Clássicos 
do Espiritismo

por Angélica Reis

 
Deus na Natureza

Camille Flammarion

(Parte 48)

 

Continuamos o estudo metódico e sequencial do livro Deus na Natureza, de autoria de Camille Flammarion, escrito na segunda metade do século 19, no ano de1867.


Questões preliminares


A. Que pensar da ideia de que os seres e coisas que a Natureza nos oferece foram feitos especialmente para atender o homem?

Flammarion critica tal ideia. Tudo que existe na Natureza e é utilizado pelo homem não foi criado nem posto no mundo com fins particularistas. Se o homem tem-se progressivamente apropriado dos elementos, é claro que o deve às suas faculdades eletivas, à sua inteligência e não a um plano primordial necessário, que se houvera de executar fatalmente e, por assim dizer, à revelia da escolha da indústria humana. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

B. Com esse pensamento, Flammarion nega um plano à Criação?

Não. Ele entende que o homem cai em erro grosseiro quando imagina que as coisas existem especialmente para atendê-lo. Contudo, negar um plano à Criação só pelo fato de esse plano não se reportar exclusivamente ao homem é cair noutro erro. É evidente, diz Flammarion, que tudo na Criação obedece a um plano, do qual geralmente não temos a mínima ideia. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

C. Um dos argumentos usados pelos materialistas contrários à ideia de uma inteligência organizada é a existência no mundo dos animais inúteis ou nocivos ao homem. Que diz Flammarion a respeito desse argumento?

Esse argumento, diz ele, nada prova contra a inteligência organizada e cai perante esta verdade: – a de não ser a Terra um mundo perfeito, mas sim um laboratório em que os atores da vida têm a oportunidade de percorrer um largo caminho em busca da perfeição. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)


Texto para leitura


863. Mesmo considerando o homem como o último ser nascido entre os seres terrícolas, cujo surgimento sucessivo obedeceu à lei geral de progresso e considerando-o como o mais perfeito da escala da evolução terrestre, negamos-lhe, contudo, o direito de atribuir a Deus as suas mesquinhas concepções e supor que as suas mínimas combinações domésticas participaram do plano divino e eterno. Nem é fora de si que ele deverá procurar a razão de sua grandeza: é naquilo mesmo que o distingue, isto é, no seu valor intelectual. Se, por sua inteligência, se apropriou de uns tantos serviços que lhe pode prestar a Natureza, não há confundir essa apropriação com o plano geral. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

864. A estrela polar não foi criada para nortear navios, mas o navegador soube utilizar-se da sua posição peculiar. O carvalho não foi feito para aproveitar aos curtumes, mas o fabricante descobriu, com a sua inteligência, as propriedades do tanino no tratamento das peles. A púrpura, molusco gastrópode do Mediterrâneo, não nasceu para tingir o manto real dos potentados, mas a indústria houve como extrair um colorido brilhante das suas conchas. O carneiro, o bicho da seda, as aves de pluma, as plantas têxteis, o algodoeiro, o linho, o cânhamo, as minas de ouro, prata, chumbo e níquel, as safiras, rubis, esmeraldas etc.; tudo enfim – seres e coisas – que a Natureza oferece ao homem, não foi criado nem posto no mundo com fins particularistas, e se o homem tem progressivamente se apropriado dos elementos, é claro que o deve às suas faculdades eletivas, à sua inteligência e não a um plano primordial necessário, que se houvera de executar fatalmente e, por assim dizer, à revelia da escolha da indústria humana. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

865. Expõe-se o homem a cair em erro grosseiro, quando tudo refere a si, mediante um processo incompleto. Mas, negar um plano à Criação só pelo fato de esse plano não se reportar exclusivamente ao homem, é cair noutro erro. Voltaire deplora em belos versos o terremoto de Lisboa e pergunta, com acrimônia, onde está essa Potência amiga do homem e de que tanto se fala. Rousseau responde-lhe, então, que a culpa é só dos homens, pois ninguém lhes mandou edificar num solo assim. Nem um nem outro tem razão. O homem enganou-se no seu egoísmo, nisso estamos de acordo, e até nos propomos evidenciar a fantasia desse método. Mas a falsidade de método não é razão bastante para concluir que o objeto desse método não exista e que o fundo da doutrina seja um erro.(Deus na Natureza – Quarta Parte.Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

866. É justamente o que fazem os materialistas, sem perceberem que se deixam seduzir por uma estranha confusão. Certo, a causalidade final, o conhecimento do plano da Criação, não é tão simples como imaginam espíritos superficiais. É, de fato, de extrema complexidade e apresenta dificuldades quase insuperáveis, mesmo para espíritos mais clarividentes. Nós não assistimos aos desígnios de Deus e não passamos de pobres ignorantes em face de tanta grandeza. Mas, com franqueza, em que pode a nossa incapacidade afetar o princípio das causas? Em que os nossos erros diminuem a ideia da onipotência criadora? (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

867. Considerais o homem um ser bem importante para armar este dilema: – ou a Natureza gravita para o homem, ou conserva-se em repouso. Esqueceis, assim, os vossos próprios princípios e habitual desdém pelas aspirações humanas, para nos colocar na alternativa de crer que a destinação de tudo converge seus raios para nós, ou que não haja nenhum desígnio na unidade universal! Mas, não... A verdade é que deixais o ser humano assaz envolto nas gangas da matéria, para o evidenciardes de um jato no seu aspecto superior. Tende-o assaz eclipsado na sua intelectualidade para poderdes, de improviso, formular essa alternativa. Mas, como explicar a vossa absoluta negação de qualquer plano da Natureza? (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

868. Ei-la aí, esta grande, pretensa explicação, mediante a qual imaginam suprimir toda a ideia de finalidade geral e particular! Vamos ver que essa explicação é tão frágil quanto as alegações opostas às eternas verdades, e que esses mesmos homens que nos increpam de forjadores de hipóteses, mais não fazem, na verdade, que substituir hipóteses por hipóteses mais complicadas. A diferença principal, entre nós, está em que eles se atolam no seu labirinto escuro, enquanto marchamos em reta para o nosso alvo luminoso. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

869. Emmanuel Kant, cuja mão esquerda continha tantos erros quantas verdades continha a direita (balança invejável, mesmo em se tratando de homens privilegiados), não escapou de afirmar, certa feita, que “a conformidade com o desígnio só podia ser criada por um espírito refletido, que, consequentemente, admira um milagre por ele mesmo criado”. Percebeis, por aí, a fecundidade de uma semelhante proposição para os senhores de além-Reno. Eles vão extrair-lhe um suco abundante, leitoso, que oferecerão como remédio às imaginações doentias; assim um como elixir para velhos e crianças, igualmente aperitivo e nutriente dos que madrugam com fome. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

870. Essa declaração genial vai arrasar o secular juízo humano. Abstrai-se de Deus o pensamento de ordem e harmonia, para dá-lo em homenagem à inteligência humana. Cirurgiões de nova espécie abrem a veia ao bom Deus, para inocular no cérebro do feliz habitante da Terra o seu princípio vital. É claro, pois não?, que, se existe ordem na disposição do mundo, e se há inteligência na organização dos seres, ao homem é que o devemos atribuir, visto como, evidentemente, no Universo nada pode haver inteligente além do homem, e presumir um Deus a ele superior fora insultar a dignidade do bípede humano. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

871. Ouçamo-los ainda um instante. Um dos principais argumentos dos que admitem que devemos atribuir a origem e conservação do mundo a uma potência criadora, tudo governando e regulando Universo – diz Büchner – sempre foi e continua a ser a pretensa doutrina da destinação dos seres, na Natureza. Toda flor espanejando as pétalas brilhantes, todo sopro de vento agitando o ar, toda estrela luzindo na amplidão da noite, toda ferida cicatrizando-se, todo som, tudo enfim, na Natureza, excita a admiração dos partidários da predestinação, pela profunda sabedoria dessa potência superior. A ciência natural dos nossos dias emancipou-se dessas balofas concepções teológicas, que apenas se detêm à superfície das coisas, e relega estes inocentes estudos aos que preferem considerar a Natureza com os olhos do sentimento e não com os do entendimento. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

872. Como poderíamos falar de conformidade aos fins, objetam-nos, se não conhecemos os seres senão sob esta exclusiva e única forma e nenhum pressentimento temos do que seriam eles se de outra forma nos surgissem? Nosso espírito nem mesmo é constrangido a contentar-se com a realidade. Qual seria o arranjo natural que não pode ainda realizar-se, de qualquer maneira, mais conforme com o fim? Hoje admiramos os seres, sem nos advertirmos da infidelidade de outras formas, organizações, processos que a Natureza empregou, emprega e empregará na conformidade dos seus fins. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

873. Do acaso depende que eles vinguem, ou não. Então, não há formas grandiosas de vegetais e animais mais desaparecidas a muito tempo e que só conhecemos por destroços fossilizados? Toda essa formosa Natureza, conformemente ajustada a um fim, acrescentam, não será possivelmente destruída por um cataclismo planetário e não se fará preciso ainda uma eternidade para que essas e outras formas desabrochem do limo? Ainda mesmo que ela fosse destruída, isso nada provaria contra a nossa tese. Não interrompamos, porém, os locutores e continuemos a ouvir-lhes as objeções. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

874. A seguir, vem o velho argumento dos animais inúteis ou nocivos ao homem, que nada prova, igualmente, contra a inteligência organizada e cai perante esta verdade: – a de não ser a Terra um mundo perfeito. Animais muito nocivos, escreve o autor de Força e Matéria, como por exemplo o rato dos campos, são de uma fecundidade tal, que não podemos prever seu desaparecimento; os gafanhotos, os pombos errantes, formam bandos compactos de obscurecer o Sol e levam a devastação, a fome e a morte por onde passam... (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

875. Os que só enxergam sabedoria, desígnio, causas finalistas na Natureza – diz Giebel – poderiam empregar sua perspicácia no estudo dos vermes solitários. Toda a atividade vital desses animais consiste em produzir ovos próprios para desenvolver-se, e uma tal atividade só pode ser exercida mediante sofrimento de outros animais. Milhões de ovos perecem inutilizados, o embrião transforma-se num escólex, que não faz outra coisa que sugar e engendrar. É um processo em que não há beleza, nem sabedoria, nem conformidade determinativa, na acepção humana.(Deus na Natureza – Quarta Parte.Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

876. Para quê? – perguntam depois – as enfermidades, os males físicos em geral? Qual a razão desse ror de crueldades, de atrocidades, que a Natureza inflige a cada dia, a cada hora, às suas criaturas? O ser que deu ao gato e à aranha a crueldade e dotou o homem, essa obra-prima da Criação, de uma índole que o faz tantas vezes tão bárbara e cruel, poderá, assim procedendo, ser um ente bondoso e benévolo, conforme a ideia teológica? Mas, em que o fato da aranha devorar moscas e os gatos comerem ratos, tanto quanto o de serem os homens criaturas inferiores, avassalando-se aos instintos materiais, prova a maldade ou a inexistência de Deus? Como demonstração científica, confessemo-lo, é superficialíssima.(Deus na Natureza – Quarta Parte.Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

877. Depois, procuram nas exceções, nas monstruosidades da Natureza, nos seres atrofiados, de incompleto desenvolvimento, exemplos de inutilidade capazes de desviar a atenção do plano geral e assim demonstrarem a ausência de inteligência, como se algumas pedras isoladas – que, de resto, entram de si mesmas no plano geral – pudessem destruir a simetria do conjunto e aniquilar o valor arquitetônico do edifício. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

878. A Anatomia comparada – acrescenta o mesmo materialista – ocupa-se principalmente no investigar a conformidade de estrutura das diferentes espécies de animais, fazendo ver, em cada espécie ou gênero, o princípio fundamental da sua organização. Baseada nesses dados, a Ciência nos mostra em cada ordem animal um grande número de formas, de órgãos etc., que lhe são inteiramente inúteis, não conformes com o seu fim e antes parecendo não passarem de forma primitiva da sua constituição, de rudimentos de uma disposição, ou de uma parte do corpo, que atingiu em outra espécie um desenvolvimento capaz de facultar ao indivíduo uma certa e determinada utilidade. A coluna vertebral do homem termina em pequena ponta de nenhuma utilidade, que muitos anatomistas consideram como rudimentos da cauda dos vertebrados. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.)

879. A estrutura corporal dos animais e das plantas oferece inúmeros dispositivos sem finalidade apreciável. Ninguém ainda sabe para que serve o apêndice vermicular, a glândula mamária do homem, o osso clavicular do gato, a asa de algumas aves incapazes de voar, os dentes da baleia. Vogt adverte que há animais verdadeiramente hermafroditas, possuindo os órgãos de ambos os sexos e não podendo, contudo, reproduzir-se por si mesmos. Para que serve uma tal organização? – pergunta ele. (Deus na Natureza – Quarta Parte. Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos.) (Continua no próximo número.)

 


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita