Alcoólatra
Alcoólatra! Que outra palavra existirá na Terra,
encerrando consigo tantas potencialidades para o crime?
O alcoólatra não é somente o destruidor de si mesmo. É o
perigoso instrumento das trevas, ponte viva para as
forças arrasadoras da lama abismal.
O incêndio que provoca desolação aparece numa chispa.
O alcoolismo que carreia a miséria nasce num copinho.
De chispa em chispa, transforma-se o incêndio em chamas
devoradoras.
De copinho a copinho, o vício alcança a delinquência.
Hoje, farrapo de alma que foi homem, reconheço que,
ontem, a minha tragédia começou assim…
Um aperitivo inocente…
Uma hora de recreio…
Uma noite festiva…
Era eu um homem feliz e trabalhador, vivendo em
companhia de meus pais, de minha esposa e um filhinho.
Uma ocasião, porém, surgiu em que tive a infelicidade de
sorver alguns goles do veneno terrível, disfarçado em
bebida elegante, tentando afugentar pequeninos problemas
da vida e, desde então, converti-me em zona pestilencial
para os abutres da crueldade.
Velhos inimigos desencarnados de nossa equipe familiar
fizeram de mim seu intérprete.
A breve tempo, abandonei o trabalho, fugi à higiene e
apodreci meu caráter, trocando o lar venturoso pela
taverna infeliz.
Bebendo por mim e por todas as entidades viciosas que
nos hostilizavam a casa, falsifiquei documentos, matando
meu pai com medicação indevida, depois de arrojá-lo à
extrema ruína.
Mais tarde, tornando-me bestial e inconsciente,
espanquei minha mãe, impondo-lhe a enfermidade que a
transportou para a sepultura.
Depois de algum tempo, constrangi minha esposa ao
meretrício, para extorquir-lhe dinheiro, assassinando-a
numa noite de horror e fazendo crer que a infeliz se
envenenara usando as próprias mãos e, de meu filho, fiz
um jovem salteador e beberrão, muito cedo eliminado pela
polícia.
Réprobo social, colhia tão somente as aversões que eu
plantava.
Muitas vezes, em relâmpagos de lucidez, admoestava-me a
consciência:
— Ainda é tempo! Recomeça! Recomeça!
Entretanto, fizera-me um homem vencido e cercado pelas
sombras daqueles que, quanto eu, se haviam consagrado no
corpo físico à criminalidade e à viciação, e essas
sombras rodeavam-me apressadas, gritando-me,
irresistíveis:
— Bebe e esquece! Bebe, Joaquim!…
E eu me embriagava, sequioso de olvidar a mim mesmo, até
que o delírio agudo me sitiou num catre de amargura e
indigência.
A febre, a enfermidade e a loucura consumiram-me a
carne, mas não percebi a visitação da morte, porque fui
atraído, de roldão, para a turba de delinquentes a que
antes me afeiçoara. Sofri-lhes a pressão, assimilei-lhes
os desvarios e, com eles, procurei novamente
embebedar-me.
A taverna era o meu mundo, com a demência irresponsável
por meu modo de ser… Ai de mim, contudo! Chegou o
instante em que não mais pude engodar minha sede!…
A insatisfação arrasava-me por dentro, sem que meus
lábios conseguissem tocar, de leve, numa gota do líquido
tentador.
Deplorando a inexplicável inibição que me agravava os
padecimentos, afastei-me dos companheiros para ocultar a
desdita de que me via objeto.
Caminhei sem destino, angustiado e semilouco, até que me
vi prostrado num leito espinhoso de terra seca…
Sede implacável dominava-me totalmente…
Clamei por socorro em vão, invejando os vermes do
subsolo.
Palavra alguma conseguiria relatar a aflição com que
implorei do Céu uma gota d’água que sustasse a
alucinação de minhas células gustativas…
Meu suplício ultrapassava toda humana expressão…
Não passava de uma fogueira circunscrita a mim mesmo.
Começaram, então, para mim, as miragens expiatórias.
Via-me em noite fresca e tranquila, procurando o orvalho
que caía do céu para dessedentar-me, enfim, mas,
buscando as bagas do celeste elixir, elas não eram, aos
meus olhos, senão lágrimas de minha mãe, cuja voz me
atingia, pranteando em desconsolo:
— Não me batas, meu filho! Não me batas, meu filho!…
Devolvido à flagelação, via-me sob a chuva renovadora,
mas, tentando sorver-lhe o jorro, nele reconhecia o
pranto de meu pai, cujas palavras derradeiras me
impunham desalento e vergonha:
— Filho meu, por que me arruinaste assim?
Arrojava-me ao chão, mergulhando meu ser na corrente
poluída que o temporal engrossava sempre, na esperança
de aliviar a sede terrível, mas, na própria lama do
enxurro, encontrava somente as lágrimas de minha esposa,
de mistura com recriminações dolorosas, fustigando-me a
consciência:
— Por que me atiraste ao lodo? E por que me mataste,
bandido?
De novo regressava ao deserto que me acolhia, para logo
após me entregar à visão de fontes cristalinas…
Enlouquecido de sede, colava a boca ao manancial, que se
convertia em taça de fel candente, da qual transbordavam
as lágrimas de meu filho, a bradar-me, em desespero:
— Meu pai, meu pai, que fizeste de mim?
Em toda parte, não surpreendia senão lágrimas…
Arrastei-me pelos medonhos caminhos de minha
peregrinação dolorosa, como um Espírito amaldiçoado que
o vício metamorfoseara em peçonhento réptil…
Suspirava por água que me aliviasse o tormento, mas só
encontrava pranto…
Pranto de meu pai, de minha mãe, de minha esposa e de
meu filho a perseguir-me, implacável…
Alma acicatada por remorsos intraduzíveis, amarguei
provações espantosas, até que mãos fraternas me
trouxeram à bênção da oração…
Piedosos enfermeiros da Vida Espiritual e mensageiros da
Bondade Divina, pelos talentos da prece, aplacaram-me a
sede, ofertando-me água pura…
Atenuou-se-me o estranho martírio, embora a consciência
me acuse…
Ainda assim, amparado por aqueles que vos inspiram,
ofereço-vos o triste exemplo de meu caso particular para
escarmento daqueles que começam de copinho a copinho, no
aperitivo inocente, na hora de recreio ou na noite
festiva, descendo desprevenidos para o desequilíbrio e
para a morte…
E, em vos falando, com o meu sofrimento transformado em
palavras, rogo-vos a esmola dos pensamentos amigos para
que eu regresse a mim mesmo, na escabrosa jornada da
própria restauração.
Do livro Vozes do Grande Além,
mensagem transmitida psicofonicamente pelo médium
Francisco Cândido Xavier.
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