O Espiritismo é uma fonte rica de ensinamentos. Muitos
se sentem incomodados porque esses ensinamentos
conflitam com o comportamento do indivíduo. Em alguns
casos, muitos preferem tentar mudar o Espiritismo e
manter o próprio comportamento, o que nos ensina, com o
tempo, que mudar um comportamento não é tão trivial
quanto fazem parecer coaches e gurus de
autoajuda.
Quando Allan Kardec pergunta aos Espíritos Superiores
qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao
homem para servir-lhe de guia e modelo, os Espíritos
Superiores respondem: “vede Jesus”.
A palavrinha “vede”, que não aparece em todas as
traduções, tem sido motivo de reflexões, algumas
profundas e outras tentam ser profundas, mas trazem
algum holofote para essa discussão. Sim, ao interpretar
o “vede Jesus” muitos espíritas ampliam para “vede
Buda”, “vede Confúcio”, e assim por diante, como se
fossem espíritos do mesmo nível, de acordo com a escala
espírita. Ao definirem um ("vede Jesus"), os Espíritos
deixam claro que há um maior, embora seja interpretativo
e aqueles que pensam diferente, por serem "laicos", vão
discordar.
Contudo, o que não se “vê”, ou o que se vê pouco, a
ponto de normalizar, é a resistência de alguns espíritas
em aceitar Jesus. De acordo com o “meme” (de redes
sociais), o problema quando envolve o nome de Jesus é o
seu “fã-clube”. Jesus tem defensores e detratores de
todas as ordens e classificações, difíceis até de
enumerar em um artigo.
Os Espíritos Superiores são claros: “vede Jesus”. É para
ver, seguir, compreender, assimilar, orientar-se,
conduzir-se, pelo tipo “mais perfeito”. Não há dúvida
alguma nesse ponto e nem margem para elucubrações. O
guia e modelo é Jesus.
Ao longo da vida, à medida que compreendemos os
ensinamentos de Jesus, alguns ensinamentos são eleitos
prioridade, em detrimento de outros. Não se vive a
plenitude dos ensinamentos de Jesus, ainda. Existem
exemplos na história que se notabilizaram pela forma
como conseguiram colocar em prática os ensinamentos de
Jesus. E isso não diz respeito ao “efeito” dos
ensinamentos, aquilo que é percebido pela sociedade, e
sim à causa dos ensinamentos na intimidade de cada um.
Os efeitos podem ser manifestados de forma “religiosa”,
em função de alguns religiosos terem-se destacado na
sociedade. São Francisco é um exemplo de desprendimento,
renúncia e fraternidade que causa espanto até hoje.
Dotado de uma mediunidade de efeitos físicos aflorada,
relatos de fenômenos diversos permeiam sua biografia.
Outros tantos religiosos se notabilizaram pela maneira
como interpretaram os ensinamentos de Jesus e
conseguiram praticar esses ensinamentos.
Todavia, de acordo com a interpretação do Evangelho,
existem a porta “larga” e a porta “estreita”,
simbolizando que nem todo religioso consegue colocar em
prática os ensinamentos de Jesus. Seguindo essa lógica,
que parece absolutamente plausível, o oposto também
acontece.
Aquele que não segue o Evangelho, que não tem Jesus como
guia e modelo, não quer dizer que seja uma pessoa
melhor. Pode até ser mais culto, versado, fala bem,
escreve bem, expõe com clareza seus pensamentos, mas que
na hora que o “calo aperta”, como se diz no interior de
Minas, na hora que é para colocar os ensinamentos morais
aprendidos na Doutrina Espírita em prática, a ponto de
transformar seu comportamento, não saem melhor do que
aqueles que têm um guia e modelo.
Parece simplista, mas não é. Aqueles que têm um guia e
modelo, de fato, já tem uma referência a seguir,
pensando em termos práticos, para além da vida material.
Podem não saber seguir, podem errar o tom e o colorido
na hora de seguir, mas já possuem uma referência.
Aqueles que não entendem Jesus como guia e modelo, se
mantêm na superfície.
Manter-se na superfície não é demérito, por razões
óbvias: aqueles que seguem Jesus também se encontram em
momento similar. Diversos estudiosos podem conhecer o
antigo e o novo Testamentos, mas nem por isso significa
dizer que conhecem além da superfície. E isso inclui
aqueles que estudam o Evangelho de forma “detalhada”,
porque é detalhado na letra, é interpretado na letra, na
simbologia.
Se ambos apresentam semelhanças, qual a diferença? Ou
quais as diferenças? A resposta não é definitiva, é
progressiva. Hoje são especulações. Contudo, é possível
ter uma ideia, pelo que se depreende na divulgação do
Espiritismo, que os que não seguem Jesus não são
melhores do que aqueles que elegeram Jesus. Repetindo,
talvez sejam mais articulados, cultos e por isso até,
menos “chatos” do que o “fã-clube” de Jesus, que insiste
em repetir os erros de religiões convencionais.
Talvez, e isso incomoda, existam aqueles que reconhecem
Jesus como guia e modelo, reconhecem, respeitam e
afinizam com o modelo “laico” (mais por causa do
“fã-clube” do que pelo entendimento doutrinário), mas
procuram manter-se fiéis ao processo filosófico de
aprendizado, com liberdade para compreender os
movimentos, respeitá-los, e seguir um caminho que
procura fugir aos estigmas (“laico” e “religioso”, uma
reedição dos “científicos” e “religiosos” do início do
século XX, período em que o Espiritismo chegou ao
Brasil), para dedicar mais tempo ao estudo que realmente
interessa.
Não sei se os “religiosos” teriam a franqueza de expor o
que pensam para os laicos, como tentamos fazer nesta
reflexão. Fazemos, sem a pretensão de mudar nenhuma
forma de pensar. Aliás, é importante que existam esses
pensamentos diferentes porque, quando um lado excede, o
outro acusa e assim vão caminhando, mais próximos do que
se imaginam porque ambos procuram fazer o seu melhor:
levar o Espiritismo em sua melhor versão para aqueles
que não o conhecem e possam servir-se nesse banquete
espiritual.
Diante do cenário desenhado, resta a dúvida apresentada
no título do artigo. Esse aprendiz de escriba não
consegue conceber uma interpretação do Espiritismo
“completa”, sem Jesus. Participamos por muito tempo dos
debates em entidades laicas, sempre de forma reservada,
como aprendiz e eventualmente emitindo alguma reflexão,
lemos autores laicos, alguns do país, outros de fora do
país, sempre respeitando seus pensamentos e tentando
compreendê-los, contudo, a conclusão a que chegamos é
que é mais forte a resistência aos “religiosos” do que
ao pensamento de Jesus. Não são contra Jesus. Pensam
diferente do “fã-clube”.
O Espiritismo não é uma religião convencional. Logo,
estudar Jesus pelas lentes do Espiritismo é um convite a
enxergar Jesus de forma diferente, aplicando os
conhecimentos doutrinários para melhor compreender o que
Jesus trouxe de tão relevante.
Contudo, o “fã-clube” cheira a “sacristia”, como já ouvi
de um espírita querido, já desencarnado, e que foi um
grande divulgador do Espiritismo em Minas Gerais. Tão
grande que passou décadas no anonimato, apenas
trabalhando no Espiritismo, sem nunca buscar a ribalta
voluntariamente. Quando isso acontecia, era por força
externa. Os mineiros vão lembrar-se de quem falamos.
O mesmo erro os “religiosos” cometem ao estudar obras
daqueles que interpretam o Evangelho, como é o caso do
espírito Emmanuel. Tenho visto há anos: as pessoas abrem
ao acaso ou estudam de forma sistemática o pensamento do
autor citado, porém, ao invés de tentar entender o que
ele interpretou sobre os ensinamentos de Jesus, fazem a
“interpretação da interpretação”. É a brincadeira do
telefone sem fio. Fogem quase sempre da ideia principal
que é entender o pensamento daquele que interpretou
Jesus.
Talvez por isso o “fã-clube” seja de lascar: a
interpretação da interpretação faz com que conhecimentos
relevantes do ponto de vista filosófico sejam perdidos e
com isso se perca o pensamento do intérprete. Se
tivéssemos simplicidade para estudar, tentaríamos
primeiro compreender o pensamento do intérprete.
Traduzi-lo, assimilá-lo. Depois, aí sim, elaborar novas
informações. Na prática o que se vê é: Emmanuel
interpreta uma passagem do Evangelho, as pessoas leem o
que o autor escreveu e comentam outra coisa
completamente diferente, sem conexão com o intérprete e
muito menos com o Evangelho. Isso não é “estudo
aprofundado” nem aqui e nem em lugar nenhum.
Dessa forma, jornadeiros espíritas, não é difícil
compreender por que muitos se afastam das casas
espíritas e do “fã-clube”. Seja laico ou religioso,
todos estão se esforçando para divulgar o Espiritismo.
Cabe lembrar que o Espiritismo não é para multidão. O
Espiritismo é preciso ser pensado, sentido, refletido,
comentado, compartilhado sem fechar questão, sem ser o
“dono da verdade” e muito menos aquele que vai dar a
palavra final. O Espiritismo é progressista, o que
significa dizer que tanto nós progredimos a compreensão
sobre o Espiritismo ao longo da vida, quanto o próprio
Espiritismo vai sendo compreendido por outros prismas
naquilo que diz respeito às revelações trazidas pelos
Espíritos Superiores.
Ainda assim, nossa singela interpretação é que espíritas
com o Evangelho precisam repensar a forma como estudam,
e aqueles que estudam o Espiritismo e ignoram a
importância do Evangelho fazem uma ginástica tremenda
para não esbarrar no pensamento de Jesus, que permeia
toda a obra de Allan Kardec (o pensamento de Jesus e não
do seu "fã-clube"). São espíritas, sem dúvida, mas acho
que poderia ser diferente...