Ao definir as “marcas de nascença” do princípio
espiritual, Kardec apresentou a perfectibilidade,
ao lado da simplicidade e da ignorância. [i]
A perfectibilidade é um conceito central na filosofia de
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Para Rousseau, a
perfectibilidade é a capacidade do ser humano de se
aperfeiçoar indefinidamente, tanto moral quanto
intelectualmente.
Kardec se valeu desse conceito, aplicando-o ao ser
espiritual, à propriedade que lhe é própria de aprender,
deixando a condição de simplicidade e desconhecimento
para a condição de complexidade e sabedoria. É a
perfectibilidade da faculdade espiritual que nos permite
aprender cada vez mais e arquivar em nossa estrutura
íntima tudo aquilo que foi aprendido.
Uma das ferramentas da perfectibilidade é a curiosidade
– o desejo de aprender ou a sede de conhecimento. A
curiosidade acontece sempre que nossas mentes detectam
um fosso entre aquilo que já conhecemos e aquilo que
gostaríamos de conhecer – uma área potencial de
aprendizagem.
Segundo o neurocientista Stanislas Dehaene, Rousseau
estava errado quando escreveu que “A pessoa é curiosa
somente na medida em que é educada”. A curiosidade não é
um efeito da instrução, uma função que precisemos
adquirir. Ela já está presente numa idade muito inicial
e é parte integrante de nossos circuitos cerebrais, um
ingrediente-chave de nosso algoritmo de aprendizado. Não
ficamos apenas, numa atitude passiva, à espera de que a
informação nova chegue até nós; nós humanos nascemos com
uma paixão por saber, e procuramos constantemente o
novo, explorando ativamente nosso ambiente para
descobrir coisas que possamos aprender. A curiosidade é
um impulso fundamental do organismo: uma força
propulsora que nos instiga a agir, exatamente como a
fome, a sede, a necessidade de segurança ou o desejo de
reproduzir.
Que papel desempenha na sobrevivência? É do interesse da
maioria das espécies animais (mamíferos, mas também
pássaros e peixes) explorar o entorno para monitorá-lo
melhor. Seria arriscado construir um ninho, um covil,
uma toca, um esconderijo, um buraco ou um lar sem
conferir o entorno. Num universo instável povoado por
predadores, a curiosidade pode fazer toda a diferença
entre a vida e a morte – e é por isso que a maioria dos
animais fazem inspeções de segurança em seu território,
observando cuidadosamente o que for anormal e
investigando sons ou visões novos...
A curiosidade é a determinação que impele os animais a
saírem de suas zonas de conforto para adquirirem
conhecimentos. Num mundo cheio de incertezas, o valor da
informação é alto e precisa, em última análise, ser pago
na própria moeda de Darwin: a sobrevivência.
A curiosidade é, portanto, uma força que nos estimula a
explorar. Nessa perspectiva, ela se assemelha ao impulso
que nos leva a buscar comida ou parceiros sexuais, com a
diferença de que é motivada por um valor intangível, a
aquisição de informações. Na verdade, os estudos
neurobiológicos mostram que, em nossos cérebros, a
descoberta de informações antes desconhecidas traz sua
própria recompensa: ativa o circuito da dopamina, o
mesmo circuito que fica ativado na presença de comida,
drogas e sexo.[ii]
Através das inúmeras experiências vividas nas duas
dimensões de vida, a espiritual e a física, o Espírito
vai sedimentando em si mesmo realidades aprendidas, que
se manifestam, até mesmo, nos primeiros meses de vida,
em cada experiência corpórea.
Esse conceito vai ao encontro da tese filosófica do inatismo,
segundo a qual certos
conhecimentos, ideias ou princípios já nascem com o ser
humano,
ou seja, são inatos (presentes
desde o nascimento) e não
dependem exclusivamente da experiência.
Segundo essa teoria, o ser humano já traz estruturas
mentais, ideias ou disposições naturais que
o ajudam a compreender o mundo.
Dentre os principais filósofos inatistas, destacam-se
Platão, Descartes e Leibniz.
Platão defendeu
a teoria
da reminiscência, segundo a qual conhecer
é recordar o
que a alma já sabia antes de nascer. A alma contemplou
as ideias
eternas no
mundo inteligível e, ao encarnar, esqueceu.
O aprendizado é, portanto, relembrar.
Descartes (séc. XVII) defendeu ideias
inatas,
como as de Deus, eu
(pensamento) e extensão
(matéria).
A mente humana possui princípios
racionais inatos que
permitem o pensamento e a ciência. A razão é independente
da experiência sensível.
Leibniz (1646-1716) conciliou
o inatismo com a experiência: a experiência desperta as
ideias, mas elas já existem
em potência na
alma.[iii]
A ciência relaciona os conhecimentos instintivos aos
genes: durante a gravidez, nossos genes gravam uma
arquitetura de cérebro que guia e acelera o aprendizado
posterior.
Sem negar o valor dos genes, os espíritas acrescentam
outro fator: as experiências vividas e aprendidas do ser
espiritual.
Segundo Kardec, o Espírito encarnado conserva vestígios
das percepções que teve e dos conhecimentos que adquiriu
nas existências anteriores. Resta-lhe uma espécie de
lembrança, que lhe dá o que se chama ideias inatas.[iv]
Lembra Kardec que a teoria das ideias inatas não é uma
quimera; os conhecimentos adquiridos em cada existência
não se perdem. Durante a encarnação, pode esquecê-los em
parte, momentaneamente, mas a intuição que deles guarda
lhe auxilia o progresso, sem o que estaria sempre a
recomeçar. Em cada nova existência, o Espírito toma como
ponto de partida aquele em que se encontrava em sua
existência anterior.[v]
É claro que a maior parte das coisas que conhecemos
sobre o mundo não nos foi dada por nossos genes: tivemos
que aprendê-las, a partir do ambiente e com aqueles que
nos cercam. Em nossa espécie, a contribuição do
aprendizado é particularmente grande porque nossa
infância é muito mais extensa do que a de outros
mamíferos. No entanto, segundo Stanislas Dehaene[vi],
o inato e o aprendido não deveriam ser contrapostos. Uma
aprendizagem pura, sem quaisquer condicionamentos,
simplesmente não existe. Qualquer algoritmo de
aprendizagem contém, de um modo ou de outro, um conjunto
de pressupostos sobre o domínio a ser aprendido. Isso
porque nosso corpo “sabe” que é muito mais eficaz
apoiar-se em pressupostos prévios que traçam claramente
as leis básicas do domínio a ser explorado e integram
essas leis na própria arquitetura do sistema, do que
partir sempre do zero.
Segundo Dehaene, ao nascer, os cérebros dos bebês já
estão organizados e bem informados. Eles sabem,
implicitamente, que o mundo é feito de coisas que se
movem somente quando são empurradas, sem nunca se
interpenetrar (tratando-se de objetos sólidos) – e
também que ele contém entidades muito estranhas que
falam e se movem por si mesmas (as pessoas). Não há
necessidade de aprender essas leis, porque elas existem
em todo lugar em que vivem seres humanos e nosso genoma
as instala no cérebro, forçando e acelerando assim o
aprendizado.
Bebês ficam olhando por mais tempo para qualquer tela
mágica que lhes apresente acontecimentos surpreendentes,
que violam as leis da física, da aritmética, da
probabilidade ou da psicologia. Por exemplo, quando os
bebês veem um objeto que, misteriosamente, atravessa a
parede, ficam olhando para essa cena impossível... e em
seguida lembram melhor o som que o objeto produziu, ou
mesmo o verbo que um adulto usou para descrever a ação:
“Olha, acabei de sumir com o brinquedo”. Se dermos esse
mesmo objeto aos bebês, eles brincarão com esse objeto
por muito mais tempo que fariam com um brinquedo
semelhante que não violasse as leis da física.
Os bebês não precisam aprender tudo sobre o mundo: seus
cérebros estão cheios de condicionamentos inatos, e
somente os parâmetros específicos que variam de maneira
imprevisível (como a forma do rosto, a cor dos olhos, o
tom de voz e as preferências individuais das pessoas que
os cercam) precisam ser aprendidos.
Mais uma vez, o inato e o aprendido não precisam ser
contrapostos. Se o cérebro do bebê sabe a diferença
entre as pessoas e os objetos inanimados, é porque, em
certo sentido, aprendeu essa diferença – não em seus
poucos dias de vida, mas no decorrer de milhões de anos
da evolução.
Apesar de sua imaturidade, no nascimento o cérebro já
possui um conhecimento considerável, herdado de sua
longa história evolucionária. Mas esse conhecimento fica
em sua maior parte invisível, porque não se manifesta no
comportamento inicial dos bebês.
Podemos então afirmar que, de certo modo, nascemos com
disciplinas intuitivas:
a) física intuitiva: bebês sabem que as coisas caem e
não sobem e objetos físicos não atravessam objetos
físicos;
b) estética intuitiva: rostos bonitos são olhados por
mais tempo por bebês de poucos meses de idade;
c) ética intuitiva: senso de justiça, conceito de certo
e errado estão presentes precocemente, antes dos 2 anos
de idade. Por volta dos dez meses, se veem alguém jogar
uma criança no chão, por exemplo, deduzem que essa
pessoa é mal-intencionada e se afastam dela. Claramente,
preferem uma segunda pessoa que ajuda a criança a
levantar-se;
d) gramática intuitiva: o ser humano nasce
com uma capacidade inata para a linguagem, ou
seja, com uma estrutura mental pré-programada
para aprender e compreender gramáticas.
Desde que nascem, as crianças preferem ouvir sua língua
nativa, em vez de uma língua estrangeira – um achado
verdadeiramente extraordinário que implica que a
aquisição da linguagem começa intraútero. O linguista
Noam Chomsky tinha provavelmente razão ao postular que
nossa espécie nasce com um “dispositivo de aquisição da
linguagem”, um sistema especializado que é acionado
automaticamente nos primeiros anos de vida.
e) matemática intuitiva: desde que o erro seja
suficientemente grande, bebês de nove meses se
surpreendem sempre que uma apresentação concreta sugere
indícios de um cálculo errado: eles são capazes de
mostrar que 5 + 5 não pode ser 5, e 10 – 5 não pode ser
10. Os recém-nascidos percebem os números com poucas
horas de vida;
f) biologia intuitiva: A criança pequena sabe que os
seres vivos realizam movimentos governados por suas
intenções e crenças;
g) pedagogia intuitiva: mesmo uma criança de 1 ano
compreende quando alguém está tentando ensinar-lhe
alguma coisa. Ela consegue perceber a diferença entre
uma ação comum e uma ação que visa a ensinar algo novo.
Porque os bebês nessa idade procuram prontamente as
pessoas que cuidam deles sempre que são incapazes de
resolver sozinhos um problema. O fato de saber que não
sabem os leva a pedir mais informações.[vii]
O fato de os recém-nascidos exibirem imediatamente um
conhecimento sofisticado de objetos, números, pessoas e
línguas refuta a hipótese de que seus cérebros são
apenas quadros vazios, esponjas que absorvem qualquer
coisa que o ambiente lhes impõe.
É falso, portanto, afirmar que nascemos como uma página
em branco, com circuitos totalmente desorganizados e
destituídos de qualquer conhecimento, que receberão mais
tarde a marca do ambiente. A aprendizagem sempre parte
de um conjunto de hipóteses a priori, que são projetadas
sobre os dados recebidos e conduz o sistema a selecionar
as mais adequadas às circunstâncias. O inato, segundo
Jonathan Haidt, é o primeiro rascunho do cérebro.[viii]
Só assim fazem sentido as experiências reencarnatórias:
trazemos conosco o que acumulamos no passado para que
esse conhecimento seja paulatinamente aprimorado e
ampliado, rumo a condições superiores de pensamento e
sentimento.
[1] Obras
póstumas, Profissão de fé espírita raciocinada
[2] É
assim que aprendemos,
Stanislas Dehaene
[3] ChatGPT
[4] LE
item 218
[5] LE
218-a
[6] É
assim que aprendemos, Stanislas Dehaene
[7] Idem
[8] A
mente moralista, Jonathan Haidt.