Internacional
por Marcel Bataglia Gonçalves

Ano 12 - N° 577 - 22 de Julho de 2018

Centro Espírita Amalia Domingo Soler: destino selado há décadas


Uma breve história de uma instituição espírita dinâmica e atuante


Barcelona é a capital da região da   Catalunha, situada no Reino de Espanha, bem como o segundo município mais populoso do país, com uma população de 1,6 milhão dentro dos limites da cidade.

Foi fundada como uma cidade da Roma Antiga e que durante a Idade Média tornou-se a capital do Condado de Barcelona. A cidade possui uma rica herança cultural e é hoje um importante polo cultural e um destino turístico popular. Particularmente conhecidas são as obras arquitetônicas de Antoni Gaudí e Lluís Domènech i Montaner, que foram designadas Patrimônio Mundial da UNESCO.

Retrocedendo um pouco nos acontecimentos que marcaram a história do Espiritismo, Barcelona foi o palco do “Auto de fé de Barcelona”, expressão usada por Allan Kardec para se referir à queima de trezentos livros espíritas no dia 9 de outubro de 1861, em praça pública.

Livros como Revue Spirite, A Revista Espiritualista, O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O que é o Espiritismo e tantos outros que, ao chegaram ao país, foram apreendidos na alfândega por ordem do Bispo de Barcelona, Antônio Palau Termes, sob a alegação de que “a Igreja católica é universal e os livros, sendo contrários à fé católica, o Governo não poderia consentir esta perversão à moral e à religião de outros países”.

Quando do fato ocorrido, Amalia Domingo Soler, com 26 anos de idade, já era conhecida como uma mulher dotada de inteligência clara e sutil. Grande dama e paladina do movimento espírita ibero-americano, Amalia se fez muito admirada no Brasil, através da obra “Fragmentos das Memórias do Padre Germano”.

As agruras enfrentadas por Amalia Soler
 

Quase cega desde o berço, conseguiu, não obstante, com o seu denodo e a sua pena, elevar o nome do Espiritismo e da mulher espírita na Espanha.

Também se caracterizou por sua força em suportar numerosas dificuldades pelos preconceitos do tempo sobre as mulheres. Inteligência essa que foi acompanhada por uma personalidade extraordinária, grandeza espiritual incomparável, dando-lhe no campo da literatura espírita um lugar insubstituível, a exemplo de Anália Franco no Brasil e de Emma Hardinge Britte na Inglaterra.

Amalia nasceu em 10 de novembro de 1835. Aos 10 anos já escrevia poesia e, embora muito jovem, perdera o único membro da família que lhe restava: sua própria mãe. Entre “idas e vindas” na luta contra as normas que regiam as vidas femininas e a não aceitação do Espiritismo pelo governo espanhol e pela Igreja Católica, seu primeiro artigo espírita foi publicado na primeira página do "El Critério" em 1872, intitulado "Fé Espírita", mas foi em 4 abril de 1874 que passou a fazer parte dos grandes propagandistas espíritas, publicando um famoso poema: "In Memory of Allan Kardec".

O surgimento de La Luz del Porvenir

Amalia não tinha recursos para comprar livros e foi Fernandez Colavida quem lhe enviou a coleção completa do trabalho de Kardec. A partir de então, completamente indiferente ao preço a pagar para a defesa de uma nova ideia, lançou-se ao trabalho e manteve vivo o interesse de uma ampla gama de leitores com seus artigos cheios de beleza e humildade. Ela mesma fundou um jornal, "La Luz del Porvenir" em 1879, e seu artigo de fundo, intitulado "A ideia de Deus", causou tal agitação que a revista foi condenada, por manobra de interesses religiosos dominantes, a 42 semanas de suspensão. Em 4 de julho do mesmo ano, ele deu origem, no entanto, com a ajuda de seu amigo J. Torrents ao periódico "O Eco da Verdade", dos quais 26 edições foram publicadas. Enquanto isso, "La Luz del Porvenir" voltaria a recircular em 11 de dezembro do mesmo ano.

Amalia teve a audácia de lutar e discutir com os representantes da Igreja organizada. Em março de 1884 o padre Sallars fez uma série de sermões na Catedral de Barcelona, ​​tratando do "falso sobrenaturalismo da seita espírita". Amalia refutou seu argumento em 10 artigos magistrais. Em fevereiro de 1885, Padre Fita retornou à acusação e Amalia respondeu-lhe magistralmente nas páginas de "El Diluvio", em nove artigos lúcidos e nobres. A causa defendida por Amalia foi tão importante para o movimento espírita espanhol, que ao longo dos anos de sua estada na Terra diversos outros grupos de mulheres e homens buscaram nela inspirações e força de vontade para lutar pelos mesmos ideais. Exemplo disso foi a criação do Centro Espírita Amalia Domingo Soler (CEADS), surgido com o objetivo de compartilhar ensinamentos à luz da Doutrina Espirita, tema tão desconhecido e temido na época. Mas sua história se iniciou de fato nos tempos em que o Espiritismo ainda era considerado um pesadelo para a sociedade, que não compartilhava os mesmos ideais da família Tendero.

Como Matías e Catalina conheceram o Espiritismo

Foi em 1921 que Catalina Mira Garcia e Matías Tendero comprometeram suas vidas num laço de amor e respeito. Naquela época, a cultura e as dificuldades dificultavam a união entre diferentes classes sociais.

 

Catalina deixou uma família da burguesia catalã e Matias era filho de operários da classe trabalhadora. Com isso, foram para Sevilha, ele trabalhando com pinturas de carro e Catalina produzindo alpargatas, e foi com essa vida e essa postura humildes que recebiam amigos e vizinhos em sua casa, todos compartilhando os mesmos ideais. Foi quando nasceram seus dois filhos, Marcia e Anna Maria. A situação política ainda era, por essa ocasião, muito difícil no país, dificuldade que os fez mudar-se para Barcelona. Alguns anos depois, após a guerra civil espanhola, Marcia faleceu devido a complicações de saúde. Dois anos depois, Anna Maria, a segunda filha, também faleceu em virtude de uma enfermidade. O desespero de Catalina em face da morte de suas filhas levou alguns amigos a lhe falarem sobre uma sensitiva de nome María Mellado, que tinha a mediunidade de psicofonia e talvez pudesse trazer-lhe algum conforto para sua perda.

Foi devido a esse contato que Matías e Catalina conheceram os princípios do Espiritismo, inicialmente ensinados por María Mellado, o que lhe ofereceu uma explicação racional para o fenômeno da desencarnação das duas crianças. O casal firmou-se então em definitivo em Barcelona, onde nasceu, algum tempo depois, sua terceira filha, Isabel Tendero. Quando a jovem tinha 16 anos, seu pai abriu em sua garagem uma oficina de pintura automotiva, sendo nesse local realizadas as primeiras reuniões espíritas, ainda de forma clandestina, nas quais Isabel educou sua mediunidade, sob o conselho de María Mellado, baseando-se sempre nas obras de Allan Kardec.

Como Paco entrou na vida de Isabel Tendero

O tempo passou e seus familiares e amigos foram aumentando o interesse pelo estudo da Doutrina, passando a realizar reuniões mediúnicas em que eram recebidos espíritos em busca de consolo e também benfeitores, que os animavam para perseverar no trabalho. Isabel estudou contabilidade e comércio e trabalhou como costureira. Entre os estudos, o trabalho e os encontros espíritas, Isabel teve sonhos premonitórios. Um deles mostrou-lhe um homem bonito. Alguns dias depois, em um baile de bairro onde as meninas e os meninos se encontravam com seus namorados, Isabel conheceu o rapaz dos seus sonhos. Seu nome era Francisco Vázquez, Paco para amigos. Eles se casaram em 7 de maio de 1960 e tiveram duas filhas, Ana e Teresa.

Paco era um homem educado, um carpinteiro de profissão, embora trabalhasse na oficina de ferro e pintura de seu sogro. Ele era apaixonado pela leitura e tinha uma extensa biblioteca onde se encontrava de tudo, exceto temas espirituais, que nunca lhe interessavam. Mas, apesar disso, Paco direcionou suas filhas para a Doutrina dos Espíritos, porque era a melhor educação que podia oferecer, a exemplo de sua esposa Isabel, que teve o cuidado de instruir e educar Ana e Teresa nos mistérios da vida e da morte sob a sabedoria da filosofia espírita.

Quando Paco desencarnou, aos quarenta e oito anos, Isabel decidiu falar abertamente sobre a Doutrina Espírita. Junto com alguns parentes, começaram a realizar periodicamente sessões, de que Ana e Teresa participaram ainda adolescentes, com 13 e 12 anos, respectivamente. Poucos anos depois, Isabel e suas filhas sentiram a necessidade de procurar outros grupos espiritualistas na cidade, onde pudessem compartilhar experiências e estudos. Naquela época (início dos anos 1990), tiveram a oportunidade de conhecer Santiago Gené, de Reus, que participou esporadicamente do grupo de Sanchís. Oriundo de uma família espírita, a de Pruvi e Manel, que estavam entre os primeiros espíritas que permaneceram ativos durante a ditadura de Franco, lhes oferecera a oportunidade de participar do II Minicongresso Espírita Nacional, que se realizou em Málaga em 1994. “Foi a primeira vez que vimos tantos espiritualistas juntos”, disseram elas, quando cerca de 120 pessoas de toda a Espanha, unidas pelo mesmo ideal de amor e fraternidade, ali se fizeram presentes. Também foi quando se surpreenderam com as belas palavras de Divaldo Franco, apoiando o movimento espírita.

Sementes do CEADS

A partir dessa injeção de coragem e fraternidade, criaram-se laços que pertenciam à alma e que seriam para sempre parte da história do CEADS – Centro Espírita Amalia Domingo Soler.

Por conhecerem inúmeros grupos, foram impulsionadas pelos conselhos de Fernando Lora, além de seguir as sugestões do mestre Allan Kardec em relação à divulgação da doutrina, criando-se então um novo grupo espírita, o Grupo Espírita da Sagrada Família, em homenagem ao bairro onde Isabel e suas filhas moravam, que foi a verdadeira origem do atual CEADS. “Éramos um grupo popular de poucas pessoas, cheias de esperança e alegria, animadas por uma experiência espiritualista que nos dera um verdadeiro sentido à vida e à morte, uma visão ampliada do significado do ser.”

As primeiras aulas de estudo doutrinário e as primeiras ações espirituais sociais em colaboração com a Fraternidade Espírita Cristiana foram organizadas. Foram anos de intenso aprendizado e dedicação. Os trabalhos foram crescendo e diferentes tarefas foram surgindo, dependendo das necessidades do dia, como na cozinha para lavar pratos e ajudar a preparar a comida, outros para acompanhar homens, mulheres e crianças de diferentes.

Como é e como atua o CEADS

O Centro Espírita Amalia Domingo Soler é uma organização sem fins lucrativos que tem por finalidade levar ao conhecimento do povo catalão um ensinamento mais profundo acerca do ser humano como ser individual e espiritual. Membro da Federação Espírita Espanhola (FEE) desde dezembro de 1999, seu principal objetivo é promover o estudo e divulgação da Doutrina Espírita, incentivando a reforma íntima para a evolução do ser, oferecendo esperança e conforto, em fim, a convivência fraterna. O CEADS desenvolve todo o trabalho alicerçado sobre os valores do amor, respeito, disciplina, serviço, fé fundamental, humildade, integridade, alegria e transparência. Sua missão é “ser um espaço para aprender sobre o amor e os ensinamentos do Espiritismo a fim de alcançar harmonia e equilíbrio” e sua visão, “crescer como centro espírita para colaborar no progresso integral do ser humano”.

Na área social, o CEADS possui algumas ações como: 1º - Fornecer ajuda mensal na forma de alimentos não perecíveis para famílias que se encontram em uma situação financeira difícil. A comida é coletada através de doações dos participantes da Instituição. Os beneficiários do projeto recebem apoio material (alimentação) e espiritual através do estudo do Evangelho segundo o Espiritismo no centro ou outras atividades desenvolvidas pela casa.  2º - A prevenção do suicídio com uma campanha de prevenção, bem como de solidariedade com os sobreviventes, além de promover palestras, manifestações expressadas através da arte.

3º - Amigo CEADS é um programa onde um voluntário em nome do CEADS oferece apoio emocional àqueles que solicitam colaboração, oriundos de diversos locais como hospitais, presídios, residências, seja por e-mails, cartas ou um simples telefonema. 4º - Os grupos de estudos sistematizados e palestras públicas são sempre pautados nas orientações contidas nas obras básicas de Allan Kardec.

No website do CEADS -https://www.ceads.es/  - os interessados poderão obter mais informações relativas ao funcionamento da instituição.
 


 


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita