Mérito
Há uma palavra que é pouco lembrada no movimento
espírita e, quando lembrada, muitas vezes produz uma
visão bem distorcida. Essa palavra é: mérito. Parece que
falar em mérito é desmerecer quem não o teve, criar
barreiras e excluir.
Mas o mérito não se trata disso. Quem poderá negar o
mérito de alguém que estudou e superou a si tirando uma
nota maior na escola? Quem poderá negar o mérito de um
trabalho bem feito, do controle emocional exercido num
momento hostil? Por que não reconhecer o mérito do
sujeito que venceu sua impaciência e superou suas crises
de ciúme?
O mérito produz tantas discussões porque o vinculam a
questões sociais, o que é empobrecer seu significado e
toda experiência da alma.
Há vida e horizontes para além das posições sociais
ocupadas no mundo, creiamos.
Os Espíritos nos trazem uma lição interessante: ao
vencermos o orgulho e o egoísmo ficará a desigualdade do
mérito. Portanto, sempre haverá desigualdade a ser
produzida pelas opções que a alma faz neste mundo.
A ninguém são vedadas, dentro de seu campo de ação, as
possibilidades do progresso. Ocorre que se faz a conexão
estabelecida por comparações:
"Mas fulano começou atrás de beltrano".
O tema é muito mais profundo no campo do mérito. Não é
estabelecer comparação entre A e B, mas de si para
consigo. Serei melhor hoje do que fui ontem. Quando
coloco o assunto “mérito” exclusivo ao segmento da
posição social, alimento a comparação com os outros e a
inveja.
A comparação produz dois elementos. Caso eu olhe para
baixo posso me sentir superior a todos. Caso olhe para
cima posso me sentir inferior. Naturalmente que, como um
observador, noto as diferenças, mas eis aí uma tarefa a
cumprir, uma oportunidade para desenvolver a capacidade
de analisar cenários.
Os cenários dos outros, suas necessidades, experiências
e virtudes adquiridas são diferentes das minhas, o que
me leva ao raciocínio seguinte: não devo me preocupar
com a vida alheia, suas conquistas, oportunidades, pois
compará-las ao meu contexto é injusto comigo mesmo.
Essa ideia coloca meu pé na realidade: sou alma em
trânsito por este mundo com o objetivo de aprender e
melhorar, a situação alheia não me diz respeito, as
ações dos outros não são desafios meus. Isso liberta.
Desvincular-se de comparações ajuda muito na melhora de
nossas emoções e sentimentos, colabora para um sentir
mais ajustado às leis naturais e seu cumprimento.
Eis, então, na paz de consciência a sensação do mérito
que alivia o mundo íntimo da alma.
É para além deste mundo, não apenas aquém...