Questões vernáculas

por Astolfo O. de Oliveira Filho

Tempos atrás uma leitora implicou com a palavra “confreira”, muito usada no meio espírita, afirmando que esse termo não existia. Ocorre que a palavra confreira, devidamente registrada no VOLP e em inúmeros dicionários, designa o elemento feminino de uma confraria. É a forma feminina de confrade.

Hoje a dúvida é sobre a palavra “membra”.

Dizemos: - Francisco é membro de nossa instituição. Será correto dizer: - Maria é membra de nossa instituição?

Igualmente registrada no VOLP e em diversos dicionários, membradesigna a mulher que faz parte de um grupo, de uma coletividade. É a forma feminina de membro.

A frase citada está, portanto, correta, o que não nos obriga a usá-la, assim como ninguém é obrigado a grafar “presidenta”, como Dilma Vana Rousseff tanto gostava.

Especialista em assuntos gramaticais, Helena Figueira, em resposta a um leitor, escreveu:


“A palavra membra existe na língua portuguesa.

Fazemos esta afirmação porque a palavra tem ocorrências de uso real que se podem aferir através da pesquisa em corpora e em motores de busca. Por outro lado, a palavra está registada em alguns dicionários e vocabulários de referência, nomeadamente no Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António Morais Silva (10.ª ed., 12 vol., Lisboa: Editorial Confluência, 1949-1959) ou no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras (5.ª edição, 2009). Refira-se ainda que este vocábulo surge abonado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa com uma referência da obra Mil e um Mistérios, de António Feliciano de Castilho (1800-1875): ‘D. Matilde, pelo sim, pelo não, sem ser membra do Conservatório, julgou mais conveniente omitir aquela parte do divertimento’.

No entanto, como na maioria das questões linguísticas, o problema não se esgota aqui e inclui variáveis de ordem social, cultural ou mesmo política que têm de ser analisadas ou pelo menos ponderadas, o que torna impossível ou pouco prudente uma resposta peremptória neste campo.

O uso de membra como feminino de membro é pouco frequente, e tem sido feito ultimamente também como afirmação política, social ou cultural, nomeadamente de cariz feminista (o que tem também acontecido no caso da palavra presidenta), mas o seu registo lexicográfico não obriga ao seu uso, uma vez que a palavra membro é um substantivo sobrecomum do género masculino, isto é, sendo do género masculino, pode designar indivíduos de ambos os sexos no sentido de ‘pessoa que faz parte de um grupo’.

Como acontece com qualquer palavra, o uso desta palavra decorre da selecção feita por cada utilizador e da sua liberdade de escolha, consoante o registo de língua e o conhecimento das situações de comunicação e dos códigos de conduta social. O papel do dicionário, como o entendemos, é registar os usos da língua (daí as indicações de uso) e o seu dinamismo.” (Fonte: https://www.flip.pt/Duvidas-Linguisticas/Duvida-Linguistica/DID/5929.)


Concluindo, caso a leitora deseje utilizar o termo “membra”, fique à vontade, mas não estranhe se na revisão alguém trocar o a final pela letra o. 



 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita