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por Pedro Fagundes Azevedo

 

Alhos & Poesia


Certa vez, num programa de entrevistas da antiga TV Tupi, alguém argumentou que a psicografia poderia ser uma simples manifestação do inconsciente do próprio médium e fez a seguinte pergunta ao Francisco Cândido Xavier:

– O que o senhor tem escrito de Augusto dos Anjos, por exemplo, não seria uma reminiscência de suas leituras?

Prontamente, o Chico contou este interessante caso:

“Em 1931, quando eu ia fazer 21 anos, o Espírito de Augusto dos Anjos sentia grande dificuldade de escrever por meu intermédio. Nessa época, eu trabalhava num armazém que tinha em anexo uma grande plantação de alhos. Todos os dias, depois das seis da tarde, cabia-me regar os canteiros e aí os Espíritos vinham conversar comigo. Eu achava aquelas horas muito agradáveis, porque me isolava de todo o serviço no armazém para ficar plenamente à disposição dos Espíritos amigos.

Então, o Augusto dos Anjos começou a ditar uma poesia que está no Parnaso de Além-Túmulo, o primeiro livro de nossa mediunidade. A poesia chamava-se Vozes de Uma Sombra. E ele começou a falar com aquelas palavras maravilhosas, muito eruditas, que eu – de regador na mão – custava a compreender. E ele falava com fluência, que gostava de escrever no campo, que aquela era a hora em que queria ditar para que assim eu pudesse compreender melhor quando fosse colocar no papel, pois às vezes também escrevo como médium ouvinte.

Depois de muitas tentativas, devido à minha grande dificuldade, ele falou assim comigo: 'Olha, quer saber de uma coisa? Eu vou ditar o que puder, pois a sua cabeça não aguenta mesmo!' E a poesia que está no livro é só o que ele pôde transmitir, mas era mais, muito mais, era uma beleza. Ele falava em fótons, cores, de mundos, de galáxias. Quem era eu, que estava regando o canteiro de alhos, para entender tudo aquilo?”

No livro Parnaso de Além-Túmulo, 56 poetas brasileiros e portugueses já falecidos expõem, através da mediunidade de Francisco Xavier, essas poesias compostas do outro lado da vida. Entre estas, há 34 ditadas pelo Espírito de Augusto dos Anjos. E como você, provavelmente, ficou curioso em conhecer alguma coisa da citada “Vozes de Uma Sombra”, aqui está sua primeira estrofe:

“Donde venho?

Das eras remotíssimas,

Das substâncias elementaríssimas,  Emergindo das cósmicas matérias. Venho dos invisíveis protozoários, Da confusão dos seres embrionários, Das células primevas, das bactérias”.

O pensamento expresso nestes versos de Augusto dos Anjos vem ao encontro da filosofia espiritualista, segunda a qual “o espírito do homem dorme no mineral; desperta no vegetal; se agita no animal, onde se dá a individualização, sempre evoluindo através dos milênios, sem retrocessos, isto é, sem voltar às fases já ultrapassadas. A seguir, vem a angelitude. A todas suas criaturas Deus concede idênticas oportunidades, sem privilégios.


 

Pedro Fagundes Azevedo é ex-presidente da Legião Espírita de Porto Alegre.


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita