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por Marcus Vinicius de Azevedo Braga

 

A horizontalidade e a verticalidade da fé


No capítulo XIX de O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec trata da fé cega contraposta à ideia de fé raciocinada, trazendo esse conceito novo e basilar para a doutrina espírita, ainda que tão incompreendido. Apesar das dificuldades do trato dessa ideia, ela é essencial para se navegar na sociedade do conhecimento em que vivemos.

Comecemos pela fé cega. Segundo Kardec: “A fé cega, nada examinando, aceita sem controle o falso e o verdadeiro, e se choca a cada passo com a evidência da razão. Levada ao extremo, ela produz o fanatismo. Quando a fé se firma no erro, ela desmorona cedo ou tarde. A que tem por base a verdade é a única com futuro assegurado, porque nada deve temer do progresso do conhecimento, já que o que é verdadeiro na obscuridade também o é à plena luz”.

O codificador, na aurora de uma sociedade tecnológica que já despontava, traz a necessidade de uma fé que pudesse conviver com aquele mundo novo, sem perder os benefícios desta para a nossa vida, em especial em uma dimensão espiritual. Há uma percepção nítida nos escritos de Kardec, diante dos conhecimentos trazidos pelos Espíritos, de que ter fé é uma necessidade humana importantíssima.

Pode parecer uma contradição essa ideia de fé raciocinada trazida nesta obra, pois a fé é o absoluto, o transcendente, que existe exatamente para suprir o inexplicável. Mas, Kardec, de forma engenhosa, propõe que a razão tempere essa necessidade humana, para prevenir os prejuízos do seu excesso, quando então ela se faz cega.

A fé cega é vertical, de cima para baixo; se pauta em argumentos de autoridade. Não aceita críticas, dúvidas, questionamentos. Trata de livros sagrados, de palestras unidirecionais, focada no conteúdo e na hierarquia. Busca a letra que mata. Contempla gurus e detentores da interpretação oficial.

A fé raciocinada, a seu turno, tem um caráter horizontal. Convive com o debate; se pauta na construção do conhecimento e tem espaço para a pesquisa. Vive bem em grupos de estudos, buscando os conceitos e a sua aplicação às diversas situações da vida. Sabe se adaptar quando surge o novo, o que a torna forte ao longo do tempo. Faz sentido em uma rede de pessoas, de forma plural.

O conceito de fé raciocinada é moderno e libertador, resgatando uma espiritualidade que conviva com uma sociedade que preze o conhecimento e a pluralidade, mas que ao mesmo tempo exige dos fiéis uma maturidade de sair da verticalidade do poder concentrado para a horizontalidade da rede.

O Século XXI demanda uma fé raciocinada, mas a fé cega campeia, ocupando espaços nas práticas e discussões, inclusive no Espiritismo, com reflexos de fanatismo e fundamentalismo. Talvez a lição mais complexa do Espiritismo seja essa mediação do absoluto do crer, que trata do sentimento, com o racional dos fatos e evidências, em uma fusão que pode parecer de líquidos imiscíveis, mas que é possível se obter construções interessantes, como nos mostra a prática espírita.

Remetendo ainda a Kardec: “A fé raciocinada, que se apoia nos fatos e na lógica, não deixa nenhuma obscuridade: crê-se, porque se tem a certeza, e somente estamos certos se compreendemos. É por isso que ela não se dobra, pois a fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade. É a este resultado que o Espiritismo conduz, triunfando assim sobre a incredulidade, todas as vezes em que não encontra oposição sistemática e interessada”.

Como se vê, o adjetivo raciocinada é uma forma de mediação das mazelas da fé cega. Fica então a questão de que talvez a fé raciocinada seja algo impossível de se alcançar plenamente, mas é importante identificar e limitar a fé cega, faca amolada que corta o espírito de fraternidade e caridade com poder e opressão.

Passados mais de 150 anos, a discussão apresentada por Kardec de uma nova forma de lidar com o transcendente, que fosse ancorada em lógica e em evidências em alguma medida, mediando a verticalidade da autoridade com a horizontalidade da construção, se faz cada vez mais necessária, e nós, espíritas, ainda temos encontrado dificuldade de lidar com esse antigo e moderno conceito. Uma reflexão mais do que urgente.
 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita