Estudando as obras
de Manoel Philomeno
de Miranda

por Thiago Bernardes

 

Entre os Dois Mundos

(Parte 3)


Continuamos nesta edição o estudo metódico e sequencial do livro Entre os Dois Mundos, obra de autoria de  Manoel Philomeno de Miranda, psicografada por Divaldo P. Franco no ano de 2004.


Questões preliminares


A. Quem foi, no passado, Policarpo, o orador convidado para falar aos trabalhadores do grupo que Manoel Philomeno integrava?

Policarpo foi um dos inúmeros mártires do Cristianismo dos primeiros tempos, levado ao suplício numa arena romana durante uma das cruéis perse­guições desencadeadas pelo imperador Diocleciano, por ocasião do fim da sua governança, no começo do século quarto da Era cristã. Aprisionado no norte da África, onde se celebrizara pelo verbo inflamado e pelas ações dignificantes de cari­dade e de amor, Policarpo foi enviado em ferros a Roma com a família – mulher e dois filhinhos – bem como ou­tros discípulos do Rabi, sendo atirado às feras, num dos turbulentos festivais de loucura. (Entre os dois mundos. Capítulo 2: O amigo de Jesus.)

B. Que fato se verificou em seguida à morte de Policarpo e seus companheiros?

Quando a noite chegou, após o público insano ter abandonado o Circo e as feras serem recolhidas, os corpos começaram a ser atirados sobre as carroças conduzidas por escravos embriagados. Então, do infinito incom­parável, diáfana luz desceu na direção da arena, servindo de passarela para uma coorte de seres angélicos que, entoando sublimes canções, aproximou-se do lugar do holocausto. À frente, estava Jesus, nimbado de sidérea luminosi­dade, que recolheu Policarpo e família, enquanto os demais martirizados eram retirados dos últimos despojos pelos Seus embaixadores em clima de alegria e gratidão a Deus. Despertando, e deslumbrando-se com o Mestre que o envolvia em claridades iridescentes, Policarpo abraçou-o, enquanto Ele confirmou: – “Amigo querido, já transpuseste a porta estreita. Agora vem com os teus para o meu Reino que te espera desde há muito!” (Entre os dois mundos. Capítulo 2: O amigo de Jesus.)

C. Policarpo voltou a reencarnar na Terra depois dos episódios mencionados?

Sim. Policarpo retor­nou à Terra diversas vezes, sempre quando o pensamento do Mestre sofria adulterações, sendo a sua última jornada na condição de seareiro do Espiritismo, nele restaurando a mensagem cristã que havia sido aviltada através dos tempos. (Entre os dois mundos. Capítulo 2: O amigo de Jesus.)


Texto para leitura


48. O amigo de Jesus – Em determinado momento, com a bonomia que lhe é habitual, José Petitinga informou, dirigindo-se ao autor desta obra: “Como você recorda, hoje estamos recebendo a visita de querido amigo procedente de elevada esfera espiritual, que nos vem trazer palavras de levantamento moral e orientações para as tarefas que nos dizem respeito em relação ao futuro. O irmão Policarpo, que hoje nos honra com a sua presença, é mártir cristão, que ofereceu a vida ao Divino Mestre na arena romana durante uma das cruéis perse­guições desencadeadas pelo imperador Diocleciano, por ocasião do fim da sua governança, no começo do século quarto da nossa Era. A sua implacável perseguição aos cristãos, que consi­derava como um grande perigo para o Império e para a sua autoridade, ceifou milhares de vidas mediante terríveis suplí­cios que lhes foram infligidos em todas as regiões por onde se espraiavam as suas províncias, sendo praticamente todo o mundo conhecido... Ante a rudeza das calamitosas refregas, não foram poucos aqueles que abjuraram a fé, rendendo culto ao impe­rador e aos deuses, provocando dilaceradoras angústias nas falanges dos servidores do Cristo. Aprisionado no norte da África, onde se celebrizara pelo verbo inflamado e pelas ações dignificantes de cari­dade e de amor, Policarpo foi enviado em ferros a Roma com a família – mulher e dois filhinhos – bem como ou­tros discípulos do Rabi, sendo atirado às feras, num dos turbulentos festivais de loucura. Altivo e de ascendência nobre, em razão de ser romano de nascimento, foi-lhe proporcionado ensejo de renunciar à fé, retornando ao culto dos ancestrais, providência que pou­paria a sua e a existência da família. Embora de alma dilace­rada pelos sofrimentos que lhes seriam impostos, optou pela fidelidade à consciência, sendo martirizado com os seus. Conta-se que, antes de ser atirado à arena, em face da sua inteireza moral, por ordem superior foi supliciado pela soldadesca, enquanto a mulher e os filhinhos eram sub­metidos a humilhações inomináveis. Igualmente portadora de alta espiritualidade, Flamínia, a companheira digna, ao invés de atemorizar-se, mais confiou nos desígnios divinos, revestindo-se de coragem e de fé inquebrantáveis, que sur­preendiam aqueles insensíveis algozes da sua firmeza moral. (Entre os dois mundos. Capítulo 2: O amigo de Jesus.)

49. Comovido pela evocação do testemunho desses espí­ritos de escol, Petitinga fez uma pausa e, de imediato, prosseguiu: “No dia em que deveriam servir de repasto aos le­ões, leopardos e tigres esfaimados, Policarpo foi jogado no meio dos companheiros atemorizados, lanhado e esgotado nas forças pelos flagícios sofridos, e, mesmo assim, tentou recompor-se, para transmitir ânimo àqueles que, não obs­tante o amor e a confiança no Mestre, choravam apavorados temendo o próximo terrível testemunho que os aguardava. O subterrâneo infecto por dejetos e cadáveres não removidos tornara-se lôbrego e nauseante. Aqueles que ali se encontravam haviam perdido praticamente o discerni­mento e, hebetados uns pelo medo, agitados outros pelo desespero, estremunhados diversos, vendo-se abandona­dos, subitamente sentiram a mudança da atmosfera, quan­do ventos inesperados que sopravam no ardente mês car­rearam o doce perfume dos loendros dos arredores abertos aos cálidos beijos do sol. De imediato, uma psicosfera de paz invadiu o recinto sombrio e fez-se um significativo silêncio, enquanto o rugir dos animais misturava-se à algazarra desmedida da multi­dão agitada pelos corredores, assomando às arquibancadas e galerias, aplaudindo o espetáculo burlesco que sempre pre­cedia às matanças desordenadas. Foi nesse momento que o apóstolo, recuperando as energias e inspirado pelos emissários do Senhor, convidou o magote assustado à reflexão e à prece, elucidando: – Morrer, por Jesus, é a honra que agora nos é concedida. Enquanto Ele, que não tinha qualquer culpa, doou a Sua vida, para que a tivéssemos em abundância, convida-nos a que ofere­çamos a nossa, a fim de que outros, que virão depois, igual­mente possuam-na. Morrer por amor é glória para aquele que se imola. Enquanto o mundo nos surpreende com as suas ilusões, sombras e traições dos nossos sentidos, a mor­te é vida perene em luz e felicidade. Não nos separaremos nunca! Avancemos juntos, portanto, pois que o Mártir do Gólgota nos aguarda em júbilo. O nosso sangue irá ferti­lizar o solo dos corações, a fim de que se expanda a nossa fé, modificando a Terra e elevando-a ao estágio de mundo de reabilitação”(Entre os dois mundos. Capítulo 2: O amigo de Jesus.)

50. Conforme relatado por Petitinga, Policarpo fez então uma ligeira pausa, dominado pela emoção que contagiava os ouvintes atentos e, de imediato, prosseguiu: “- É fácil morrer, especialmente quan­do se soube viver transformando urze em flores e calhaus em estrelas. Cantemos, dominados pela infinita alegria de doar o que possuímos de mais valioso, que é a vida física. Jesus, que nos ama, aguarda por nós!” A emoção era geral. Uma aragem de paz tomou-os a todos. A esposa acercou-se-lhe com um filhinho no regaço e o outro segurando-lhe as vestes, e tocou-o. Abraçando­-a com lágrimas, ele agradeceu-lhe a coragem, prometendo que prosseguiriam amando-se depois da sombra da noite... Os portões foram abertos estrepitosamente. Soldados furiosos com lanças e chibatas empurraram os prisioneiros para o centro da arena. A gritaria infrene tomou conta da massa alucinada, que subitamente silenciou, quando eles se adentraram cantando um hino de exaltação a Jesus. Em seguida, os animais selvagens foram atirados na sua direção e, a pouco e pouco, as patadas violentas e as dilacera­ções pelos dentes afiados foram despedaçando os corpos, que tremiam exangues na areia, colorindo-a do rubro fluido orgâ­nico. Policarpo, a mulher e os filhinhos, formando um todo em vigoroso abraço de sustentação moral, foram alcançados e despedaçados... Após as primeiras dores uma anestesia total tomou-lhes a consciência e pareceram adormecer, enquanto o espetáculo dantesco prosseguia...  Embora remanescesse débil claridade do Sol poen­te no áspero verão de agosto, a noite avançava, deixando aparecer as primeiras estrelas faiscantes como olhos que observassem as inconcebíveis calamidades humanas. (Entre os dois mundos. Capítulo 2: O amigo de Jesus.)

51. Dando prosseguimento ao seu relato, Petitinga acrescentou que, quando a noite fez-se total, após o público insano ter abandonado o Circo, as feras serem recolhidas, os corpos começaram a ser atirados sobre as carroças conduzidas por escravos embriagados, vestidos de faunos e portando com­portamentos obscenos. Então, do infinito incom­parável, diáfana luz desceu na direção da arena, servindo de passarela para uma coorte de seres angélicos que, entoando sublimes canções, aproximou-se do lugar do holocausto. À frente, estava Jesus, nimbado de sidérea luminosi­dade, que recolheu Policarpo e família, enquanto os demais martirizados eram retirados dos últimos despojos pelos Seus embaixadores em clima de alegria e gratidão a Deus. Despertando, e deslumbrando-se com o Mestre que o envolvia em claridades iridescentes, Policarpo abraçou-o, enquanto Ele confirmou: – “Amigo querido, já transpuseste a porta estreita. Agora vem com os teus para o meu Reino que te espera desde há muito!” Petitinga então concluiu: “Policarpo, depois daquela doação a Jesus, retor­nou à Terra diversas vezes, sempre quando o pensamento do Mestre sofria adulterações, sendo a sua última jornada na condição de seareiro do Espiritismo, nele restaurando a mensagem cristã que havia sido aviltada através dos tempos. É esse benfeitor, apóstolo do Evangelho, que nos hon­rará com a sua palavra dentro de alguns minutos. Não posso sopitar o anseio de ouvi-lo, de senti-lo próximo do coração e aprender com ele o exemplo da doação total, preparando­-me para os futuros cometimentos”. (Entre os dois mundos. Capítulo 2: O amigo de Jesus.)

52. Petitinga e Philomeno dirigiram-se, em seguida, ao auditório onde ocorreria a palestra de Policarpo. O local, cuja capacida­de era para quatro mil espectadores, encontrava-se quase que totalmente lotado. A psicosfera reinante era de contida alegria e de doces expectativas. Em todos os rostos brilhavam os olhos que expressavam as emoções em festa no mundo interior de cada qual. Ali podiam-se ver muitos companheiros ainda mergulhados na experiência carnal, convidados que foram para o incomum acontecimento, assessorados pelos seus mentores espirituais que os trouxeram, a fim de que retornassem ao corpo com a memória do evento e das lições que iriam ser oferecidas. Aragens perfumadas espraiavam-se em todas as direções. Música suave de exaltação à vida vibrava no espaço grandioso, alternada com vozes em coral infantil, que enternecia os presentes. A claridade reinante chamava a atenção, porque não provinha especialmente de quaisquer instrumentos es­pecíficos para produzi-la. Era como se todo o edifício fosse construído de substância luminosa irradiante, enquanto que, no local reservado aos visitantes e convidados especiais, tor­nava-se multicor em suaves tons que produziam bem-estar difícil de ser definido. Somente o Amor de Deus – observou Philomeno – pode oferecer-nos tão especiais oportunidades de iluminação e de felicidade além dos convencionais interesses transitórios do mundo físico. “As aquisições que todos iriam amealhar teriam sabor de eternidade.” (Entre os dois mundos. Capítulo 2: O amigo de Jesus.)

53. No recinto, aguardando a fala do orador convidado, o irmão José Petitinga mergulhara em meditação, enquanto seu semblante se adornava de peregrina beleza, o que se podia observar em outros muitos espíritos ali pre­sentes, caracterizando os seus níveis de evolução. Nenhuma bulha nem tumulto habituais em aglome­rações de tal porte. Todos estavam conscientes da responsabilidade imensa do momento e de quanto lhes seria valioso aproveitar cada instante para insculpir definitivamente no coração e na mente a Mensagem de Vida Eterna que logo mais seria ministrada. Os desencarnados presentes, que aguardavam oportunidade para o retorno ao querido planeta, que nos serve de colo de mãe generosa e onde temos ocasião de aplicar as inabordáveis contribuições do Mundo Maior, estavam conscientes do significado do momento e do seu valor para seu aprimora­mento pessoal intransferível. Foi então que o responsável pela solenidade apre­sentou-se, convocando a todos à recepção do visitante especial – Policarpo, um dos mártires do Cristianismo nascente. (Entre os dois mundos. Capítulo 2: O amigo de Jesus.) (Continua no próximo número.)


 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita