Cruzes
“E o que não leva a sua cruz...” (Lucas, cap.
14:27)
Todos nós, invariavelmente, dentro do nosso processo
evolutivo, experimentamos dores e amarguras que nos
assolam de tempos em tempos. Na maioria das vezes e pela
grande maioria, aturdidos e perplexos, inconformados e
indignados.
Qual seria a razão principal de tanta incompreensão
diante do sofrimento? Por que a inaceitação da dor que
decorre sempre da nossa própria incúria? Onde a nossa fé
e confiança nos desígnios divinos tão decantados nos
momentos de calmaria?
A essas questões vamos buscar em Jesus, o grande médico
das almas, que as entendia profundamente, a terapia
recuperadora e ao mesmo tempo libertadora. Conhecendo a
causalidade que desencadearia as aflições, que são
consequências funestas das ações anteriores, propôs a
conquista da luz interior, dissipando as sombras
alojadas nas consciências. Às inquietações que nos
afetam resultantes do não autoenfrentamento, Jesus
convocou-nos à terapia da renovação espiritual,
afirmando que a nossa cruz poderia tornar-se leve.
Aliás, todo o discurso de Jesus-homem é um complexo
processo de introspecção que, se observado, absorveria
toda a sombra que dificulta a visão da plenitude
do nosso ser. Não mais os enganosos triunfos, as glórias
fantasiosas, as honrarias que se sepultam junto ao corpo
físico e junto retornam ao monturo, mas a imperecível
Luz a que o ser está predestinado.
Então, podemos elaborar mais uma questão: quantos de nós
compreendemos e aceitamos verdadeiramente que não temos
somente essa vida? Que estamos de passagem, em
aprendizado, viajores do tempo aprendendo com a dor a
dissipar as ilusões do mundo? O nosso reino não está
aqui na Terra, não nos iludamos. É preciso que nós nos
decidamos pela vida futura que começa quando o nosso ser
desperta para a sua realidade, ou seja, aquela que é
real e duradoura.
Quem assim age, não mais se aquieta para a conquista dos
tesouros imperecíveis que não são corroídos pelas traças
e ferrugens.
Carregar a cruz, compreendendo, é criar asas para a
ascensão. Escutar a dor, nossa grande mestra, é passo
seguro para o engrandecimento espiritual.
Infelizmente, a voz do Mestre, que propôs até o momento
final da sua crucificação que aspirássemos a uma visão
infinita de vida, rompendo as tradições que não trazem
felicidade, libertando-nos das heranças atávicas que
impedem o crescimento, ainda ecoa no recôndito de nossas
almas sem que tenhamos a coragem de dar o primeiro
passo, como se entorpecidos pelas satisfações
injustificáveis dos instintos, sem as claridades
superiores da emoção.
Porém, as conquistas modernas, especialmente na área das
ciências psíquicas, da astrofísica, da química
molecular, da física quântica, desmistificaram a
matéria, fazendo com que o Evangelho ressurgisse com
força e autenticidade confirmada pelos imortais que
retornam do túmulo para comprovar a indestrutibilidade
da vida e as consequências do comportamento humano,
sempre responsáveis pela felicidade ou desdita de cada
um.
Desse modo, procuremos entender mais o processo da dor.
Não existe um Deus vingativo e desmemoriado, quando
dizemos que fomos por Ele esquecido. Somos nós, sempre e
sempre, os autores do nosso próprio destino.
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