Artigos

por Wellington Balbo

 

O Espiritismo na prevenção da saúde mental


No cenário da saúde mental uma verdade torna-se cada vez mais clara: prevenir o suicídio não é apenas uma questão de vigilância, mas de profunda compreensão da alma humana.

Para trilhar este caminho com responsabilidade, precisamos de unir a sensibilidade da escuta à construção de uma estrutura interna sólida, de força e compreensão dos grandes dilemas humanos.

A busca por compreender quem pensa em suicídio é uma das tarefas mais desafiadoras dos tempos atuais. Não somos máquinas, não temos um padrão. A subjetividade é uma das marcas das almas e este fato, tanto é maravilhoso quanto impõe, naturalmente, dificuldades adicionais nesta compreensão.

Para entender a cabeça de quem pensa em suicídio é preciso compreender o conceito de ambivalência. A pessoa não quer necessariamente morrer; ela quer matar a dor que se tornou insuportável.

Nesse estado, entra-se em "visão em túnel": deixa-se de ver alternativas e acredita que a morte é a única saída.

Um ponto importante e de destaque para quem quer colaborar: a nossa função não é dar sermões, mas sim ajudar a pessoa a "alargar o túnel", mostrando que existem outras soluções para aquela dor específica.

O psicólogo Edwin Shneidman, um dos maiores especialistas no assunto, cunhou o termo dor da alma. Ele explica que o suicídio ocorre quando a dor psicológica ultrapassa a capacidade de resistência da pessoa.

 Verdade é que cada espírito tem uma capacidade diferente e um limite para lidar com a dor. O que para um é suportável, para outro é devastador. Validar a dor do outro, sem a minimizar ("isso não é nada", "tem tudo para ser feliz"), é o primeiro passo para salvar uma vida.

Não somos portadores de um “dordômetro”, aparelho – imaginário, claro, que possibilita medir a dor alheia, e como essa tecnologia ainda é inexistente, cabe-nos deixar nosso papel de julgador de lado para entrar no modo “compreende-dor”.

Em suma, ninguém tem o direito de dizer "isso é uma bobagem" ou "eu passei por pior e aguentei". Como não existe o tal "dordômetro" universal, a dor de uma pessoa é 100% real para ela, independentemente do motivo (seja o fim de um namoro ou uma perda financeira). Se a pessoa sente que a dor é insuportável, então ela é insuportável.

Quando aceitamos que não podemos medir a dor do outro, somos obrigados a abandonar o julgamento.

Não temos o "dordômetro", mas podemos desenvolver uma escuta ativa e amorosa e que nos dá o tom do que se deve fazer, sendo o primeiro passo o acolhimento.

Incentivar a partilha da dor, validar o humano que há mesmo nas grandes fortalezas pessoais já é um passo importante que podemos adotar.

Acolher é, portanto, o primeiro e fundamental exercício num processo de colaboração  com o próximo em sofrimento.

Se, por um lado, é importante acolhermos, recepcionarmos a dor do outro sem julgar, por outro lado é importante mostrarmos um caminho que pode colaborar com o fortalecimento do ego e a reconstrução de uma vida mais saudável sob o aspecto psíquico.

Então, penso que o desafio está na busca por esse equilíbrio, que acolhe, primeiro, claro, mas que não deixa de, num momento oportuno, despertar o outro para o fortalecimento e aceitação de forma mais leve das dificuldades da vida.

Esse equilíbrio é a proposta que liga o acolhimento à resiliência.

Podemos colocar esses dois campos:

1ª Fase: O Acolhimento

Temos de ser o "suporte". Se tentarmos "fortalecer" alguém que está em plena crise aguda, a pessoa pode sentir-se pressionada ou não compreendida. Relembrando: nessa fase nada de sermão, de observações mais agudas.

2ª Fase: O Despertar

Aqui entra o "fortalecimento". Após os primeiros socorros emocionais é importante mostrar elementos que possibilitem a construção ou reconstrução de valores que fortaleçam o ego.

Se formos rápidos demais no fortalecimento, pareceremos frios; se formos lentos demais apenas no acolhimento, tornamo-nos "muletas" que não permitem à pessoa andar sozinha.

A sensibilidade desenvolvida nos dará o momento de virar a chave entre acolhimento e despertar.

Outro ponto a registrar: devemos ter em mente a importância dos profissionais de saúde para o restabelecimento de quem passa por processos de intensa dor. Inexiste razão para abdicarmos da ligação entre ciência convencional e Espiritismo, que é, com base, a ciência da alma.

O fortalecimento também passa por terapia e, por vezes, medicação. Uma mente equilibrada quimicamente é uma fortaleza muito mais difícil de derrubar.

Como saber se estamos construindo muros ou pontes?

O muro surge quando usamos frases feitas como "tem de ser forte", "há quem esteja pior" ou "isso passa". Estas frases invalidam a dor e fecham o canal de comunicação.

A ponte surge quando dizemos "estou aqui contigo enquanto dói" e, mais tarde, quando vemos um sinal de melhora, perguntamos: "Como acha que podemos dar o próximo passo?".

A ponte é construída ao ritmo de quem caminha, não de quem guia, aliás, o respeito à individualidade e ao tempo de digestão da dor é um fator importante para observar.

A prevenção do suicídio é uma arte de equilíbrio delicado. É ser o abrigo durante a tempestade (acolhimento) e o arquiteto da reconstrução quando o sol volta a aparecer (fortalecimento).

Muitas vezes, no meio religioso, fala-se do ego como algo a ser "aniquilado". Mas na prevenção do suicídio, o ego precisa de ser reconstruído. Uma pessoa com o ego "em frangalhos" sente-se um nada; uma pessoa com o ego fortalecido sente que tem o direito (e a capacidade) de recomeçar.

Fortalecer o ego é a fisioterapia que devolve o movimento. Mostrar caminhos é o mapa para a nova jornada.

A ideia é deixar de ser apenas alguém que "consola" para ser alguém que ajuda a desembaçar os óculos existenciais.

Aliás, o pé na estrada da realidade que Kardec traz é fundamental para a saúde psíquica. Ele diz que que os maus dias serão inevitáveis e faz com que pensemos o seguinte: se os maus dias são inevitáveis, os bons dias também serão.

É o "Princípio da Impermanência", e é um dos maiores antídotos contra o desespero.

Quando utilizo o raciocínio de Kardec para validar que os bons dias também são inevitáveis, estou a construir a minha fortaleza.

Esta visão traz três benefícios fundamentais para a saúde mental e para a prevenção do suicídio:

Quebra da "Eternização da Dor": O grande perigo da mente em sofrimento é acreditar que a dor é infinita. Ao entender que a vida é feita de ciclos (como as estações do ano), a pessoa compreende que o "inverno" emocional tem data para acabar.

Esperança Racional: Não é um otimismo ingênuo, mas uma certeza estatística e espiritual. Se a lei do progresso é constante, o movimento da vida empurra-nos sempre avante.

Resiliência no "Entretanto": Saber que o bom dia virá permite-nos aguentar o mau dia com mais paciência.

A lógica de Kardec e o Equilíbrio

A ideia de que a Terra é um mundo de provas e expiações serve para nos dar perspectiva. Se aceitamos o "contrato" de que haverá dias difíceis, deixamos de nos sentir vítimas ou injustiçados quando eles chegam. E essa aceitação é o que dá a "leveza" necessária.

Enfim:

Acolhemos porque o dia é mau.

Fortalecemos porque o dia bom é inevitável.

Caminhamos porque a mudança é a única constante.

Essa ideia mostra que o Espiritismo é aplicável no dia a dia e não uma abstração para ser vivida no mundo dos espíritos ou num amanhã. Ele é “agoral” e não “futural”.


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita