Artigos

por Ricardo Baesso de Oliveira

 

Tragédias naturais e a ação humana


Allan Kardec, examinando as tragédias naturais, comenta que muitas pessoas veem uma causa sobrenatural, maravilhosa, miraculosa no que, em realidade, mais não é do que a execução das leis da natureza.[i]

Tal pensamento vem a calhar diante do hábito de atribuirmos uma causa humana a todas as calamidades públicas: a AIDS foi decorrente da sexualidade corrompida (sob este aspecto deveria ter aparecido na Roma antiga), o terremoto no Haiti ao desleixo dos haitianos (povos muito mais desleixados nunca sofreram um terremoto), o tsunami da Indonésia ao comércio do sexo (muito mais intenso em países que nunca viram um maremoto) e agora, a pandemia do coronavírus ao processo de expurgo dos Espíritos que não merecem o planeta regenerado (como se muitas pessoas boas não tivessem perecido).

Nesse particular vale a pena recordarmos uma entrevista dada por Chico Xavier a Fernando Worm, em 1976.

Fernando perguntou:

Se os Espíritos têm idades diferentes, chegado o Terceiro Milênio, os que não tiverem chances de evoluir e permanecerem atrasados serão arrastados com os maus para um planeta de vivência primitiva?

Vejam a resposta de Chico:

Muitas realizações para o Terceiro Milênio, segundo Emmanuel, poderão talvez ocorrer depois de 2990. Imaginemos, pois, certos fenômenos de triagem na coletividade para séculos não muito próximos. Os amigos desencarnados afirmam que na própria Galáxia, de cuja vida e grandeza partilhamos, existem numerosos mundos de feição primitiva aptos a nos receber para estágios mais simples de progresso espiritual, caso não queiramos seguir o surto de elevação em que a nossa Terra está penetrando. [ii] (Os grifos são meus.)

Vamos precisar de muita criatividade para imputar ao homem tudo o que de trágico se deu na história da humanidade. Considerando apenas os últimos 120 anos:


Gripe russa – 1889/1890 - 1,5 milhão de mortos

Varíola - século XX – 300 milhões de mortos

Gripe espanhola - 1918/20 – 50 milhões

Gripe asiática – 1957/1958 – 2 milhões

Gripe de Hong-Kong – 1968/1969 – 3 milhões

Poliomielite década de 50 – 250 mil crianças cadeirantes só EUA

AIDS – década de 80 – até hoje: 35 milhões mortos

Tsunami Indonésia – 2004 – 230 mil mortos

Terremoto Paquistão - 2005 – 35 mil mortos

Ciclone em Mianmar – 2008 – 80 mil mortos

Gripe suína – 2009/2010 - 17 mil mortos

Terremoto no Haiti em 2010 – 300 mil mortos

Covid 19- 2020/2021 – 2,4 milhões (até o momento)[iii]


Além de pobre, este tipo de pensamento é mágico, antropocêntrico e ingênuo, pois para justificar fenômenos que decorrem de processos físicos, químicos, biológicos e geológicos, buscamos explicações absurdas.

Chamado por Kardec a dar um parecer sobre o tema, o Espírito Arago explicou que, num mesmo sistema planetário, todos os corpos que o constituem reagem uns sobre os outros; todas as influências físicas são nele solidárias e nem um só há, dos efeitos que designais pelo nome de grandes perturbações, que não seja consequência da componente das influências de todo o sistema. A matéria orgânica não poderia escapar a essas influências; as perturbações que ela sofre podem, pois, alterar o estado físico dos seres vivos e determinar algumas dessas enfermidades que atacam de modo geral as plantas, os animais e os homens, enfermidades que, como todos os flagelos, são, para a inteligência humana, um estimulante que a impele, por força da necessidade, a procurar meios de os combater e a descobrir leis da natureza.[iv]

Bem explícito no pensamento exposto que as causas das tragédias naturais, incluindo as enfermidades epidêmicas, se encontram nas relações entre os diferentes elementos que constituem o planeta, nas perturbações que sofre a matéria orgânica em decorrência das reações recíprocas que os corpos planetários reagem uns sobre os outros.

Obviamente que a ação humana não pode ser excluída dos processos, afinal, o homem é também uma das forças da natureza, mas daí computar unicamente a ele a responsabilidade por tragédias naturais é negar que as coisas podem se dar pela própria força das coisas. Não existiam cataclismos, tsunamis, vulcões, epidemias acometendo plantas e animais antes do aparecimento do homem na Terra? Claro que sim! 

Concluindo, as tragédias naturais se dão pela conjunção de diferentes forças que existem e se interagem na natureza. Inserido nesse processo, cada um de nós será atingido ou não, em decorrência da lei de causa e efeito, que se cumpre sempre.


 


[i] A Gênese, cap. 18, item 10.

[ii] Folha espírita, em julho de 1976 e reproduzida no livro Lições de Sabedoria, item 134.

[iii] www.bol.uol.com.br, 21 de nov. de 2017.

[iv] A Gênese, cap. 18, item 8.




 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita