O Espiritismo na prevenção da saúde
mental
No cenário da saúde mental uma verdade torna-se cada vez
mais clara: prevenir o suicídio não é apenas uma questão
de vigilância, mas de profunda compreensão da alma
humana.
Para trilhar este caminho com responsabilidade,
precisamos de unir a sensibilidade da escuta à
construção de uma estrutura interna sólida, de força e
compreensão dos grandes dilemas humanos.
A busca por compreender quem pensa em suicídio é uma das
tarefas mais desafiadoras dos tempos atuais. Não somos
máquinas, não temos um padrão. A subjetividade é uma das
marcas das almas e este fato, tanto é maravilhoso quanto
impõe, naturalmente, dificuldades adicionais nesta
compreensão.
Para entender a cabeça de quem pensa em suicídio é
preciso compreender o conceito de ambivalência. A pessoa
não quer necessariamente morrer; ela quer matar a dor
que se tornou insuportável.
Nesse estado, entra-se em "visão em túnel": deixa-se de
ver alternativas e acredita que a morte é a única saída.
Um ponto importante e de destaque para quem quer
colaborar: a nossa função não é dar sermões, mas sim
ajudar a pessoa a "alargar o túnel", mostrando que
existem outras soluções para aquela dor específica.
O psicólogo Edwin Shneidman, um dos maiores
especialistas no assunto, cunhou o termo dor da alma.
Ele explica que o suicídio ocorre quando a dor
psicológica ultrapassa a capacidade de resistência da
pessoa.
Verdade é que cada espírito tem uma capacidade
diferente e um limite para lidar com a dor. O que para
um é suportável, para outro é devastador. Validar a dor
do outro, sem a minimizar ("isso não é nada", "tem tudo
para ser feliz"), é o primeiro passo para salvar uma
vida.
Não somos portadores de um “dordômetro”, aparelho –
imaginário, claro, que possibilita medir a dor alheia, e
como essa tecnologia ainda é inexistente, cabe-nos
deixar nosso papel de julgador de lado para entrar no
modo “compreende-dor”.
Em suma, ninguém tem o direito de dizer "isso é uma
bobagem" ou "eu passei por pior e aguentei". Como não
existe o tal "dordômetro" universal, a dor de uma pessoa
é 100% real para ela, independentemente do motivo (seja
o fim de um namoro ou uma perda financeira). Se a pessoa
sente que a dor é insuportável, então ela é
insuportável.
Quando aceitamos que não podemos medir a dor do outro,
somos obrigados a abandonar o julgamento.
Não temos o "dordômetro", mas podemos desenvolver uma
escuta ativa e amorosa e que nos dá o tom do que se deve
fazer, sendo o primeiro passo o acolhimento.
Incentivar a partilha da dor, validar o humano que há
mesmo nas grandes fortalezas pessoais já é um passo
importante que podemos adotar.
Acolher é, portanto, o primeiro e fundamental exercício
num processo de colaboração com o próximo em
sofrimento.
Se, por um lado, é importante acolhermos, recepcionarmos
a dor do outro sem julgar, por outro lado é importante
mostrarmos um caminho que pode colaborar com o
fortalecimento do ego e a reconstrução de uma vida mais
saudável sob o aspecto psíquico.
Então, penso que o desafio está na busca por esse
equilíbrio, que acolhe, primeiro, claro, mas que não
deixa de, num momento oportuno, despertar o outro para o
fortalecimento e aceitação de forma mais leve das
dificuldades da vida.
Esse equilíbrio é a proposta que liga o acolhimento à
resiliência.
Podemos colocar esses dois campos:
1ª Fase: O Acolhimento
Temos de ser o "suporte". Se tentarmos "fortalecer"
alguém que está em plena crise aguda, a pessoa pode
sentir-se pressionada ou não compreendida. Relembrando:
nessa fase nada de sermão, de observações mais agudas.
2ª Fase: O Despertar
Aqui entra o "fortalecimento". Após os primeiros
socorros emocionais é importante mostrar elementos que
possibilitem a construção ou reconstrução de valores que
fortaleçam o ego.
Se formos rápidos demais no fortalecimento, pareceremos
frios; se formos lentos demais apenas no acolhimento,
tornamo-nos "muletas" que não permitem à pessoa andar
sozinha.
A sensibilidade desenvolvida nos dará o momento de virar
a chave entre acolhimento e despertar.
Outro ponto a registrar: devemos ter em mente a
importância dos profissionais de saúde para o
restabelecimento de quem passa por processos de intensa
dor. Inexiste razão para abdicarmos da ligação entre
ciência convencional e Espiritismo, que é, com base, a
ciência da alma.
O fortalecimento também passa por terapia e, por vezes,
medicação. Uma mente equilibrada quimicamente é uma
fortaleza muito mais difícil de derrubar.
Como saber se estamos construindo muros ou pontes?
O muro surge quando usamos frases feitas como "tem de
ser forte", "há quem esteja pior" ou "isso passa". Estas
frases invalidam a dor e fecham o canal de comunicação.
A ponte surge quando dizemos "estou aqui contigo
enquanto dói" e, mais tarde, quando vemos um sinal de
melhora, perguntamos: "Como acha que podemos dar o
próximo passo?".
A ponte é construída ao ritmo de quem caminha, não de
quem guia, aliás, o respeito à individualidade e ao
tempo de digestão da dor é um fator importante para
observar.
A prevenção do suicídio é uma arte de equilíbrio
delicado. É ser o abrigo durante a tempestade
(acolhimento) e o arquiteto da reconstrução quando o sol
volta a aparecer (fortalecimento).
Muitas vezes, no meio religioso, fala-se do ego como
algo a ser "aniquilado". Mas na prevenção do suicídio, o
ego precisa de ser reconstruído. Uma pessoa com o ego
"em frangalhos" sente-se um nada; uma pessoa com o ego
fortalecido sente que tem o direito (e a capacidade) de
recomeçar.
Fortalecer o ego é a fisioterapia que devolve o
movimento. Mostrar caminhos é o mapa para a nova
jornada.
A ideia é deixar de ser apenas alguém que "consola" para
ser alguém que ajuda a desembaçar os óculos
existenciais.
Aliás, o pé na estrada da realidade que Kardec traz é
fundamental para a saúde psíquica. Ele diz que que os
maus dias serão inevitáveis e faz com que pensemos o
seguinte: se os maus dias são inevitáveis, os bons dias
também serão.
É o "Princípio da Impermanência", e é um dos maiores
antídotos contra o desespero.
Quando utilizo o raciocínio de Kardec para validar que
os bons dias também são inevitáveis, estou a construir a
minha fortaleza.
Esta visão traz três benefícios fundamentais para a
saúde mental e para a prevenção do suicídio:
Quebra da "Eternização da Dor": O grande perigo da mente
em sofrimento é acreditar que a dor é infinita. Ao
entender que a vida é feita de ciclos (como as estações
do ano), a pessoa compreende que o "inverno" emocional
tem data para acabar.
Esperança Racional: Não é um otimismo ingênuo, mas uma
certeza estatística e espiritual. Se a lei do progresso
é constante, o movimento da vida empurra-nos sempre
avante.
Resiliência no "Entretanto": Saber que o bom dia virá
permite-nos aguentar o mau dia com mais paciência.
A lógica de Kardec e o Equilíbrio
A ideia de que a Terra é um mundo de provas e expiações
serve para nos dar perspectiva. Se aceitamos o
"contrato" de que haverá dias difíceis, deixamos de nos
sentir vítimas ou injustiçados quando eles chegam. E
essa aceitação é o que dá a "leveza" necessária.
Enfim:
Acolhemos porque o dia é mau.
Fortalecemos porque o dia bom é inevitável.
Caminhamos porque a mudança é a única constante.
Essa ideia mostra que o Espiritismo é aplicável no dia a
dia e não uma abstração para ser vivida no mundo dos
espíritos ou num amanhã. Ele é “agoral” e não “futural”.