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Entrevista
Ano 1 - N° 7 - 30 de Maio de 2007
JENAI OLIVEIRA CAZETTA
jenai@oconsolador.com.br
Londrina, Paraná (Brasil)

Carmem Lúcia Sartori Rocha:
"O evolucionismo não coloca nem descarta a presença de Deus" 

 

Doutora em Genética, Carmem Lúcia Sartori Rocha (foto) nasceu na pequena cidade de Marumbi (PR), mas realizou seus estudos universitários em Curitiba, capital do Estado, onde atuou ativamente no Movimento Espírita, participando na época das reuniões do Centro Espírita Luz Eterna e da Federação Espírita do Paraná. Atualmente, reside em Maringá, no Norte do Paraná, onde integra a equipe de docentes da Universidade Estadual de Maringá. Na entrevista que se segue, ela fala sobre sua iniciação no Espiritismo, criacionismo, evolucionismo, genoma humano, aborto eugênico e outros assuntos.

– Você é espírita de berço?

Carmem – Meu pai era espírita antes de se casar, mas minha mãe era uma católica muito fervorosa. Minha mãe só se rendeu ao Espiritismo quando eu tinha seis anos. A partir daí eu comecei a participar das escolinhas de evangelização, mocidade espírita, e assim por diante. Portanto, eu acho que posso me considerar uma "espírita de berço", pois tive uma vida toda espírita.

– Com qual dos três aspectos do Espiritismo – científico, religioso e filosófico – você mais se identifica?

Carmem – Eu já me fiz essa pergunta várias vezes e cheguei à conclusão de que me identifico com todos eles. Quando era muito jovem, como eu tinha feito uma opção pela Genética e pela Ciência, eu queria ser uma pesquisadora, uma geneticista. Tinha uma paixão pela parte científica do Espiritismo. Durante a minha época de mocidade espírita, eu tinha uma predileção pelos temas científicos, mas depois, com o tempo e a vivência no movimento, fui levada a trabalhar os aspectos filosófico e religioso, porque minha maior oportunidade de trabalho foi fazer palestras no trabalho de fluidoterapia, no Centro Espírita Luz Eterna, onde o livro-texto que adotávamos era O Evangelho segundo o Espiritismo. Seguindo o Evangelho, nós fazíamos toda uma abordagem do seu conteúdo doutrinário, além do que estava nos capítulos. Então, o ponto de partida era o Evangelho.

No início, eu me sentia um pouco como "um peixe fora d’água", mas foi uma oportunidade abençoada para eu descobrir essa outra faceta da Doutrina que, para mim hoje, me deu uma visão integral. Eu não consigo mais separar os três aspectos, inclusive, eu tenho dito isto em algumas de minhas palestras. Eu acho que quando você conhece um pouco mais a fundo o Espiritismo, você não consegue mais separá-los. Você transita, você inicia numa abordagem mais religiosa ou filosófica e, num dado momento, você toca no aspecto mais científico. Você acaba indo a todas essas direções porque o próprio "pensar espírita" é o "pensar científico". Assim, você está trabalhando aquela filosofia com o objetivo religioso, que é o objetivo da Doutrina – a religação, por um raciocínio, uma linguagem, uma metodologia de estudar e de abordar que são científicos.

Cada assunto, embora você possa começá-lo por um enfoque ou por outro, você não foge dos demais. Entrelaça... Não tem como fugir, a menos que você tenha um objetivo muito delimitado. Se você for falar de mediunidade, reencarnação, qualquer um desses assuntos, não tem como falar especificamente de um aspecto ou de outro, porque você entrelaça tudo.

– Há pouco tempo, uma matéria que saiu num jornal importante falava sobre o ensino da teoria criacionista nas escolas, com base na Bíblia. Qual a sua opinião sobre isto?

Carmem – Eu acho que seria um retrocesso, porque nós temos hoje, na Ciência, um consenso de que o processo de desenvolvimento dos seres aconteceu através do processo evolutivo. O grande problema é justamente que a grande polêmica está em torno da presença, ou não, de Deus nesse processo. Os criacionistas, embora não consigam explicar como, defendem a idéia de Deus dirigindo o processo. Lembrando uma frase de Einstein - A Ciência sem Religião é manca, mas a Religião sem Ciência é cega -, esse Criacionismo é cego, pois está sendo defendido por adeptos de doutrina dogmática que vêem Deus como um mago concretizando... plim plim... e a coisa aparecendo. Eles só conseguem ver Deus no processo se o processo for mágico, tal como o Criacionismo propõe. Desta forma, Deus teria criado tudo prontinho e tudo estaria como Ele criou. Já a Ciência se baseia no filão que Darwin proporcionou, e ao qual muitos seguidores de Darwin e outros pesquisadores vêm acrescentando comprovações. Nós temos tantas evidências. Seria um contra-senso jogarmos tudo isso dentro de uma gaveta e simplesmente, cegamente, aceitarmos Deus como um mago fazendo aquela mágica da criação. Eu estava lendo outro dia numa revista, uma Super Interessante de 2002, como esses novos criacionistas americanos estavam tentando argumentar a favor da Teoria Criacionista e, justamente, todo empenho, toda necessidade e todo o desespero são de forma a defender a idéia de Deus.

O Evolucionismo, por ser uma proposta não religiosa – ele é científico e baseado na interpretação dos fatos – não coloca e nem descarta, e é importante que se diga isso, a presença de Deus. O problema é a eterna discussão, que é contemporânea de Kardec, entre Religião e Ciência, ou seja, a Religião sem senso crítico e a Ciência sem Deus. E é nesse ponto que acho que Kardec deu um grande salto, pois foi capaz, ainda naquela época, de colocar muito claramente a posição do Espiritismo a favor da Teoria Evolucionista, porque o Espiritismo é a única Religião capaz de enxergar Deus no processo científico. É esse o grande avanço: a aliança entre Ciência e Religião que a Doutrina Espírita faz, e faz mesmo.

Kardec mostrou para nós que é possível se fazer até numa área completamente polêmica na época dele... Kardec foi genial na época, quando foi capaz de fazer essa leitura, essa síntese, porque ele não tinha elementos como nós temos hoje de convicção. Ele se rendeu aos fatos simplesmente pela lógica da proposta de Darwin, ainda com muito pouca comprovação científica. Então, nesse sentido é que eu acho que seria hoje um retrocesso, depois de toda uma luta que houve nos Estados Unidos para que se colocasse a Teoria da Evolução como sendo a matéria da escola, porque essa teoria é um consenso da Ciência. Sendo este o tema, você pode ensinar qualquer coisa na aula de Religião nas escolas religiosas, mas, nas aulas de Ciência e Biologia, você tem que ensinar o Evolucionismo como proposta para a criação dos seres. O Criacionismo pode ser até citado historicamente, mas não como uma proposta aceitável.

– Sobre o genoma humano, o que se apurou até o momento fornece aos materialistas argumentos capazes de fortalecer sua descrença com relação à existência de Deus?

Carmem – Eu acho que para o materialista, quando é ele sistemático, nenhuma evidência é capaz de quebrar sua certeza. Então, penso que não existe um sólido embasamento na convicção materialista. Se eu fosse materialista quando me tornei geneticista, eu já teria tido vários momentos de conversão. Eu tive várias oportunidades durante a minha carreira, quando na época do mestrado e do doutorado, de êxtase diante da perfeição que a natureza nos demonstra nas leis que regem a vida. Eu teria me convertido naquele momento se já não fosse uma devota fiel do nosso Pai. Por isso, eu acredito realmente que a convicção dos materialistas e a utilização de qualquer conhecimento sobre genética para fundamentar uma convicção materialista são furadas. É muito fácil de ser derrubada, porque ela está se baseando em coisas frágeis. Se existe algo que fica evidentíssimo, quando você conhece a fundo a genética e vai estudar o genoma humano, é a presença de um Ser Superior.

Eu posso listar pelo menos 10 pontos de conversão para materialistas se tornarem crentes em Deus. Por exemplo, nós temos um genoma que, pela nossa superioridade orgânica diante dos seres mais inferiores, nós esperaríamos ter em torno de 100 mil genes. Isto justificaria nossa complexidade e nossa superioridade na escala evolutiva. Se, por exemplo, nós olharmos um fungo, um bolor, ele tem 15 mil genes. Estaria razoável nós termos em torno de 10 vezes mais do que o genoma deles, afinal, nós somos mais do que um fungo, mas o seqüenciamento humano nos mostra que nós temos em torno de 30 mil. Estamos mais próximos dos fungos do que gostaríamos. Onde está nossa grande diferença, se não está no número de genes? Então, os cientistas se debruçaram sobre a expressão dos genes: de que maneira esses genes se ligam e se desligam, de que forma há uma interação na regulação do funcionamento desses genes. É isto que estabelece uma grande superioridade nos seres humanos. Nós temos mecanismos de regulação dos genes extremamente sofisticados, o que nos torna tão mais desenvolvidos em termos orgânicos e em termos funcionais. Nós somos capazes de coisas que o fungo não pode fazer, a começar pela mobilidade, pela capacidade de pensar, etc. Então, eu não consigo ver alguém que, olhando para um genoma humano, não se estarreça diante disso e não veja Deus nesse processo, porque o que o processo evolutivo foi capaz de desenvolver em propriedades de funcionamento é uma coisa quase que miraculosa. Eu realmente acho que não é através do genoma, ou de qualquer outra teoria ou área de atuação da Biologia, da Física ou da Química, que faria um cidadão estar convicto do seu materialismo. Ele pode até se apegar a algumas facetas e jogar milhares de outras por debaixo do tapete, facetas estas que derrubariam sua certeza.

– Como você vê o chamado aborto eugênico, como o que vem sendo proposto nos casos de anencefalia?

Carmem – O aborto é, em tais casos, uma forma de eutanásia e eu sou contra. Acho que essa possibilidade que se tem de fazer muito precocemente exames, com marcadores moleculares para se diagnosticar certas doenças, é que leva algumas pessoas a fazerem esse tipo de aborto... O feto está com problemas, então vamos descartar. Eu acho absolutamente inconcebível. Eu aceito toda a Medicina, tudo que a Genética pode dar de recurso para você fazer diagnóstico para tratar, para preparar a família, para qualquer coisa nesta direção... Para matar, não! Se ele não tem cérebro, ele vai viver muito pouco, mas o pouco que ele viver é o pouco de que ele precisava. Nós sabemos... André Luiz mostra para nós que existem situações em que o Espírito precisa de curtas encarnações para reorganizar seu perispírito. Você vai aleijar um coitado que já está capenga deste jeito, impedindo que ele viva uns míseros seis meses que ele precisava de gestação? Já que vai abortar, aborta antes, como se esses seis meses de gestação não significassem nada para o Espírito? Se não significassem, ele não encarnaria. E o que esse Espírito recebeu de amor, de fluidos, de vibrações harmonizantes da sua mãe? Quanta coisa você faz por esse Espírito naquele pouquinho de tempo! André Luiz nos mostra a questão daquela gestação espiritual, aquela gestação perispiritual onde a mãe fez aquela troca toda energética com o filho. Então, se durou um mês, dois meses, três meses de gestação, foi uma encarnação, e aquele Espírito recebeu exatamente o que precisava para estar pronto para a próxima encarnação que ele iria ter. Assim, eu não consigo encontrar nenhum motivo para justificar um aborto, até hoje.

– É admissível, à luz do Espiritismo, a clonagem humana, ainda que feita com fins terapêuticos?

