Histórias da vida mais além
Ali, no Centro Espírita de uma cidadezinha de Minas
Gerais, três médiuns frequentam assiduamente a reunião
noturna de sexta-feira sob a direção de dona Zoraide.
A prece inicia os trabalhos e é lida uma página do
Evangelho versando sobre as mesmas palavras das
bem-aventuranças: "Mas os mansos herdarão a Terra e se
deleitarão na abundância da paz" (Salmo 37:11).
Inicia-se o diálogo com primeiro Espírito:
– Nunca imaginei passar por isso. Estou completamente
perdido no meio de uma multidão de gente ignorante e
desesperada.
A todo instante alguém corre atrás de mim pedindo
socorro. Estão mais aflitos que eu. Pedem ajuda. Me
levem de volta para o hospital. Não me sinto bem. Não
deviam ter-me dado alta.
Eu então pergunto: Onde está o Céu? ou o inferno? Isto
aqui parece uma cidade sem ordem e sem Lei.
Por que tanta gente aflita, desorientada, pedindo ajuda?
Andam em bandos como se fossem guiados para andar
eternamente sem rumo.
O inferno aqui não tem endereço. Cada um sofre o mesmo
castigo: andar perdido e sem rumo.
Novo manifestante:
– Quero os meus direitos. Contribuí com a igreja para
garantir meu lugar no Céu e estão me mantendo preso no
meio dessa gente horrível.
Não pedi para vir até aqui.
Por que vocês me forçam a falar? Não tenho nada a dizer.
Minha esposa é testemunha da generosidade com que sempre
atendi os pedidos do Padre Bentinho. Fiz doações
expressivas para a Igreja.
E meu confessor? por que não me responde? Ele soube me
perdoar com carinho. Não deixei de lhe confessar todos
meus pecados.
Não tenho do que me arrepender. Recebi as garantias de
que teria meu lugar no Céu.
Terceiro comunicante:
– O que significa isto? Fui levado para um hospital onde
não posso receber visitas dos meus filhos. A esposa já é
falecida.
Esteve aqui duas ou três vezes e eu não entendi as
explicações dela.
Claro, não podia ser diferente, pois ela quis me
convencer de que eu também não estou mais vivo em nossa
casa. Ela tenta me iludir.
Estou muito bem vivo. Sinto as mesmas dores no peito que
me atormentavam. A falta de ar desapareceu. Vejo e
escuto muito bem as enfermeiras que me trazem remédios.
Não é possível que eu esteja morto.
Agora é uma mulher que se manifesta:
– Quero meu filho nos meus braços, ele não pode
continuar nessa vida. Não escuta meus conselhos.
São as más companhias que o levaram aos maus caminhos.
Eles o levaram para as drogas. Já abandonou a esposa.
Não dá a mínima para os filhos e não se anima a procurar
emprego.
Prefiro que ele morra e venha ficar ao meu lado. O Céu
não é lugar para as mães enquanto seus filhos sofrem na
Terra.
Depois manifesta-se um jovem:
– Mãe, estou bem, fique tranquila. Foi tudo muito
rápido. Percebi que a morte chegava de surpresa e não
havia retorno. O rins pararam de funcionar. A falta de
ar me oprimia. O coração falhava como se tropeçasse.
Quando perdi a consciência perdi a noção de tempo. Não
sei como fui parar no hospital onde me encontro. Percebo
que não tentam me consolar. Me dão amparo, isso sim.
Atendem minhas necessidades.
Tenho de corresponder com disciplina já que aqui tudo é
respeitoso, tudo na medida certa. Obedecemos à
hierarquia da serenidade.
Mãezinha, sempre que for autorizado estarei ao seu lado.
O próximo a se comunicar mostra-se ofegante e agitado; o
médium se esforça, mas o comunicante não se acalma:
– Onde está Marina?
Estou procurando desesperadamente por ela.
Vasculho nas casas onde morou. Sacudo os parentes do
interior para me revelarem um sinal dela. Vou aos
hospitais. Corro até ao cemitério.
Eu preciso matá-la. Ela não pode viver com aquele
monstro.
Eu morri num acidente que me surpreendeu numa estrada
movimentada. Mas... Marina é minha e sempre será.
Lição de casa
A Doutrina Espírita descortinou a vida além-túmulo.
E a reunião mediúnica nos põe em contato ostensivo
com Espíritos desencarnados que, buscando nosso auxílio,
trazem lições esclarecedoras.
Essas histórias nos alertam. O trabalho nos dois lados
da vida exige muito estudo e dedicação por longo prazo.