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por Rogério Coelho

 

Feira dos milagres


A mediunidade é coisa santa e deve ser praticada santamente, religiosamente...


“Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido.” 
-     Jesus. (Mt., 10:8.)


Compete-nos, sem dúvida alguma, procurar atenuar, minimizar e mesmo eliminar toda causa de dor e aflição, seja de que natureza for.  Para isso Deus nos ofertou a inteligência e os recursos da medicina e das ciências em geral.

Ora, se temos um espinho nos incomodando, o lógico é procurar eliminá-lo e não aprofundá-lo ainda mais à guisa de cilícios desnecessários...

Por outro lado, existe uma natural disposição nas criaturas, de procurar facilidades de superfície e “milagres” imediatos para resolver problemas sem maiores e mais profundos compromissos com a mudança dos maus hábitos. As pessoas colocadas nessa posição, imediatistas por excelência, sem maiores descortinos espirituais, são presas fáceis dos atravessadores da fé.

Ensina Allan Kardec[1]“Jesus expulsou do templo os mercadores. Condenou assim o tráfico das coisas santas sob qualquer forma. Deus não vende a Sua bênção, nem o Seu perdão, nem a entrada no reino dos Céus. Não tem, pois, o homem, o direito de lhes estipular preço”.

E continua o Mestre Lionês o seu esclarecimento: “a mediunidade é coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente. Se há um gênero de mediunidade que requeira essa condição de modo ainda mais absoluto é a mediunidade curadora. O médico dá o fruto de seus estudos, feitos, muita vez, à custa de sacrifícios penosos. Pode pôr-lhes preço. O médium curador transmite o fluido salutar dos bons Espíritos; não tem o direito de vendê-lo. Jesus e os apóstolos, ainda que pobres, nada cobravam pelas curas que operavam.

Procure, pois, aquele que carece do que viver, recursos em qualquer parte, menos na mediunidade; não lhe consagre, se assim for preciso, senão o tempo de que materialmente possa dispor. Os Espíritos lhe levarão em conta o devotamento e os sacrifícios, ao passo que se afastam dos que esperam fazer deles uma escada por onde subam”.

Hermínio C. Miranda[2] alinha seis condições que o médium e os trabalhadores das Casas Espíritas devem ter sempre em conta em seus trabalhos:

1 – Paciência para esperar o momento certo da ação.

2 – Serenidade para aceitar críticas e correções.

3 – Bom senso para rejeitar sugestões e “palpites” de “entendidos” que nada entendem.

4 – Cuidado com os que se deixam fascinar pelos fenômenos e acabam suscitando no médium uma falsa euforia que acaba por gerar nele uma autêntica vaidade.

5 – Humildade para aprender o que não sabe e corrigir desvios e equívocos.

6 – Vigilância para identificar possíveis envolvimentos, tanto da parte dos encarnados como dos desencarnados.

Esclarece ainda Miranda, o nobre e saudoso escritor espírita: “equívocos lamentáveis resultam, com frequência, de permitir a médiuns ainda não suficientemente preparados e seguros, exercer suas faculdades somente porque produzem fenômenos insólitos e até espetaculares ou dizem coisas que impressionam os assistentes. Isto é particularmente sério e prejudicial quando os grupos se entregam à perniciosa prática das sessões mediúnicas públicas. Nesses casos, uma forma de mediunidade mais dramática ou teatral pode conduzir a desenganos imprevisíveis a partir do fascínio que começa a exercer não apenas sobre os assistentes maravilhados, mas sobre o próprio médium envaidecido e convicto de que é um excepcional sensitivo, dotado de poderosas mediunidades, praticamente infalível.

Vários atalhos, todos indesejáveis e funestos, partem desse núcleo de vaidades em jogo. Pode surgir dali um sistema de exploração comercial da mediunidade, por mais legítima e autêntica que seja, de início. Isso é de se esperar especialmente quando a mediunidade é posta a serviço de interesses pessoais dos médiuns, dos dirigentes e do próprio público, na distribuição de ‘consultas’ sobre a saúde, negócios, problemas de família, rivalidades e até sorte em jogos de azar.

Mil e um artifícios são inventados para justificar a cobrança de “serviços” sem que pareça ostensivamente estarem pondo em prática uma ‘feira de milagres’. Pode ser sob forma de donativos “espontâneos” ao grupo, ao médium ou aos dirigentes, ou presentes materiais, testemunhos e reconhecimento, traduzidos em alguma forma concreta, material, e outros artifícios sutis ou mesmo não tão sutis.

Mesmo que o grupo não enverede, porém, pela mercantilização aberta ou camuflada, muitas vezes permite, e até estimula, o endeusamento do médium, que assume a condição de verdadeiro e infalível guru; adota posturas teatrais e começa a vestir-se de maneira diferente, estapafúrdia, ornado de adereços, símbolos secretos e talismãs misteriosos.... Isso nada tem a ver com as práticas recomendadas pela Doutrina Espírita. Trata-se de exercício inadequado da mediunidade.  O Espiritismo não se coloca como dono dos médiuns, nem das faculdades que lhes tocam. No contexto do movimento espírita, contudo, não se pode admitir que a mediunidade seja aviltada ou canalizada para promoção pessoal deste ou daquele médium, desta ou daquela instituição.   

Para que os resultados esperados da mediunidade sejam confiáveis, a Doutrina Espírita faz questão de manter elevado o padrão de qualidade nas práticas mediúnicas.

É, portanto, fácil ao médium iniciante testar e conferir as condições de trabalho que lhe são oferecidas em qualquer grupamento que se diga espírita. Basta confrontar os procedimentos ali adotados com os que recomendam os livros básicos do Espiritismo. Daí a incansável insistência de todos os autores responsáveis no sentido de que, antes de entregar-se à prática mediúnica regular, deva o médium em treinamento dedicar-se a um criterioso e metódico estudo dos aspectos teóricos da mediunidade, expostos principalmente em ‘O Livro dos Médiuns’, que é o manual indispensável na preparação de todo aquele que pretenda devotar-se com seriedade ao correto desenvolvimento e utilização de suas faculdades. Nada de açodamento ou afoiteza nessa hora em que são lançadas as bases sobre as quais deverá apoiar-se toda uma estrutura de conhecimento e de experiência sobre a qual as faculdades serão postas a trabalhar”.                                           


 

[1] - KARDEC, Allan. O Evangelho seg. o Espiritismo. 129. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. XXVI, itens 6 e 10.

[2] - MIRANDA, Hermínio C. Diversidade dos Carismas. Niterói: Arte e Cultura, vol. I, cap. II, item 15.



 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita