Especial

por Ricardo Baesso de Oliveira

Kardec e o
Inatismo

 

Ao definir as “marcas de nascença” do princípio espiritual, Kardec apresentou a perfectibilidade, ao lado da simplicidade e da ignorância[i]

A perfectibilidade é um conceito central na filosofia de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Para Rousseau, a perfectibilidade é a capacidade do ser humano de se aperfeiçoar indefinidamente, tanto moral quanto intelectualmente.

Kardec se valeu desse conceito, aplicando-o ao ser espiritual, à propriedade que lhe é própria de aprender, deixando a condição de simplicidade e desconhecimento para a condição de complexidade e sabedoria. É a perfectibilidade da faculdade espiritual que nos permite aprender cada vez mais e arquivar em nossa estrutura íntima tudo aquilo que foi aprendido.

Uma das ferramentas da perfectibilidade é a curiosidade – o desejo de aprender ou a sede de conhecimento. A curiosidade acontece sempre que nossas mentes detectam um fosso entre aquilo que já conhecemos e aquilo que gostaríamos de conhecer – uma área potencial de aprendizagem.

Segundo o neurocientista Stanislas Dehaene, Rousseau estava errado quando escreveu que “A pessoa é curiosa somente na medida em que é educada”. A curiosidade não é um efeito da instrução, uma função que precisemos adquirir. Ela já está presente numa idade muito inicial e é parte integrante de nossos circuitos cerebrais, um ingrediente-chave de nosso algoritmo de aprendizado. Não ficamos apenas, numa atitude passiva, à espera de que a informação nova chegue até nós; nós humanos nascemos com uma paixão por saber, e procuramos constantemente o novo, explorando ativamente nosso ambiente para descobrir coisas que possamos aprender. A curiosidade é um impulso fundamental do organismo: uma força propulsora que nos instiga a agir, exatamente como a fome, a sede, a necessidade de segurança ou o desejo de reproduzir.

Que papel desempenha na sobrevivência? É do interesse da maioria das espécies animais (mamíferos, mas também pássaros e peixes) explorar o entorno para monitorá-lo melhor. Seria arriscado construir um ninho, um covil, uma toca, um esconderijo, um buraco ou um lar sem conferir o entorno. Num universo instável povoado por predadores, a curiosidade pode fazer toda a diferença entre a vida e a morte – e é por isso que a maioria dos animais fazem inspeções de segurança em seu território, observando cuidadosamente o que for anormal e investigando sons ou visões novos...

A curiosidade é a determinação que impele os animais a saírem de suas zonas de conforto para adquirirem conhecimentos. Num mundo cheio de incertezas, o valor da informação é alto e precisa, em última análise, ser pago na própria moeda de Darwin: a sobrevivência.

A curiosidade é, portanto, uma força que nos estimula a explorar. Nessa perspectiva, ela se assemelha ao impulso que nos leva a buscar comida ou parceiros sexuais, com a diferença de que é motivada por um valor intangível, a aquisição de informações. Na verdade, os estudos neurobiológicos mostram que, em nossos cérebros, a descoberta de informações antes desconhecidas traz sua própria recompensa: ativa o circuito da dopamina, o mesmo circuito que fica ativado na presença de comida, drogas e sexo.[ii]

Através das inúmeras experiências vividas nas duas dimensões de vida, a espiritual e a física, o Espírito vai sedimentando em si mesmo realidades aprendidas, que se manifestam, até mesmo, nos primeiros meses de vida, em cada experiência corpórea.

Esse conceito vai ao encontro da tese filosófica do inatismo, segundo a qual certos conhecimentos, ideias ou princípios já nascem com o ser humano, ou seja, são inatos (presentes desde o nascimento) não dependem exclusivamente da experiência. Segundo essa teoria, o ser humano já traz estruturas mentais, ideias ou disposições naturais que o ajudam a compreender o mundo.

Dentre os principais filósofos inatistas, destacam-se Platão, Descartes e Leibniz.

Platão defendeu a teoria da reminiscência, segundo a qual conhecer é recordar o que a alma já sabia antes de nascer. A alma contemplou as ideias eternas no mundo inteligível e, ao encarnar, esqueceu. O aprendizado é, portanto, relembrar.

Descartes (séc. XVII) defendeu ideias inatas, como as de Deuseu (pensamento) e extensão (matéria). A mente humana possui princípios racionais inatos que permitem o pensamento e a ciência. A razão é independente da experiência sensível.

Leibniz (1646-1716) conciliou o inatismo com a experiência: a experiência desperta as ideias, mas elas já existem em potência na alma.[iii]

A ciência relaciona os conhecimentos instintivos aos genes: durante a gravidez, nossos genes gravam uma arquitetura de cérebro que guia e acelera o aprendizado posterior.

Sem negar o valor dos genes, os espíritas acrescentam outro fator: as experiências vividas e aprendidas do ser espiritual.

Segundo Kardec, o Espírito encarnado conserva vestígios das percepções que teve e dos conhecimentos que adquiriu nas existências anteriores. Resta-lhe uma espécie de lembrança, que lhe dá o que se chama ideias inatas.[iv]

Lembra Kardec que a teoria das ideias inatas não é uma quimera; os conhecimentos adquiridos em cada existência não se perdem. Durante a encarnação, pode esquecê-los em parte, momentaneamente, mas a intuição que deles guarda lhe auxilia o progresso, sem o que estaria sempre a recomeçar. Em cada nova existência, o Espírito toma como ponto de partida aquele em que se encontrava em sua existência anterior.[v]

É claro que a maior parte das coisas que conhecemos sobre o mundo não nos foi dada por nossos genes: tivemos que aprendê-las, a partir do ambiente e com aqueles que nos cercam. Em nossa espécie, a contribuição do aprendizado é particularmente grande porque nossa infância é muito mais extensa do que a de outros mamíferos. No entanto, segundo Stanislas Dehaene[vi], o inato e o aprendido não deveriam ser contrapostos. Uma aprendizagem pura, sem quaisquer condicionamentos, simplesmente não existe. Qualquer algoritmo de aprendizagem contém, de um modo ou de outro, um conjunto de pressupostos sobre o domínio a ser aprendido. Isso porque nosso corpo “sabe” que é muito mais eficaz apoiar-se em pressupostos prévios que traçam claramente as leis básicas do domínio a ser explorado e integram essas leis na própria arquitetura do sistema, do que partir sempre do zero.

Segundo Dehaene, ao nascer, os cérebros dos bebês já estão organizados e bem informados. Eles sabem, implicitamente, que o mundo é feito de coisas que se movem somente quando são empurradas, sem nunca se interpenetrar (tratando-se de objetos sólidos) – e também que ele contém entidades muito estranhas que falam e se movem por si mesmas (as pessoas). Não há necessidade de aprender essas leis, porque elas existem em todo lugar em que vivem seres humanos e nosso genoma as instala no cérebro, forçando e acelerando assim o aprendizado.

Bebês ficam olhando por mais tempo para qualquer tela mágica que lhes apresente acontecimentos surpreendentes, que violam as leis da física, da aritmética, da probabilidade ou da psicologia. Por exemplo, quando os bebês veem um objeto que, misteriosamente, atravessa a parede, ficam olhando para essa cena impossível... e em seguida lembram melhor o som que o objeto produziu, ou mesmo o verbo que um adulto usou para descrever a ação: “Olha, acabei de sumir com o brinquedo”. Se dermos esse mesmo objeto aos bebês, eles brincarão com esse objeto por muito mais tempo que fariam com um brinquedo semelhante que não violasse as leis da física.

Os bebês não precisam aprender tudo sobre o mundo: seus cérebros estão cheios de condicionamentos inatos, e somente os parâmetros específicos que variam de maneira imprevisível (como a forma do rosto, a cor dos olhos, o tom de voz e as preferências individuais das pessoas que os cercam) precisam ser aprendidos.

Mais uma vez, o inato e o aprendido não precisam ser contrapostos. Se o cérebro do bebê sabe a diferença entre as pessoas e os objetos inanimados, é porque, em certo sentido, aprendeu essa diferença – não em seus poucos dias de vida, mas no decorrer de milhões de anos da evolução.       

Apesar de sua imaturidade, no nascimento o cérebro já possui um conhecimento considerável, herdado de sua longa história evolucionária. Mas esse conhecimento fica em sua maior parte invisível, porque não se manifesta no comportamento inicial dos bebês.

Podemos então afirmar que, de certo modo, nascemos com disciplinas intuitivas:

a) física intuitiva: bebês sabem que as coisas caem e não sobem e objetos físicos não atravessam objetos físicos;

b) estética intuitiva: rostos bonitos são olhados por mais tempo por bebês de poucos meses de idade;

c) ética intuitiva: senso de justiça, conceito de certo e errado estão presentes precocemente, antes dos 2 anos de idade. Por volta dos dez meses, se veem alguém jogar uma criança no chão, por exemplo, deduzem que essa pessoa é mal-intencionada e se afastam dela. Claramente, preferem uma segunda pessoa que ajuda a criança a levantar-se;

d) gramática intuitiva: o ser humano nasce com uma capacidade inata para a linguagem, ou seja, com uma estrutura mental pré-programada para aprender e compreender gramáticas. Desde que nascem, as crianças preferem ouvir sua língua nativa, em vez de uma língua estrangeira – um achado verdadeiramente extraordinário que implica que a aquisição da linguagem começa intraútero. O linguista Noam Chomsky tinha provavelmente razão ao postular que nossa espécie nasce com um “dispositivo de aquisição da linguagem”, um sistema especializado que é acionado automaticamente nos primeiros anos de vida.

e) matemática intuitiva: desde que o erro seja suficientemente grande, bebês de nove meses se surpreendem sempre que uma apresentação concreta sugere indícios de um cálculo errado: eles são capazes de mostrar que 5 + 5 não pode ser 5, e 10 – 5 não pode ser 10. Os recém-nascidos percebem os números com poucas horas de vida;

f) biologia intuitiva: A criança pequena sabe que os seres vivos realizam movimentos governados por suas intenções e crenças;

g) pedagogia intuitiva: mesmo uma criança de 1 ano compreende quando alguém está tentando ensinar-lhe alguma coisa. Ela consegue perceber a diferença entre uma ação comum e uma ação que visa a ensinar algo novo. Porque os bebês nessa idade procuram prontamente as pessoas que cuidam deles sempre que são incapazes de resolver sozinhos um problema. O fato de saber que não sabem os leva a pedir mais informações.[vii]

O fato de os recém-nascidos exibirem imediatamente um conhecimento sofisticado de objetos, números, pessoas e línguas refuta a hipótese de que seus cérebros são apenas quadros vazios, esponjas que absorvem qualquer coisa que o ambiente lhes impõe.

É falso, portanto, afirmar que nascemos como uma página em branco, com circuitos totalmente desorganizados e destituídos de qualquer conhecimento, que receberão mais tarde a marca do ambiente. A aprendizagem sempre parte de um conjunto de hipóteses a priori, que são projetadas sobre os dados recebidos e conduz o sistema a selecionar as mais adequadas às circunstâncias. O inato, segundo Jonathan Haidt, é o primeiro rascunho do cérebro.[viii]

Só assim fazem sentido as experiências reencarnatórias: trazemos conosco o que acumulamos no passado para que esse conhecimento seja paulatinamente aprimorado e ampliado, rumo a condições superiores de pensamento e sentimento.

 


[1] Obras póstumas, Profissão de fé espírita raciocinada

[2] É assim que aprendemos, Stanislas Dehaene

[3] ChatGPT

[4] LE item 218

[5] LE 218-a

[6] É assim que aprendemos, Stanislas Dehaene

[7] Idem

[8] A mente moralista, Jonathan Haidt.

    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita