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por Cláudio Bueno da Silva

“Vá com Deus, irmão!”


Soube que um conhecido palestrante estava realizando sessões espíritas de materialização para pesquisa e estudo. O amigo que me contou era seu vizinho e tinha com ele relações de amizade. Sabendo da delicadeza e dos cuidados que cercam esse tipo de trabalho, e que nele só se é admitido a convite dos seus organizadores, pedi ao amigo que marcasse uma entrevista com o orador, na tentativa de ser admitido na reunião.

Hoje essas reuniões são raras (se é que existem), e por vários motivos, dentre eles a falta de médiuns específicos e por ter o movimento espírita priorizado os estudos filosóficos e morais. Mas em décadas passadas havia quem se dedicasse a elas.

No dia acertado fomos à sua casa. Assim que entrei, me causou curiosa impressão a simplicidade do ambiente. Ingenuamente, devo ter associado a importância do seu nome no movimento espírita a uma sofisticação qualquer que absolutamente não encontrei na sua casa. Poucos móveis – e muito simples – se destacavam na luz moderada da sala naquele fim de tarde. Uma pintura mediúnica (soube depois) pendurada numa das paredes nuas, e um silêncio profundo quebrado pela fala mansa e educada da esposa do orador. O aspecto do ambiente revelava moradores circunspectos e cristãos.

Ela nos disse que seu marido atendia a um compromisso, mas que estava para chegar. Conversamos fraternalmente enquanto o aguardávamos, até que após cerca de trinta minutos julguei por bem deixar o encontro para outra ocasião.

As atividades múltiplas me absorveram de tal forma naquele período que o desejo de assistir à reunião de materialização prescreveu e acabei não tendo outra oportunidade. Ainda bem. É quase certo que não estivesse preparado para colaborar satisfatoriamente em reunião tão delicada. Possivelmente minha curiosidade falasse mais forte que qualquer outro tipo de interesse.

Muito tempo depois esse mesmo palestrante visitou, a meu convite, a casa espírita em que eu colaborava. Na ocasião falou sobre a onisciência, a onipotência, a onipresença de Deus. Maravilhosa palestra. Lembro-me que emitiu, em passant, sua opinião sobre a desnecessidade de expressões como “Fique com Deus”, “Vá com Deus”, por serem redundantes, já que Deus é e está em tudo e em todos.

De minha parte, penso que essa redundância não atrapalha em nada os votos de boas vibrações que as pessoas desejam umas às outras. No entanto, a observação pareceu causar certa estranheza em alguns assistentes.

Terminado o evento, após as palavras de agradecimento e despedida, já do lado de fora da instituição, alguém do nosso grupo se despede do palestrante e diz, cheio de sinceridade: – Obrigado, irmão, vá com Deus!

O nosso orador, que já entrava no seu veículo, voltou-se para mim e riu gostosamente. Eu, por minha vez, não podia fazer diferente, e ri também.

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita