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por Cláudio Bueno da Silva

 

Você discute sobre política e religião?


As relações humanas estão em crise. Os disparates comportamentais e a dificuldade de entendimento são tão acentuados que o que se tem aconselhado, no momento, é que cada um se volte para si mesmo e aproveite o caos para refletir e amadurecer o espírito. Sem dúvida, é uma boa decisão. Mas será que só ela resolve os nossos problemas?

Diante de um quadro grave de inversão e subversão de valores éticos e morais na sociedade, o que responder à própria consciência que nos cobra atitudes assertivas, fraternas, junto aos irmãos em humanidade? Como calar a indignação diante do erro e das injustiças dolorosas que nascem da maldade, do cálculo abjeto e não somente da pura ignorância?

Por mais que se compreenda este momento diferente que atravessamos e o liguemos a situações de provas e expiações pertinentes a todos, é difícil manter-se totalmente neutro, sem nenhum questionamento.

Devemos permanecer calados, indiferentes, repetindo apenas que “tudo isso vai passar”, ou que são experiências necessárias para o aprendizado? Somos obrigados a ficar alheios, sem interferir de algum modo no meio micro ou macro a que fomos chamados a viver?

Muitos querem fazer crer que não devemos intervir em questões que tenham conotações políticas ou religiosas, por exemplo, porque isso não se discute, são assuntos de ordem pessoal e geralmente causam desavenças. Talvez seja essa uma das razões que, ao longo do tempo, nos tem colocado nessa situação triste de ignorância e alienação; agravada pela displicência dos que nunca souberam e continuam não querendo saber da importância que esses temas têm em nossas vidas.

Política. Todos fazem política o tempo todo e em todo lugar, e não somente quando votam. Há política em casa, na escola, no trabalho, nas compras do supermercado, nas relações com familiares, parentes e vizinhos, nos grupos de arte, nos torneios de futebol, na participação religiosa. Consciente ou inconscientemente fazemos política, com maior ou menor percepção.

Para entender melhor, basta saber que em todas as nossas atividades cotidianas será preciso escolher, aceitar, rejeitar, conversar, dialogar, calar, propor, discordar, compreender, projetar, avaliar, e mais um monte de verbos que permeiam nossas relações. Isto é política. Pública ou privada, coletiva ou individual. Estamos fazendo política doméstica, educacional, comercial, de saúde, de convivência, de boa vizinhança, enfim, política humana.

De outro modo, como é necessário administrar a sociedade em seus interesses gerais e heterogêneos, criam-se partidos políticos que representem o pensamento e os anseios dos vários segmentos sociais. Essa é a política partidária, que envolve regime, ideologia, e da qual se serve a maioria dos países, com adaptações próprias.

O cidadão escolhe, vota e na medida do possível acompanha o desempenho do seu candidato, e essa avaliação tem que abranger o interesse coletivo da sociedade e não o gosto particular. Aqui, em essência, essa participação nada tem a ver com a política partidária que conhecemos. É política cidadã. Um processo que deveria ser natural, uma forma de todos colaborarem para o progresso geral, exigindo que os políticos (funcionários do Estado) tenham espírito público e trabalhem em benefício do bem comum.

Religião. O educador Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, pergunta qual seria a melhor doutrina, dentre tantas que pretendem ter a verdade exclusiva (questão 842). Os Espíritos dizem: “Essa será a que produza mais homens de bem e menos hipócritas (...).

A categórica resposta é suficiente para refletirmos sobre os movimentos religiosos da atualidade e sobre o nosso comportamento. Essa reflexão vai muito além da pura fé.

Portanto, se não estamos satisfeitos com os políticos, basta que exerçamos, sem ódio, nossa cidadania, e procuremos melhorar esse meio com nossa participação consciente e refletida. Afinal, queiramos ou não, a política decide sobre nossas vidas. Há maus homens em todas as atividades humanas, mas há bons também. Precisamos aprender a distingui-los. Homens melhores farão a política melhor.

Assim também na prática religiosa. O interesse em conhecer o assunto, somado à cultura geral, formará pessoas mais esclarecidas, que tenderão a se afastar das doutrinas falsas, e com isso os aproveitadores da fé alheia não terão como impedi-las de seguir a própria consciência.

Quem diz: “Eu não discuto política nem religião” não compreende que essa discussão não precisa necessariamente envolver política partidária e políticos, e nem dar espaço a euforia e fanatismo religiosos.

Se aprendermos a conversar, respeitando o bom senso e as opiniões diferentes, poderemos falar de tudo em qualquer lugar.

No caso do centro espírita, uma pauta equilibrada e coordenada com inteligência, possibilitará discussões calmas e proveitosas. Mesmo porque a tolerância espírita nos fará saber falar e saber ouvir, sem pretensão de “ganhar debate”. E com o estudo continuado, na semana seguinte retomaremos a discussão, que se desdobrará e se aprofundará incessantemente. O Espiritismo tem muito a nos ensinar, e nós a aprender com ele.

O que não podemos é continuar desprezando o primoroso ensinamento: “Amai-vos e instruí-vos”.      

 
 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita