Joias da poesia
contemporânea

Espírito: Cármen Cinira

 
Minha luz

 
Eu era, Dor, a alma rubra e inquieta,

A pomba predileta

Do prazer, da ilusão e da alegria...

Meu coração, alegre cotovia,

Saudava alvoroçado

O segredo da noite e a luz clara do dia,

Quando chegaste de mansinho,

Pisando sutilmente o meu caminho...

 

E eu te enxerguei, despreocupada,

Em meu engano, em minha fantasia:

Primeiramente,

Foste, austera e inclemente,

A um dos belos tesouros que eu possuía

E mo roubaste para sempre...

Em fúria iconoclasta,

Como o simum que arrasta

As cidades repletas de tesouros

Confundindo-as no pó,

Foste aos meus ídolos mais caros,

Destruindo-os sem dó.

 

Prosseguiste, ó divina estatuária,

Na tua obra silente e solitária,

E quebraste

Minhas cítaras de ouro,

Meus mármores de Paros,

Meus cofres de alabastros,

Minhas bonecas de biscuí,

Minhas estatuetas singulares...

E humilhaste

Meus sonhos de mulher e de menina,

Que eu pusera nos astros

Em meio às melodias estelares!

 

Mas, desde que chegaste,

Foste a sombra divina

Que acompanhou meus passos ao sepulcro...

Tudo sofri,

Ó Dor, por te querer,

Porque depois que vieste

Qual pássaro celeste

Para abrir rosas de sangue no meu peito,

Encheste a minha vida

De um estupendo prazer, quase perfeito!

 

Aos poucos me ensinaste a abandonar

Meus prazeres fictícios,

Trocando-os pela luz dos sacrifícios!

Por tudo eu te bendigo, á Dor depuradora,

Porque representaste em meu destino,

De alma sofredora,

O fanal peregrino

Que me guiou constantemente

Através das estradas espinhosas

Para as manhãs radiosas

Da Luz Resplandecente...

 

Sê, pois, bendita, ó Dor linda e gloriosa,

Pois da volúpia estranha dos teus braços,

Vim pelas mãos da morte complacente

Para a vida sublime dos Espaços!...


Do livro Parnaso de Além-Túmulo, obra mediúnica psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.

 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita