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por Temi Mary Faccio Simionato

 

Herdeiros de Milênios


Os episódios da tentação de Jesus respondem a nós, criaturas humanas em evolução, sobre as investidas morais a que permanecemos expostas por imposição de nosso aprendizado e aferição de valores. Obviamente Jesus, na condição de Espírito puro, não pode ser tentado por completa ausência de vínculos com a matéria terrena e seus sistemas ilusionistas. Sendo assim, o trabalho do Cristo em didática sublime, própria dos mestres que operam no Cosmos, tem endereço certo: nossas aflições e necessidade de fixação do que é divino. O que nos remete a Tiago, no capítulo 1, versículo 14: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado (iludido) pela sua própria concupiscência (cobiça, ganância)”.

Geralmente, ao surgirem grandes males, imputamos a Deus as causas que determinaram o desastre. Tardiamente lembramos de que o Pai é todo poderoso e alegamos que a tentação somente poderia ter vindo do Divino desígnio. No entanto, a observação de Tiago é roteiro certo para analisarmos a origem das tentações. Recordemos de que cada dia tem situações magnéticas específicas e por isso necessitamos considerar a essência de tudo o que nos atraiu no curso das horas, eliminando assim os próprios males e atendendo ao bem que Jesus nos deseja. Isso porque nossa vida mental é conduzida segundo os interesses que nos dominam, expondo-nos a desvios ou renovando-nos perspectivas.

Por essa razão Jesus veio ao Mundo, para atender a fome moral, a sede da alma, ofertando-nos as orientações supremas de Vida e Amor. Embora dotado de autoridade elevada perante a evolução terrestre, o Mestre não ministrou o ensino por si próprio, mas refletiu as soberanas Leis do Pai. No Evangelho de Lucas, capítulo 10, versículo 26, podemos observar Jesus analisando o entendimento dessas Leis na intimidade de um coração, quando ao ser tentado por um mestre da Lei Antiga, a Torah, Dele indaga: “Que está escrito na Lei? Como lês?

Sem nos referirmos ao vasto círculo de pessoas ainda indiferentes às lições do Evangelho, poderemos reconhecer, mesmo entre os aprendizes, as mais diversas tendências no que se refere ao problema do estudo e aprendizado, como, por exemplo, aqueles que buscam motivos tristes por cultivar a dor, tanto quanto os que se arvoram em caçadores de gargalhadas. No entanto, com a iluminação espiritual conquistada, cada coisa permanecerá em seu lugar, orientada no sentido próprio de utilidade justa. Podemos então perguntar o que verdadeiramente procuramos: emoções, consolo, entretenimento? Não olvidemos que o Mestre pode também nos interrogar: Como lês? O que lês?

Portanto, no estudo doutrinário do Espiritismo, deduzimos que as experiências somadas no tempo tornam-se segurança, alicerces de projeção para cada um de nós, em nossos movimentos de progresso e expansão. Assim, temos a expressão da pedra, por zona de domínio a nos assegurar estabilidade íntima, como esclarece Mateus, no capítulo 4, versículo 3: “Aproximando-se o tentador, lhe disse: Se és filho de Deus, diz para que estas pedras se tornem pães”. Transformar pedra em pão tem sido a grande luta da comunidade humana.

O poder do espírito consciente de seus deveres é capaz de transformar esse quadro pelos componentes da boa vontade. Todavia, o ensinamento de Jesus de que nem só de pão viverá o homem esclarece-nos que a luz da fé raciocinada, quanto às condições transitórias da existência, torna-se caminho de iluminação e bênçãos regeneradoras. Aplicar esse admirável conceito evangélico ao imenso campo do mundo é trabalho de cada um de nós, exigindo renúncias e sacrifícios. Não obstante os nossos desejos imediatistas, ou mesmo caprichos e paixões acerca de pessoas e condições existenciais, por indução dos hábitos adquiridos no passado, é de fundamental importância atender aos desígnios divinos, é a afirmação da legitimidade evolucional, quando a individualidade, mesmo em lutas de reafirmação moral, passa a experimentar alegrias íntimas, até então desconhecidas, como assevera João, no capítulo 6, versículo 63:“O Espírito é o que vivifica, a carne não auxilia em nada; as palavras que eu vos disse são espírito e vida”.

Herdeiros de milênios, gastos na recapitulação de muitas experiências, vivemos até agora, quase que à maneira de embarcação ao gosto da correnteza, no rio dos hábitos aos quais nos ajustamos sem resistência. Neste círculo vicioso, permanecemos sob o domínio da ignorância aquietada, procurando enganar-nos depois do berço, para desenganar-nos depois do túmulo. A evolução, contudo, impõe a instituição de novos costumes, a fim de que nos desvencilhemos das fórmulas inferiores, em marcha para ciclos mais altos da existência. Por essa razão, vemos no Cristo o marco da renovação humana; um programa de transformações viscerais do Espírito, que altera os padrões da moda moral em que a Terra vive há numerosos milênios.

Toda passagem do mestre entre nós, desde a manjedoura que estabelece a norma da simplicidade até a cruz afrontosa, cria a prática da serenidade e da paciência com a certeza da renovação para a vida eterna. O messianato de Jesus é um resplendente conjunto de reflexões do caminho celestial para a redenção do caminho da humanidade.

Até o momento, no mundo, a nossa justiça cheira a vingança e o nosso amor expande ao egoísmo, pelo reflexo condicionado de nossas atitudes irrefletidas nos milênios que nos precedem o hoje. Somente aderindo à bondade e ao entendimento, com a obrigação de educar-nos e com o dever de servir, colaborando com a segurança e a felicidade de todos, mesmo à custa de nosso sacrifício, poderemos refletir em nós a verdadeira felicidade, por nutrirmos o verdadeiro bem.

Os ensinamentos de Jesus, nos princípios espíritas cristãos, constituem sistema renovador, indicação do caminho, roteiro de ação, diretriz no aperfeiçoamento de cada ser. A lição do Cristo também é comparável à fonte e ao pão, ao fator equilibrante e ao medicamento, que são fundamentalmente os mesmos em toda parte. Além das lágrimas, aprendamos igualmente a pensar, a purificar-nos, a reerguer-nos e a servir. A necessidade da alma é semelhante à sede ou à fome, ao desajuste moral ou à moléstia, que são iguais em qualquer clima. Portanto, bom gosto, harmonia e dignidade na vida exterior constituem dever; porém, não nos esqueçamos da pureza, da elevação e dos recursos sublimes da vida interior com que nos dirigimos para a eternidade.

Quem avança para os cimos guarda a certeza da felicidade e não conta arranhões, como aclara Mateus, no capítulo 5, versículo 12: “Alegrai-vos e regozijai-vos, porque é grande a vossa recompensa nos céus...”.

 

Bibliografia:

XAVIER, Francisco Cândido – Caminho, Verdade e Vida – ditado pelo Espírito Emmanuel – 28ª edição – Editora FEB – Rio de Janeiro/RJ – lição 129 – 2011.

SILVA, Saulo César – coordenação - O Evangelho por Emmanuel segundo João – 1ª edição – Editora FEB – Brasília/DF – página 89 – 2015.

Idem – coordenação – O Evangelho por Emmanuel segundo Lucas – 1ª edição – Editora FEB – Brasília/DF – página 127 – 2015.

PAIXÃO, Wagner Gomes – O Evangelho por Dentro – ditado pelo Espírito Honório Abreu – 1ª edição – Editora Grupo Espírita da Bênção – Mario Campos/MG – lição 5 – 2016.


 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita