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Estilingue
“Mas que é a teoria
ao lado da prática?” ¹ - Allan
Kardec
O menino puxou a
borracha do estilingue,
firme, mirou com fria
paciência e soltou uma
das mãos. A pedra zuniu
entre a forquilha
bem-enquadrada, seguiu
velozmente seu
inapelável curso, só
parando ao explodir no
corpo flácido de
penugens coloridas. Um
pássaro.
O golpe violento e
inesperado não lhe
permitiu qualquer
reação. O som surdo do
projétil no peito fofo
provocou a revoada do
bando amigo. A vítima
inerte pendeu em
desequilíbrio total,
esquecida de si mesma,
varou o ar em risco
vertical e caiu sobre a
folhagem do chão, morta.
O menino vasculhou o
mato, ansioso. Encontrou
a caça tristemente
amontoada, de olhos
abertos, súplices, como
a pedir explicação.
Levantou o pássaro com
uma das mãos, com a
outra arrumou as tiras
do estilingue no
pescoço. Riu, não
acreditando na pontaria
certeira. Deu alguns
passos, saiu do mato e
pegou a estradinha de
volta para casa, as
canelinhas finíssimas do
bichinho enganchadas nos
dedos infantis. Mostrará
o troféu aos meninos da
vila.
Em sentido contrário, na
ruazinha de terra,
encontro-o caminhando
rápido, quase correndo.
– Ei, guri, o que fez?!
Aproximo-me dele,
amistoso, já
compreendendo tudo e
disposto a não deixá-lo
passar sem antes me
ouvir.
– Achei esse bicho na
beirinha do mato.
– Está morto? Por que o
leva?
O garoto olha para os
lados na expectativa de
que alguém o desembarace
do imprevisto obstáculo.
– Você tem algo a ver
com isso? –
pergunto-lhe, apontando
para o pássaro.
– Não, nada!
– Está falando a
verdade? E essa arma no
seu pescoço?!
– Não é arma.
– Você não acha que um
estilingue possa matar
um pássaro?
– Mata...
– Ora, um apetrecho que
mata é então uma arma!
– ...
– Olhe, quero lhe fazer
uma proposta – digo ao
menino, cujos olhos
trazem um certo terror.
– Quer trocar comigo o
seu estilingue? Dou a
você um brinquedo e mais
um lindo livro. O que
você acha?
– Ah, não sei... eu
gosto de brincar com
ele.
Percebo em seu rosto um
lampejo que não deixa
dúvidas. Aproveito o
ingênuo remorso que
começa a brotar no seu
peito assustado e
aumento a oferta:
– Dou-lhe ainda mais um
belo livro de histórias
pelas pedras que você
tem no bolso!
Ele empalidece, baixando
o olhar.
– Foi você, não foi?
O menino olha para mim
sem reação, súplice,
claramente pesaroso.
Aperta os lábios,
deixando o pássaro cair
na terra.
Estendo a mão, aguardo
que ele busque as pedras
no bolso e as entregue
com o estilingue.
Sinto que é sincero
quando me promete que
não fará aquilo outra
vez.
A tarde começa a baixar
enquanto abrimos com as
mãos pequena cova para
enterrar a avezinha. (*)
*Texto de Um sorriso
como resposta, histórias
para embalar o coração,
Mythos Editora, 2011.
¹ Revista
Espírita, novembro de
1865, “Alocução”.
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