Carmem – Eu acredito que sim. Nesse sentido, se você colocar a coisa nesta ordem, eu acho que sim. Quando se pensou na possibilidade de fazer a fecundação in vitro, a discussão era exatamente a mesma. Quando entrevistaram o Chico, o Chico disse que Deus tem motivos que a gente desconhece. Se isso for possível de ser desenvolvido é porque Deus tem uma intencionalidade que nós ainda não conhecemos, mas que conheceremos futuramente. O bebê de proveta, que é um sucesso no mundo inteiro, vem fazendo a alegria de muitas famílias e permitindo a reencarnação de um número imenso de Espíritos. Estes Espíritos estão vindo com a permissão de Deus, senão, não estaria sendo feito o acoplamento do espírito àquele corpinho que está se formando. Se nós pensarmos na clonagem como uma possibilidade de resolver problemas, por exemplo, de infertilidade, eu vejo isto como uma possibilidade. Eu não vejo como nós pensarmos, como espíritas sinceros, considerando Deus coordenando o processo, que isto possa ser visto como uma invasão nos domínios divinos, como dizem as doutrinas dogmáticas.

O que a gente discute, e que seria inadmissível para a Doutrina Espírita, seria a clonagem com fins terapêuticos do seguinte tipo: você fazer um corpinho para depois tirar todos os órgãos para transplantes. Então você estaria propiciando uma encarnação para um futuro descarte deste ser. Isto é inadmissível, porque nós esbarramos na questão de que aquele corpo tem uma alma, aquele indivíduo é uma individualidade e ele tem o direito à vida. Assim como nós somos contrários ao aborto, nós somos contrários à eliminação, em qualquer fase do desenvolvimento embrionário, de um embrião para se aproveitar células-tronco, ou órgãos, ou qualquer coisa dele. Seria uma espécie de eutanásia e isto seria inadmissível. Agora, a clonagem, para você imaginar, você conseguir permitir o desenvolvimento de um embrião através desta metodologia, como nós fazemos hoje com a metodologia da fecundação in vitro, eu acho que seria passível. Daria certo, se Deus o permitisse. Se fosse uma coisa contrária aos desígnios de Deus, se nós tivéssemos proporcionando uma aberração, isto não aconteceria, porque Deus não permitiria a ligação do Espírito àquele corpo. Mas não podemos pensar assim: vamos tentar, se der certo é porque Deus assinou em baixo. Não, a gente tem que ter responsabilidade pra imaginar se isso seria condizente com o que a gente preconiza da vida, de acordo com o que o Espiritismo ensina para nós. Eu acho que se nós estivermos pensando em criar um indivíduo, através da clonagem, para que um casal sem filhos possa tê-los, ou, de repente, ter a condição de ter um gêmeo, como temos alguns casos, para depois, futuramente, doar um rim, ou doar medula..., você não está descartando aquele indivíduo, você está permitindo que aquele indivíduo salve a vida de um irmão, se é que esse irmão vai ter a permissão de ser salvo. Então, qualquer dessas situações, eu acho que é plausível e não iria contra nenhum conhecimento doutrinário que nós temos. O que seria absolutamente inconcebível seria mesmo você criar esse indivíduo para depois descartá-lo, ou por motivos de, como algumas pessoas querem, ressuscitar um filho morto... Coisas desse tipo não teriam sentido. O Espiritismo viria explicar e esclarecer que você ter um clone daquele filho que partiu não garante que o Espírito dele reencarne nesse novo corpo. O Espiritismo poderia até acrescentar a esta hipótese uma explicação muito clara. Nesse ponto seríamos contrários, porque não vai acontecer. É muito mais provável você ter a reencarnação desse filho novamente no mesmo lar se houver a permissão, mas não pelo motivo da semelhança do corpo físico, pois, não é isso que o determina.

– Você poderia nos falar um pouco sobre a música que se revela nos genes e sobre as melodias daí decorrentes que lembram músicos famosos?

Carmem – Nós até já fizemos uma palestra sobre este assunto. Existe um matemático geneticista americano, Susumo Ohno (foto), um estudioso do princípio da vida, que publicou alguns trabalhos interessantes. Os primeiros organismos eram muito simples, formados por um material genético muito pequeno. Eles eram feitos de RNA e não por DNA, e a hipótese mais aceita hoje para a origem da vida, evolução da vida, bem nesse primórdio, bem nesse comecinho, é que houvessem multiplicações, duplicações desses pequenos pedaços para que se tornassem maiores e maiores e com isso você obtivesse um número maior de genes nesses indivíduos.

Quanto maior o número de genes, mais complexo, e aí você vê o processo evolutivo acontecendo. Este pesquisador, testando a hipótese da multiplicação dos pequenos pedaços desse ser primordial, começou a observar que nos genes existem sinais desse processo inicial, que são seqüências repetidas e que se encontram como verdadeiros refrões, como se nós tivéssemos um refrão na maior parte dos genes. Alguns desses refrões são muito repetitivos e o número de letras do DNA, o número de bases do DNA, é fixo. Então, ele começou a pensar numa ordem matemática. Começou a pensar como um matemático e percebeu que essas repetições, juntamente com o número de bases do DNA, faziam-no lembrar muito a música, faziam-no lembrar muito a cadência da música de algumas melodias, principalmente as melodias medievais. Aí deu os "dez minutos de doideira", pois o cientista funciona também nessa direção, e o intuitivo, em alguns momentos, mostra caminhos muito interessantes. Ele pensou: será que não poderia haver uma relação musical entre as bases do DNA? Desta forma, ele fez uma escala arbitrária, colocando cada nota musical em relação a uma letra. São apenas quatro letras: A, T, G, C - da base do DNA, que ele correlacionou com as notas musicais dó, ré, mi, fá e depois sol, lá, si, dó.

Aí ele começou a brincar de traduzir algumas seqüências de genes para aquela seqüência musical e ver o que acontecia. Havia algumas regras na escritura da musicalidade, na escritura da música, que ele colocava como regra a questão do número de bases das repetições. Repetições com 12, repetições com nove, repetições com seis davam uma cadência um pouco diferente nas músicas. E ele se associou a um músico para ajudá-lo a fazer, de repente, algum tipo de arranjo, qualquer reparo que fosse preciso para que pudesse fazer essa tradução. Ele tinha três diferentes possibilidades de relação entre as letras e as notas musicais. Com tudo isso, ele fez as análises e teve seqüências que só um computador poderia analisá-las, porque há muitas possibilidades, os genes são muito grandes. Então, começou por algumas cantigas, encontrando, assim, alguns resultados muito interessantes. Por exemplo, existe uma proteína do leite que a música faz lembrar uma canção de ninar. E não é por arranjo, é a seqüência de notas. Se você tocar as notas, sem nenhuma preocupação de arranjo, você tem uma canção de ninar. Uma música de um oncogene - gene que causa a transformação de uma célula normal em cancerosa - dá uma música fúnebre. E há algumas outras melodias interessantes. Uma delas é um pedaço de uma RNA polimerase, uma enzima que faz uma parte da síntese protéica, de camundongo. Um pedacinho dela, pois ela é muito grande, um pedacinho da seqüência do gene tem uma semelhança extraordinária com o Noturno de Chopin. Quando você escuta pela primeira vez a seqüência, você diz assim: isto aqui é o Noturno de Chopin tocado por um principiante, ele cometeu alguns erros. É muito lindo! Essas coisas sinalizam pra gente que há muita coisa por descobrir.

Eu assisti, há muitos anos (1986), a uma palestra desse pesquisador, na qual ele trouxe a gravação de uma peça que ele mesmo montou, pegando uma proteína que é formada, como a hemoglobina, de quatro cadeias de proteínas. Na verdade você tem dois genes envolvidos para fazer uma hemoglobina, a cadeia alfa e a cadeia beta, cada uma com duas moléculas e as quatro moléculas, então, se juntam para fazer a hemoglobina funcional. Ele também pegou uma proteína que é formada por cinco cadeias, uma proteína complexa com cinco diferentes cadeias e, portanto, cinco genes. Analisou a seqüência desses cinco genes num pedaço da proteína. Tomou o pedaço do primeiro gene que dá um pedacinho que se encaixa numa parte da proteína. Essas proteínas têm uma configuração; cada cadeia se enrola de forma especial, então você tem, às vezes, uma cadeia que é um pouco maior que a outra naquele pedacinho dela que você está observando. Ele viu tudo isso e outra coisa ele notou também. De repente, percebeu uma alça que uma cadeia faz, de forma que, naquele pedaço, enquanto uma está usando uma direção, uma outra está ao contrário, de trás para frente. Ele respeitou até esta ordem. Notou que naquela seqüência ela deveria ser tocada de trás para frente. Pôs um violino para tocar cada uma das melodias, cada uma das cadeias, e pôs os cinco violinos juntos. Qual a probabilidade matemática disso ter dado uma melodia? Muito pequena... E esse foi um dos momentos em que eu teria me convertido. Você lá, naquela platéia, no Instituto Butantã, com aquele monte de geneticistas... Eu chorei de emoção. Olhava em volta e via que na verdade era um chororô só. Não era só eu que estava emocionada, não, porque eu nunca vira uma peça tão linda. E você não tem como não ver Deus nesse processo. Existem regras na construção dos genomas que nós não conhecemos ainda, isto aí são pistas. Para mim, é um indício que precisa ser aprofundado e que tem que ser analisado.

– Agradecendo a gentileza de sua atenção, colocamos à sua disposição um espaço para sua saudação final aos nossos leitores.

Carmem – Assim no improviso pode não sair algo muito bom, mas, já que nós estamos conversando sobre Genética, sobre Ciência, sobre as discussões entre Ciência e Espiritismo, então eu deixaria como uma mensagem final um conclame aos espíritas a estudarem um pouco de Ciência, a desenvolverem um pouco a capacidade de conhecer, para poderem fazer suas próprias análises e julgamentos e não fugirem desses raciocínios. Desenvolver o senso crítico como Kardec ensinava. Utilizar esses recursos para desenvolver esse senso crítico. A Doutrina nos dá o embasamento para questionarmos. Isto se encaixa aonde? Isto aqui é certo se for assim, mas é errado se for assado. Porque técnica é técnica. Você pode usar a técnica da energia atômica para fazer milagres maravilhosos, a cura com as bombas de cobalto, como também você pode fazer a bomba atômica. Então, o problema é a utilização, o emprego que se faz. Assim, o que é certo? O que estaria de acordo com a lei de Deus? De que forma nós estaríamos contribuindo para o equilíbrio, para o crescimento desse Espírito? Nesse sentido, eu acho que nós só temos a ganhar desenvolvendo essa busca do compreender, do conhecer mais, porque ninguém precisa se tornar físico para conhecer um pouquinho de Física, para entender a dinâmica dos fluidos e a importância dos pensamentos gerando saúde.

Ninguém precisa ser geneticista para entender um mínimo do genoma humano, das regras que estabelecem a doença e a saúde e a herança das características para poder pensar em programação reencarnatória, pensar em saúde, pensar em longevidade. Programação da vida, para nós, ainda é um grande enigma, porque ainda não pensamos suficientemente nisso. Então, eu acho que a gente precisa pensar mais, assistir a um pouco menos de palestra com o intuito de ouvir o que devemos pensar. Pensar um pouco mais com a nossa própria cabeça e ir aos livros para achar o embasamento que nós precisamos, e começar a ter idéias, começar a tirar conclusões. E aí, sim, vamos discutir se essa idéia, ou essa conclusão, é acertada, se alguém tem mais alguma colocação sobre esse assunto, se h algum detalhe que nós ainda não pensamos... E, nesse exercício, nós vamos crescendo e nos tornando mais espíritas, como Kardec pediu.


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O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita