Especial

por Tiago Antonio Salvador

Amai os vossos inimigos: o perdão como prova de amor e de caridade (Final)

É nessa esteira que nos cumpre, novamente, revisitarmos o Capítulo XII de O Evangelho segundo o Espiritismo para compreendermos que “amar aos inimigos não é ter por eles uma afeição que não é natural”[1], como nos diz Kardec, pois, verdadeiramente, não há como afeiçoar-nos por aquele(a) cujos pensamentos e ações não nos atrai, ao contrário, nos afasta por uma repulsa natural, de acordo com a leis físicas relativas aos fluidos e vibrações que o Codificador tão bem nos explica.  

De outro lado, podemos concluir que também deriva da Lei Moral de Conservação a conduta instintiva ou racional do homem de afastar-se daquelas pessoas que lhe podem fazer mal, pois o instinto de conservação o anima a manter-se vivo e saudável para colaborar nos desígnios da Providência[2].

Então, em que sentido devemos amar nossos inimigos?

Kardec, com a simplicidade e a clareza que marcam sua obra, nos ensina que amar nossos inimigos é:

[...] não ter contra eles nenhum rancor nem desejo de vingança. É perdoar sem segundas intenções e incondicionalmente, o mal que nos fazem. É não colocar nenhum obstáculo à reconciliação; é desejar-lhes o bem em lugar do mal; é alegrar-nos em vez de aborrecer-nos com o bem que lhes acontece; é socorrê-los em caso de necessidade; é abster-nos, por palavras e atitudes, de tudo o que possa prejudicá-los. É, enfim, pagar-lhes o bem pelo mal, sem intenção de humilhá-los. Quem assim fizer preenche as condições do mandamento: Amai aos vossos inimigos.[3]

Enfim, amar nossos inimigos não é nada mais do cumprir o mandamento cristão de amar o próximo como a si mesmo, pagando-lhe o mal que nos feito com o bem que desejamos a nós, para, assim, encerrar o ciclo do ódio e das ofensas e evidenciar que o amor é o caminho que nos leva mais próximos de Deus.

Percebe-se que, como explicita o Codificador, o amor a que se refere o Cristo não é aquele baseado unicamente no sentimento sublime de amar, de bem querer com afeto e carinho, esse mais difícil e próprio dos Espíritos mais aperfeiçoados. O que busca promover Jesus é a prática do amor por meio de atos de bondade e caridade, os quais são passíveis de serem realizados a partir de decisões racionais, em prol do próximo e, especialmente, de nossos inimigos.

Com efeito, amar, como sentimento divino, não deriva de uma simples decisão. Não escolhemos simplesmente amar ou não amar uma pessoa. Amor, nessa acepção, deriva da própria alma e demanda aprendizado por meio de diferentes vivências, o que quase sempre não é possível fazê-lo em uma única encarnação, à exceção do amor maternal, paternal e filial, proporcionados por Deus justamente para que possamos aprender a amar.

Mas o amor a que se refere Kardec, ao interpretar o mandamento de Jesus, é o amor materializado nos atos, no agir, no pensar, no querer, ou seja, das nossas experiências enquanto humanos, e este sim pode derivar de deliberações racionais que tomamos para o nosso próprio bem e do próximo. Nesse sentido, é perfeitamente possível não sentirmos amor por alguém que nos fez mal, porém, por uma decisão racional, baseada em preceitos morais e no amor a Deus, querermos bem a essa pessoa e fazer-lhe o bem.

Por óbvio, não é algo tão simples. Entretanto, o amor, por esta acepção, é algo que pode e deve ser exercitado por nós, a depender de querermos ou não. O importante é decidir, no nosso íntimo, fazer o bem, a perdoar, a ajudar, o que nos colocará sob um estado psíquico-espiritual que permitirá exercitar, por meio da vivência prática, o bem e a caridade, de forma que, assim, estaremos amando ao próximo e prontos para amar, também, aos nossos inimigos. 

4. O perdão como manifestação de amor e caridade

Quando se decide por estudar o amor como mandamento Cristão, especial atenção merece o ato de perdão, tema dos mais importantes e latentes dentre aqueles mencionados no Evangelho e também nas obras do Codificador da Doutrina Espírita.

Em um primeiro momento, parece simples entendermos que é importante perdoar as ofensas que nos são dirigidas, e que este seria um passo decisivo para amarmos nossos inimigos. Mas, afinal, o que é perdoar e por que é tão difícil fazê-lo? Esquecer o ocorrido é perdoar? Não querer mal a quem nos ofende é perdoar? Querer o bem ao inimigo é perdoar?

Essas questões nos demonstram que não é tão simples definir o perdão, muito menos saber se realmente, em nosso íntimo, perdoamos ou não determinada pessoa que nos fez mal em dado momento.

Um ponto de partida para nossas reflexões é conhecermos a origem da palavra "perdão", a qual, segundo os estudos etimológicos, advém do Latim perdonare, de per-, “total, completo”, mais donare, “dar, entregar, doar”[4].

Perdoar, nesse sentido, é o ato de doar, entregar, dar algo a outrem, mas de forma integral, completa, relacionando-se com a ideia de “absolvição total” de alguém, o que evidencia que o palavra "perdão", desde sua origem, está intimamente ligada à concepção de caridade.

De fato, perdoar alguém pela prática de algum mal, absolvendo-a integralmente, constitui uma das essências da caridade, como nos esclareceram os Espíritos Superiores diante da questão nº 866 de O Livro dos Espíritos: "Qual é o verdadeiro sentido da palavra caridade, tal como a entende Jesus? 'Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias, perdão às ofensas'”[5].

Dando continuidade às reflexões e lançando o olhar aos questionamentos acima expostos, parece-nos importante entendermos que perdoar não é esquecer a ofensa, pois olvidar de algo, em nossa vida corpórea, está relacionado com nossas faculdades mentais, ou seja, com uma boa ou má memória, não dependendo do simples querer ou não querer.

É fato que os acontecimentos que nos atinge emocionalmente ficam mais fortemente gravados em nossa memória, de modo que o esquecimento, nesses casos, depende muito mais da superação dos fatores que nos toca o emocional do que propriamente das nossas faculdades mentais. 

Em verdade, o esquecimento que nos aproxima das Leis Divinas é aquele que deriva do perdão, ou seja, ocorre após o ato de perdoar, o que não se verifica imediatamente, mas por meio de um processo em que, primeiro, aprende-se a perdoar as ofensas para, depois, encontrando-se completamente superadas as contendas, ser o indivíduo capaz de esquecê-las, como se nunca tivessem existido.

Este é o processo construtivo da misericórdia para com os nossos inimigos, como nos legou Allan Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo, ao elucidar que "a misericórdia é o complemento da mansuetude, pois os que não são misericordiosos também não são mansos e pacíficos. Ela consiste no esquecimento e no perdão das ofensas".

Esquecer, sem perdoar, não é virtude, mas sim um indicativo de algum distúrbio de memória. Perdoar, sem esquecer a ofensa, por outro lado, é, sim, uma virtude e o caminho mais seguro para se alcançar o esquecimento misericordioso, aquele que não está ligado ao fato em si, à ofensa como realidade vivenciada – a qual nem se recomenda ser realmente esquecida –, mas sim com o esquecimento (no sentido de superação) do mal que nos foi feito, o qual não deve ser revivido, realimentado, ressentido, apenas lembrado como um instrumento, uma prova ou uma expiação que nos proporciona encontrar uma solução construtora de nossa evolução espiritual.

Em outras palavras, esquecer o mal sofrido, que decorre do perdão, é diferente de esquecer o fato ocorrido, que nada mais é do que uma experiência importante para o nosso progresso como ser eterno e, no mais das vezes, não necessita ser esquecido.

Da mesma forma, não querer o mal ao ofensor não é perdoar, mas faz parte do processo que leva ao perdão, pois não há como perdoar alguém lhe desejando mal. Perdão é ato de amor, logo, há de não se querer mal ao seu ofensor para que se consiga perdoá-lo verdadeiramente.

Por outro lado, querer bem ao ofensor não é, por si só, perdoar, mas quase sempre decorre do perdão, tal como o esquecimento, eis que é muito difícil, senão impossível, querer bem a alguém, com sinceridade, quando se guarda mágoas e ressentimentos. Nesses casos, a indiferença acaba por ser a tônica, o que também não é compatível com o perdão. Querer bem, em regra, é consequência do perdão concedido, encontrando-se o espírito desarmado das armadilhas do ego ferido e pronto para amar sem obstáculos.

Allan Kardec ressalta, no entanto, que o perdão verdadeiro é aquele incondicionado, com o que devemos concordar[6]. Condicionar o perdão a uma ação, a um comportamento, a uma conduta daquele que ofendeu não é perdoar, é, senão, humilhar, diminuir e colocar o desafeto como o único culpado, invertendo a responsabilidade pela decisão, de modo que o perdão passaria a depender dele, ofensor, e não de quem foi ofendido e deve perdoar a ofensa. 

O perdão incondicional é o único compatível com os ensinamentos do Cristo, porque perdoar é ato de amor, e amor não está condicionado a algo, ao contrário, é livre e libertador, sem limites, sem balizas.

Com efeito, o ato de perdoar tem o condão de libertar a alma, e não só daquele que é perdoado – o qual se livra dos grilhões da culpa (quando a sente) ou, ao menos, vivencia a experiência nobre do perdão em seu favor –, mas, principal e especialmente, daquele que perdoa, cujo espírito se verá livre de qualquer sentimento negativo e estará pronto para seguir em sua marcha de progresso e evolução. Nesse sentido, o perdão é inegavelmente um ato de extrema caridade, que reconforta o perdoado e ilumina aquele que perdoa.  

Aspecto importante a ser destacado, ainda, é o de que o perdão, como todo ato que parte do coração do homem, como ser espiritual, pode e deve ser aprendido e exercitado durante as diferentes vivências no plano corpóreo, tornando-se hábito que, burilado por meio dos valores morais mais nobres, transforma-se em sentimento, incorporado ao espírito como patrimônio moral perpétuo e inviolável.

O caminho nos foi legado pelo Cristo, ao nos ensinar a “amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. É o processo de refletir sobre o que Deus espera de nós, o perdão ou a manutenção da dor e da mágoa? Sobre o que gostaríamos de receber se estivéssemos no lugar o ofensor, o perdão ou o ressentimento e as dores?

Perdoar, por conseguinte, é uma resolução do coração, que nasce do espírito, uma decisão no sentido de superar as mágoas, as dores, as feridas, de sacudir a poeira e jogar para fora todas as sujeiras e entulhos da alma, a fim de reconstruir um novo caminho, um novo amanhã, baseado no amor e na misericórdia ao próximo.

5. Conclusão

O ensinamento do Cristo relativo ao amor aos nossos inimigos é, sem dúvida, um dos ricos e importantes do Evangelho, e mantém-se inequivocamente atual e universal, como todos os ensinamentos morais do Evangelho.

Por certo, esse postulado cristão não se restringe somente àquelas situações em que nos deparamos com inimizades capitais, graves e belicosas, mas, também, em face de todas as antipatias, malquerenças, infelicidades e mágoas que dedicamos a alguém ou, ainda, que cultivem em relação a nós, o que, em maior ou menor grau, envenena a alma e cria ambiente propício para doenças do espírito que refletirão no corpo físico.

O Espiritismo, como doutrina científica, filosófica e religiosa, muito tem contribuído para a divulgação e a melhor compreensão de temas tão importantes como o presentemente abordado, aos nos legar vitais lições da moral cristã, especialmente pelas obras do Codificador Allan Kardec, onde encontramos explicitado claramente que o amor a Deus a o amor ao próximo, inclusive ao inimigo, são os dois principais mandamentos do Cristo, definidores da moral que deve prevalecer em nosso planeta, a caminho do Mundo de Regeneração.

Em sua feição de Evangelho Redivivo, o Espiritismo revisita os ensinamentos do Cristo e nos mostra que o amor, em suas manifestações sublimes, em forma de perdão e de caridade, é o verdadeiro transformador de almas, que nos possibilita ver e compreender nossos inimigos como irmãos, e nossos problemas e sofrimentos como degraus de uma divina escada que nos permite a elevação do espírito em rumo da perfeição possível à nossa condição humana.

Amar ao próximo e aos nossos inimigos é, portanto, uma escolha íntima e o Espiritismo nos chama a decidir ainda hoje, pavimentando desde já o caminho da construção, na alma, do amor sublime e divino a que estamos todos destinados.

Não é simples e sem dificuldades esse caminho, mas cabe a nós, espíritas, elevarmos nossos pensamentos às esferas superiores, com humildade e devoção a Deus, e empregarmos o amor como bálsamo do bem e da caridade para com o próximo.

Assim, se "no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (João, I:1), Amar é o Verbo, e a vivência no amor e sua consagração ao próximo é passo inescapável a todos que caminham rumo à necessária evolução do Espírito.

 

 

Referências bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução Karine Rutpaulis. 6. ed. São Paulo: Mundo Maior Editora, 2012.

________. O Livro dos Espíritos. Tradução Sandra Keppler. 6. ed. São Paulo: Mundo Maior Editora, 2012.

 

O autor é Delegado de Polícia no Estado de São Paulo. Professor da Academia de Polícia “Dr. Coriolano Nogueira Cobra”. Professor do Centro Universitário Anhanguera São Paulo – Campos Vila Mariana. Professor em cursos preparatórios para concursos públicos. Pós-graduado em Direito Penal e Direito Processual Penal. Aluno do curso de Doutrina Espírita do Centro Espírita Nosso Lar Casas André Luiz.


 

[1] Ibidem p. 164-165.

[2] O Livro dos Espíritos, questão 702. O instinto de conservação é uma lei da Natureza? “Sem dúvida. Todos os seres vivos o possuem, seja qual for o grau de sua inteligência. Em alguns, é puramente mecânico, em outros, é racional”. Questão 703. Com que objetivo Deus concedeu a todos os seres vivos o instinto de conservação? “Porque todos devem colaborar nos desígnios da Providência. Foi por isso que Deus lhes deu a necessidade de viver. A vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres; eles o sentem instintivamente sem sequer se aperceberem”.  KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução Sandra Keppler. 6. ed. São Paulo: Mundo Maior Editora, 2012, p. 331.  

[3] Ibidem, p. 164-165.

[4] Disponível em: https://goo.gl/7VZmEg. Acesso em 15/12/2017.

[5] Idem, p. 396.

[6]  Ibidem, p. 164. 

 

  

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita