Ambos viveram e dividiram a mesma época histórica e o
mesmo campo geográfico, a Europa do século XIX. Contudo,
tiveram visões completamente discrepantes da vida e do
homem e do papel que cada um deve desempenhar para uma
sociedade mais justa.

Kardec e Marx não são queijo e goiabada, Pelé e Coutinho
ou leite e café; embora, hoje, muitos queiram trazer
algumas semelhanças, definitivamente elas inexistem.
Marx acreditava que a consciência era determinada pela
posição econômica (o ser social determina a
consciência). Para ele, retirar o poder do burguês e
passar ao proletário resolveria questões intrincadas da
alma humana e o sol nasceria para todos, nada de
opressão e absurdos.
Para Kardec, o egoísmo e a sede de poder não são
exclusivos de uma classe social, mas características do
estágio moral do espírito. Se um oprimido sobe ao poder
sem melhorar-se intimamente, ele não destrói a opressão;
apenas troca de lugar com o suposto opressor.
O que vemos no Brasil de 2025 corrobora essa ideia.
Muitos dos que hoje ocupam os cargos mais altos
ascenderam com discursos de defesa do trabalhador e do
oprimido.
Uma vez no poder, muitos comportam-se como a "nova
aristocracia". Utilizam os mesmos jatinhos, as mesmas
influências e os mesmos mecanismos de espoliação que
antes criticavam. Isso prova que ser trabalhador ou
defendê-lo não é um certificado de idoneidade moral. A
alma humana, enquanto sujeito, portador de
subjetividades das mais diversas, não pode receber uma
alcunha paupérrima e simplista apenas de “trabalhador”.
Há mais, muito mais para além dessa pequena parte
importante, claro, que o ser humano representa e que é a
de trabalhador.
Sem a educação moral de Kardec, a política torna-se
apenas uma disputa por quem terá o direito de saquear o
Estado e, consequentemente, o povo, o trabalhador, o
cidadão.
O sistema pode dar "instrução" técnica a um juiz ou a um
político, mas, sem a "educação" moral, essa instrução
serve apenas para que eles mintam melhor ou criem leis
mais sofisticadas para proteger os seus próprios
interesses.
A mudança social é uma consequência da modificação dos
indivíduos. Sem espíritos mais evoluídos, qualquer
sistema e instituições serão usadas para o império do
mal.
Então, a origem do problema não é a sigla do partido ou
o modelo de produção adotado por uma sociedade, mas a
pobreza moral do indivíduo.
Sem o elemento moral de Kardec, a luta de classes de
Marx é apenas uma roda que gira: o oprimido de ontem é o
tirano de hoje, e o ciclo de mentiras e injustiças
continua sob novos nomes, pomposos, é verdade, mas que
repetem o mesmo ciclo.
Enquanto o Brasil (e o mundo) focar apenas em mudar os
nomes no poder e não a base moral de quem exerce o
poder, continuaremos a ter "ideias difíceis de abraçar".
A honestidade não depende da conta bancária, mas do
caráter.
E por qual razão esses dois pensadores, Marx e Kardec,
tinham tantas diferenças?
Por conta do conhecimento e falta dele dos mecanismos
psicológicos que movem os sujeitos.
Marx mostra um profundo desconhecimento da alma humana,
embora ele se arrojasse como sociólogo, não conhecia
assim tão bem o “chão de fábrica”.
O "ponto cego" de Marx foi precisamente o reducionismo:
ele tentou transformar a complexidade da alma humana
numa equação puramente econômica e material,
empobrecendo-a.
Marx via o indivíduo não como um ser com vontades,
traumas ou virtudes próprias, mas como um mero reflexo
da sua classe social. Para ele, o trabalhador era uma
abstração estatística, uma peça na engrenagem social.
Ele não previu que o trabalhador, ao prosperar, muitas
vezes deseja as mesmas coisas que o patrão. Marx ignorou
a ambição individual e a busca por significado pessoal,
de sentido existencial, que vai além do sustento
material.
Embora Marx escrevesse sobre o operário, ele viveu
grande parte da sua vida como um intelectual.
Provavelmente Marx raramente pisou numa fábrica para
ouvir as aspirações reais dos trabalhadores. Ele não
percebeu que o trabalhador não quer apenas "destruir o
sistema"; ele quer que o sistema funcione para que ele
possa almejar o progresso. Marx não entendeu que o
operário real, muitas vezes, é mais conservador e focado
na família do que o intelectual revolucionário imagina.
Basta olhar o Brasil de hoje para constatar que boa
parte dos trabalhadores são conservadores.
Marx acreditava que a moralidade era uma "invenção
burguesa". Ao descartar a necessidade de uma educação
moral, ele desprezou a grande porta de modificação da
sociedade.
Sem o freio moral, o "proletário no poder" ou na busca
dele tornou-se, em muitos casos, um ditador porque
sentia que a sua "causa" justificava qualquer
barbaridade.
No Brasil atual, vemos exatamente isso: pessoas que usam
o rótulo de "defensores do povo" para praticar os mesmos
atos de elite que criticavam. Se Marx tivesse
compreendido que o egoísmo e a vaidade são inerentes ao
ser humano (e não apenas ao burguês), ele teria
percebido que mudar a economia sem mudar o homem é um
erro capital, crasso mesmo.
A sociologia de Marx é um castelo de cartas porque lhe
falta o alicerce do conhecimento psicológico e
espiritual, tão bem representado em Kardec. Sem a
elevação moral que Kardec propunha, qualquer tentativa
de "justiça social" acaba por se transformar numa nova
forma de privilégio para os novos detentores do poder.
A obra de Kardec, aliás, está repleta de críticas ao
marxismo.
Vejamos, por exemplo, o que Kardec escreveu sobre a
desigualdade das riquezas.
Kardec abordou o tema da desigualdade e da organização
social com uma lucidez que antecipou as falhas que o
marxismo viria a apresentar e conforme a História nos
conta do regime soviético, por exemplo.
Em O Livro dos Espíritos, Kardec analisa a
desigualdade das riquezas de uma forma que colide
frontalmente com a proposta de igualitarismo forçado do
materialismo histórico.
Kardec pergunta aos Espíritos se a igualdade absoluta
das riquezas é possível. A resposta é um "Não"
categórico.
Os Espíritos explicam que a igualdade absoluta é
impossível porque a diversidade de faculdades e de
aptidões entre os homens é uma lei natural.
Enquanto Marx via a desigualdade apenas como um produto
da exploração econômica, Kardec via-a como um reflexo da
desigualdade intelectual e moral dos espíritos em
evolução. Forçar todos a terem o mesmo seria, para
Kardec, violar a natureza individual e o mérito de cada
um.
Kardec faz uma observação sociológica brilhante que
desmonta qualquer tentativa de socialismo puramente
material.
Ele afirma que, se distribuíssemos a riqueza de forma
igualitária hoje, amanhã ela estaria novamente desigual.
Por quê? Porque o equilíbrio seria quebrado pela
diferença natural entre os espíritos.
Numa economia planificada, por exemplo, com todos tendo
o mesmo rendimento, imagine que se você comprar um
celular de R$ 1.000,00 e o outro nada adquire, a
igualdade entre vocês já está desfeita pelas escolhas
efetuadas por um ou outro.
Só a inclusão da violência nessa conta pode conseguir
barrar o indivíduo de exercitar a vontade e,
infelizmente, foi o que ocorreu nos regimes que adotaram
as máximas socialistas.
Ao contrário de Marx, que pregava a abolição da
propriedade e o confronto, Kardec não advogava essa
ideia.
Para Kardec, a riqueza é uma "prova" tão difícil quanto
a pobreza. O rico não deve ser eliminado, mas deve
entender que é um "depositário" de recursos e usá-los
para o progresso.
Se o rico não cumpre essa função, o problema é moral e
não do sistema econômico em si. A solução não é a
revolução violenta, mas a educação que transforma o
egoísmo em caridade.
Kardec defende que a única igualdade real é a Igualdade
de Direitos e a Igualdade perante a Lei, mas nunca a
igualdade de resultados materiais.
Ele sublinha que o progresso consiste em garantir que
todos tenham o necessário e que numa sociedade justa
ninguém deve perecer pela falta do mínimo a uma
existência digna.
Kardec percebeu que o marxismo tenta resolver um
problema de caráter com uma solução de tesouraria.
No Brasil de 2025, vemos exatamente isso: mudam-se os
sistemas, criam-se leis de "igualdade", mas como a base
moral (a ganância e o egoísmo) permanecem a mesma, o
resultado é a criação de uma nova elite espoliadora
disfarçada de defensora do povo.
Se Kardec pudesse dizer algo a Marx, ele diria que Marx
falhou porque tentou construir um edifício social com
"tijolos podres" (homens sem educação moral). Sem a
educação que transforma o homem de dentro para fora,
qualquer sistema — seja ele qual for — será apenas uma
nova ferramenta de injustiça.