser pensado, sentido, refletido, comentado, compartilhado sem fechar questão, sem ser o “dono da verdade” e muito menos aquele que vai dar a palavra final. O Espiritismo é progressista, o que significa dizer que tanto nós progredimos a compreensão sobre o Espiritismo ao longo da vida, quanto o próprio Espiritismo vai sendo compreendido por outros prismas naquilo que diz respeito às revelações trazidas pelos Espíritos Superiores.

Ainda assim, nossa singela interpretação é que espíritas com o Evangelho precisam repensar a forma como estudam, e aqueles que estudam o Espiritismo e ignoram a importância do Evangelho fazem uma ginástica tremenda para não esbarrar no pensamento de Jesus, que permeia toda a obra de Allan Kardec (o pensamento de Jesus e não do seu "fã-clube"). São espíritas, sem dúvida, mas acho que poderia ser diferente...

    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita